Terça-feira, 09.03.10

Este tem sido o Inverno do nosso descontentamento. Desde logo, meteorologicamente. Nunca como este ano tenho estado tão farto da chuva, do vento e do frio, e das previsões meteorológicas que, invariavelmente, prevêem chuva para os próximos dias. E não se enganam.
Mas, pior ainda que o tempo meteorológico, no país real da política não pára a chuva de casos, intrigas e revelações inundando os média e deixando tudo literalmente na lama, o país transformado num pântano e numa grande metáfora climática.
A verdade é que estou, estamos, fartos, de Sócrates e da sua obsessão doentia pela comunicação social. Tão fartos dele como da comunicação social e da sua obsessão doentia pela obsessão doentia de Sócrates. Isto não é saudável.
E o pior de tudo é a impunidade com que este sistema de justiça e, muito em particular, a magistratura judicial, do Ministério Público, não faz nada para impedir que certos elementos seus condicionem as investigações, manipulando informação, fazendo fugas de imprensa sistemáticas, corrompendo completamente todo o sistema.
Estamos fartos que toda a gente diga que o principal problema é a justiça e ninguém faça nada. Estamos fartos deste bloqueio político em que já não acreditamos no governo e não acreditamos na oposição e nas suas rupturas e mudanças e políticas de verdade.
É um território perigoso este pântano. Pode abrir caminho a demagogias e populismos que se apresentam como clarificadores e acabam em autoritarismos déspotas. Quando começamos a ver maus jornalistas a transformarem-se em mártires da luta pela liberdade de imprensa está aberto o caminho para vermos maus políticos a transformarem-se em justiceiros da insatisfação popular.
Os média parecem um disco riscado e o coro de comentadores, a que me junto nesta crónica, repete incessantemente os refrões da praxe: contra, a favor, os do “isto já não tem saída”, e os do “é preciso acreditar”. Já para não falar dos cómicos e dos piadistas, que pululam por todo o lado, tanto quanto as novas fadistas. E estamos todos fartos uns dos outros. Deve ser do tempo.
E, no entanto, mais do que nunca, é preciso saber ler os sinais, é preciso ter critério, é preciso ter lucidez, inteligência, sensibilidade, é preciso separar, escolher. Não recusar a política, mas separar os maus políticos dos bons políticos, seguir os bons jornalistas e ignorar o mau jornalismo, não perder tempo com os engraçadinhos para poder rir com os cómicos, é preciso fazer escolhas, escolher o essencial, esquecer o acessório.
É preciso ter um critério de exigência, procurar em todas essas áreas as boas ideias e as boas pessoas e no meio do ruído encontrar as vozes certas fazendo dissipar as nuvens que as estão a tapar.
Para concluir, recorro ao mais citado e singular dos comentadores portugueses. Falo, claro, de Gabriel Alves. O homem que disse frases tão inesquecíveis como “um passe para a zona de ninguém, onde realmente não estava ninguém” ou “Juskoviac, a vantagem de ter duas pernas” ou ainda, enquanto o público gritava “Ó Pinto da Costa vai para o c.....” : “o público entusiasmado apoia as duas equipas”. Verdadeiros haikus com uma amplitude de significado que não se esgota no jogo de futebol.
O meu haiku favorito de sempre de Gabriel Alves é, na sua contenção, um tratado definitivo sobre o falhanço. O falhanço do próprio comentador mediante a incerta realidade. Penso muito nele a propósito de Portugal: “Já perdeu tempo para o remate... Golo.”
Portugal já perdeu tempo para o remate, falta dizer golo.
 

Crónica publicada no Económico no dia 6 de Março de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:28 | link do post

Terça-feira, 02.03.10

Há 20 anos que trabalho em televisão e ainda não me habituei ao sacrossanto culto das audiências. Eu sei que não sou exemplo para ninguém e que no “mundo da televisão” serei sempre um estrangeiro, um tipo que veio do lado da cultura, pior que tudo: um intelectual. Ou seja, um tipo que não percebe nada de televisão. (Claro que para o “mundo da cultura” eu serei sempre o tipo da televisão, um entertainer. Ou seja, um tipo que não tem nada a ver com a cultura.) Mas a questão das audiências e da obsessão de (quase) todas as pessoas que trabalham em televisão pelas audiências sempre me passou ao lado. Eu sei que os canais que vivem de publicidade dependem das audiências e que não há serviço público sem público, mas – e este é um grande mas – primeiro, penso sempre que a prioridade deverá ser fazer não o que nos parece que o público acha o melhor possível, mas aquilo que nós achamos que é o melhor possível; segundo, as audiências já não são o que eram, ou seja, têm cada vez mais que se lhe diga.
É raro encontrar um director de programas que diga que gosta ou não gosta de um programa antes de consultar as audiências. Pode parecer estranho mas o normal em televisão, quando se pergunta a um director se gostou do programa, é receber a resposta: “vamos a ver amanhã”, isto é, “vamos a ver se teve boas audiências, porque se teve é sinal de que gostei muito”. Traduzindo para a vida real, é como se a excelente noite que passámos só foi realmente excelente se o público tiver gostado, ou na versão do Woody Allen: “Finalmente tive um orgasmo mas o meu médico disse-me que era do tipo errado”.
Esta febre das audiências é contagiosa. A quantidade de pessoas que nas produtoras de televisão correm com ansiedade para ver “como é que foi ontem” é incomparavelmente superior ao número de pessoas que se preocupa com a qualidade do programa. E, no entanto, chamem-me idealista, mas continuo a achar que o verdadeiro barómetro deve ser a consciência que cada um tem do trabalho que está a fazer, a partir das reacções que tem. É claro que as audiências são um dado importante mas – cada vez mais – a análise dos públicos não se resume a um simples número.
Já em 1997, quando fizemos um programa chamado Herman Enciclopédia, tivemos esta percepção. O programa foi um relativo flop de audiências. Era sempre derrotado de forma clara pela programação dos outros canais. Mas começámos a reparar que – nos cafés, nos locais de trabalho, e depois nos jornais – foram aparecendo frases do programa: “não havia necessidade”, “este homem não é do norte”, “não te desgraces”, “fantástico Melga” ou mesmo “lets look at the traila”. O programa não tinha grandes audiências mas ganhou notoriedade e deixou marcas. Ao contrário dos programas que na altura o derrotavam no campeonato das audiências.
Hoje em dia há muitíssimas mais razões para pôr em causa esta ditadura das audiências. Com a multiplicação dos canais e dos hábitos de consumo, os mecanismos de medição estão manifestamente obsoletos e não acompanham minimamente o que se está a passar em termos de visionamento. As agências de meios têm interesses instalados, ou seja, modelos de negócio e de influência sobre os anunciantes que estão promiscuamente relacionados com o status quo dos canais generalistas. Por fim, hoje mais do que nunca, os públicos estão pulverizados e dizer que se teve x ou y de audiência ou de share pode não querer dizer nada, se não tivermos mais dados. Por exemplo, o perfil de quem estava a ver ou a quantidade de pessoas que não viu nessa altura mas vai ver mais tarde, em gravação, on demand, na net...
Dizendo de outra maneira, temos que comparar tudo porque cada vez mais as coisas não são comparáveis. Não podemos comparar o milhão de pessoas que viu a telenovela com as cem mil que viram a entrevista com o escritor. Tal como não podemos comparar a tiragem do livro de poemas do Herberto Hélder com as vendas do José Rodrigues dos Santos.
A decadência das televisões generalistas e a multiplicação dos canais de nicho vem trazer uma nova realidade. Agora não temos público, temos públicos. Muitos públicos. 

 

Crónica publicada no Económico no dia 27 de Fevereiro de 2010.

 

 



Nuno Artur Silva às 10:20 | link do post

Terça-feira, 23.02.10

Nasci nos anos 60, em 62, no exacto dia em que os Beatles lançaram o seu primeiro single, Love Me Do. Adoro os Beatles, as suas canções, e tudo o que eles foram e representaram. Quando os comecei a ouvir já eles tinham acabado. O meu primeiro LP dos Beatles foi o duplo de capa azul com o best of da 2ª parte da carreira deles. Eu, tal como Portugal, cheguei tarde aos anos 60, por causa da minha idade e por causa da ditadura. Em Portugal a explosão da cultura pop e jovem (passe a redundância) só aconteceu plenamente depois da revolução e do PREC, já nos anos 80.
Este delay acompanhou sempre a minha adolescência e fez de mim e de muitos da minha geração um adolescente tardio com tendência para começar a gostar de coisas que já tinham acabado. Daí a passar a gostar de coisas porque já tinham acabado foi um pequeno passo para a melancolia.
Musicalmente, os anos 70, os anos da minha adolescência, foram anos de rock sinfónico, de bandas pop rock que incharam em delírio megalómano até rebentarem ou serem rebentadas pelo movimento punk.
A verdade é que nunca gostei muito de rock, com excepções de que gosto muito, como Jagger e os Stones ou Morrison e os Doors (Muito menos de hard rock ou heavy metal. O punk sempre detestei). Mas adorava poder ter estado com 16 anos em Londres no início dos anos 60, e em São Francisco no final dessa década.
Extraordinário foi estar em Lisboa no 25 de Abril de 74, ter saído à rua nos dias seguintes e ver a revolução. Tinha 11 anos. Se tivesse 18 talvez fosse perfeito.
Vivo na cidade do Pessoa mas nasci quase 30 anos depois dele ter morrido. Estive de certeza em cafés e esquinas onde ele esteve. É possível que o meu pai, mais possível ainda o meu avô, se tenha cruzado com ele numa qualquer rua da Baixa. Se calhar falaram e beberam um copo juntos. É possível que um dos miúdos que vejo a jogar à bola no meu bairro lisboeta seja o super Pessoa do século XXI.
A seguir ao 25 de Abril comecei a ouvir música brasileira. Lembro-me que um dos primeiros discos era um best of do Chico Buarque, que vi ao vivo numa das primeiras festas do Avante. E depois foi o Caetano, e depois a bossa nova.
Se tiver que escolher um género musical é este, essa bossa e seus cantores. João Gilberto, a começar tudo com o Chega de Saudade, e Jobim, o compositor maior. Penso como seria maravilhosa a cidade, o Rio de Janeiro, no final dos anos 50, naquele intervalo de meia dúzia de anos antes da ditadura e antes das favelas e do crime. No meu best of do Mundo esta era a faixa 1: ter 20 anos e partilhar as canções e a praia com as garotas de Ipanema e os seus cantores.
A felicidade no Mundo, como na vida de cada um de nós, é efémera, mas pode acontecer várias vezes e sempre onde menos se espera. Ao olhar para trás, para toda a História do Mundo, para toda a alegria e glória, para toda a tragédia e pó, penso como seria a utopia da viagem no tempo, por todos os tempos e lugares do Mundo. Se fosse possível, como num best of das melhores músicas, viver, estar no sítio e no tempo dos melhores momentos do Mundo.
Uma ideia que tenho para um livro que ainda hei-de fazer, O Mundo, best of: Rio de Janeiro, 1958; Lisboa, 25 de Abril a 1 de Maio de 1974; Londres, início dos anos 60; Califórnia, fim dos anos 60. Mas também: Paris, início do século XX ou Filadélfia na Revolução Americana. Ou Roma, na República Romana. Ou a Atenas dos Filósofos. E a Lisboa de D. Manuel, no Terreiro do Paço, com o regresso das Caravelas e os seus mistérios e maravilhas. Córdova e o Al Andaluz. O Egipto de Nefertiti. O momento da descoberta do Brasil, ao lado de Pêro Vaz de Caminha. A Florença do século XV. A Pérsia de Alexandre. A Badgad das mil e uma noites. Uma ilha esquecida da Polinésia...
Discografia alternativa, os lados B dos singles, as faixas esquecidas, as raridades: Aquele entardecer perdido no Portinho da Arrábida da adolescência. O pai a dizer : uma noite descansada, antes de eu voltar a acender a luz para ler. Eu a dizer ao meu filho uma noite descansada. Como diz a canção, o melhor lugar do mundo é aqui e agora.



Nuno Artur Silva às 09:43 | link do post

Terça-feira, 16.02.10

Promoveu a Sociedade Portuguesa de Autores, em colaboração com a RTP, a Gala dos Prémios Autores, que teve lugar esta semana no CCB e transmissão directa via RTP 1. A iniciativa é louvável. Um dos sinais da vitalidade de uma indústria é a existência de festivais ou iniciativas de escolha e premiação dos artistas dessa indústria. Em Portugal, tirando o território da publicidade e do marketing onde, pelo contrário, se dão prémios até à exaustão e ao ridículo, não é habitual celebrar os artistas vivos, nem a memória dos que nos deixaram. As galas de atribuição de prémios, quando acontecem no universo televisivo, confundem-se normalmente com festas do social e o critério de escolha dos premiados resume-se quase sempre a votações populares via chamadas de valor acrescentado ou cupões de revistas cor-de-rosa.
É por isso de saudar que surja uma iniciativa vinda de uma casa de autores, que se destine a premiar a criação em vários domínios e, particularmente, no caso do audiovisual, cinema e televisão, que há muitos anos não tinham uma escolha dos melhores do ano feita por críticos ou profissionais do sector.
Por muito arbitrária e discutível que seja essa escolha, e por muito relativo que seja, para um artista, a eleição como “melhor do ano”, estes momentos são sempre um pretexto para se celebrar e pensar comparativamente a produção nessa área artística.
Dito isto e não hesitando em elogiar a iniciativa, não quero igualmente deixar de manifestar a minha surpresa e o meu desconcerto quando ao assistir ao desfile dos prémios e dos premiados reparo que, nomeadamente nas áreas do teatro, do cinema e da televisão, não só não se considera a categoria de escritor, dramaturgo ou argumentista, isto é, o primeiro autor de uma obra de ficção teatral ou audiovisual, como quando o prémio é atribuído ao filme ou à série quem é chamado ao palco são os actores e produtores. A situação tem o seu climax de ironia quando, depois de receber o prémio para melhor programa de ficção pela série Conta-me Como Foi, o produtor actual da série chama ao palco toda a gente menos os argumentistas, que mal são referidos no discurso de agradecimento. É certo que é um formato espanhol, mas cada episódio é um original português, escrito de raiz.
Um dos chavões da cultura portuguesa é que “não há argumentistas em Portugal”. Como poderão eles ser reconhecidos se quando se dão prémios para o teatro, para o cinema e para a televisão, não se premeia aqueles que nestas áreas são os primeiros autores: dramaturgos, argumentistas, guionistas? Para ser exacto, é como dar o prémio de melhor romance ao editor do romance, sem referir o escritor ou dar o prémio de melhor disco à editora discográfica, sem referir o músico.
Sabendo que a infeliz tradição da nossa pequena indústria de entretenimento e audiovisual é a do louvor e glória dos apresentadores sobre o esquecimento continuado dos autores, nunca imaginei ver a própria Sociedade Portuguesa de Autores a contribuir para perpetuar o poder mediático da sociedade portuguesa de apresentadores sobre os criadores. Eu sei que era um espectáculo televisivo e que naturalmente houve a preocupação antes de mais, de certeza por parte da RTP, de pôr em palco caras conhecidas, mas é fundamental que em futuras edições haja lugar para as categorias, de facto, autorais. Estou certo que quer a SPA quer a RTP corrigirão esta falha numa iniciativa que é muito importante continuar.
À margem de tudo isto, no entanto, os autores movem-se. Também esta semana tive ocasião de participar na iniciativa Shortcutz, um festival de curtas-metragens que tem vindo a ter lugar no bar Bicaense, em Lisboa, todas as terças-feiras. Uma iniciativa de um pequeno grupo liderado por Rui de Brito, que tem vindo a exibir curtas-metragens e a promover conversas com os seus autores – realizadores e argumentistas. Havia um Benfica-Sporting mas a sala estava cheia de um público interessado nas novas gerações de autores do audiovisual. Falou-se de muita coisa, inclusivamente de filmes de zombies, a propósito da passagem do excelente I’ll See You in My Dreams, do Filipe Melo. (Filmes de zombies que são, aliás, de um certo ponto de vista, uma tradição do cinema português, onde muitas vezes temos a sensação que está tudo a morrer). A verdade é que festivais como o Shortcutz são sinais de uma nova vitalidade, por sinal nada zombie. 

 

Crónica publicada no Económico no dia 13 de Fevereiro de 2010.

 

 



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

Terça-feira, 09.02.10

Uma das minhas frases favoritas de sempre da comédia portuguesa, da comédia em geral, é a frase de António Silva no filme O Costa do Castelo, quando abre a janela da casa da sua personagem, precisamente na Costa do Castelo, e diz: “Olhem para esta maravilha, aqui é que devia ser o Estoril!”.
Eu moro na Costa do Castelo e quando abro a janela lembro-me da frase do António Silva. E vejo que a luz e a vista sobre o rio são uma maravilha, e nunca mais vi comédias como aquelas, em Lisboa e no cinema português.
Na Costa do Castelo é que deve ser a Costa do Castelo, mas a vida das cidades e dos bairros das cidades, muda, está sempre a mudar. E o que era está sempre a deixar de ser.
Torço sempre o nariz quando leio comentários, aliás frequentes, de respeitadas figuras, quase sempre mais velhos que novos, que dizem que Lisboa está cada vez mais sem interesse e sem sítios para ir, que está abandonada e a morrer. Pergunto-me sempre se essas pessoas saem de casa, ou se já experimentaram saír dos seus circuitos habituais e deixar-se ir pelos novos caminhos, para os novos sítios de Lisboa? É claro que Lisboa já não é o que era, é outra coisa. Mas percorrendo a cidade e observando o que se perdeu e o que se ganhou, parece-me evidente que nunca Lisboa foi tão diversa, dinâmica e estimulante nas últimas décadas como é agora.
Há muitas Lisboas em Lisboa, para além do bilhete postal do castelo, das sete colinas e do rio. E dentro do bilhete postal, por entre a luz de Lisboa, há as pessoas e a vida de todos os dias. A vida dos bairros. Como o da Costa do Castelo. Aliás, uma pulverização de múltiplas freguesias separadas numa organização administrativa que não faz sentido e não dá efectivos poderes às direcções das Juntas de Freguesia, para poderem resolver os pequenos problemas dos seus habitantes.
A vida de um bairro como este está sempre num equilíbrio precário, frágil e vulnerável a qualquer pequena mudança. A minha casa fica entre dois restaurantes. Nas traseiras o ambiente é sempre festivo, há música de fundo e animação e isso traz vida ao bairro, sem no entanto o perturbar de forma drástica, antes lhe dá um colorido harmonioso. Frente à minha casa, na rua de baixo, um outro restaurante veio mudar radicalmente o ambiente do bairro. Desde logo pelo cheiro insuportável a fritos de má qualidade, mas sobretudo pelas hordas de adolescentes que se acumulam à porta e que depois dos jantares ficam a beber cerveja e depois a uriná-la e vomitá-la por todos os cantos, sempre com manifestações de grande alarvidade gutural.
A pequena praceta dos jacarandás vai ficando conspurcada com os imundos graffitis e tags, odiosas formas de expressão sem imaginação e ditatoriais na maneira como se impõem na paisagem perante aqueles que lá moram ou passam.
À noite, com os outros bares à volta, as ruas enchem-se de carros por cima de todos os passeios e, por mais que se peça à Câmara Municipal para vedar o trânsito, para o limitar aos moradores, isso não acontece, e a única actividade policial é a caça à multa indiscriminada, que frequentemente recai sobre os próprios moradores, que se vão cansando cada vez mais da dificuldade permanente que é viver no centro de Lisboa.
Agora é Inverno, chove e faz frio. Lisboa parece feia e triste. Na praça dos jacarandás, do outro lado do restaurante dos jovens alarves, em frente ao Ministério das Obras Públicas, aumenta de semana para semana o número de sem-abrigo que ali dorme, no meio de cartões e plásticos. Não se vêem das janelas das casas da Costa do Castelo, agora fechadas, abrigadas do vento e da chuva.
Com a Primavera e os jacarandás em flor vão-se voltar a abrir as janelas e talvez alguém volte a dizer “Olhem para esta maravilha!”. Talvez se venha a filmar uma comédia aqui, talvez tenha graça. Mas o Estoril também já não é o que era.

 

Crónica publicada no Económico no dia 6 de Fevereiro de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:03 | link do post

Terça-feira, 02.02.10

E ao vigésimo sétimo dia Steve Jobs lançou o iPad. E viu que era bom. “É a nossa tecnologia mais avançada, num aparelho mágico e revolucionário, a um preço inacreditável”, diz Jobs to the boys (and girls), que estavam mesmo a pedir, o iPad.
O iPad é, e cito a notícia do i, “um leitor de livros electrónicos, um aparelho de acesso à internet, um centro multimédia para gerir fotos, vídeos, música e contactos, uma consola de jogos...”
A característica decisiva é, sem dúvida, a primeira: um leitor de livros electrónicos. O próprio Jobs elogiou o papel pioneiro da Amazon nos leitores de livros electrónicos, mas disse que com o iPad a Apple vai “subir para os ombros” da Amazon. Ou seja, vai replicar o modelo da iTunes Store. Isto é, o mercado dos livros electrónicos (e dos jornais electrónicos, o New York Times é, desde já, o primeiro parceiro) vai ter finalmente o seu boom.
Uma revolução em marcha, claro. E o papel, o papel dos livros e dos jornais? Não vai desaparecer, mas os livros e os jornais vão ser cada vez mais objectos, peças de design, para guardarmos o que queremos preservar. Relembremos o verso de Caetano Veloso: “os livros são objetos transcendentes / mas podemos amá-los do amor táctil”.
A transcendência dos livros materializa-se cada vez mais no imaterial electrónico dos e-readers. Estamos a ler de uma nova maneira, tal como quando deixámos de ler em voz alta e passámos a ler em silêncio, agora estamos a aprender a ler em hiperligação. Não é só ler vários livros ao mesmo tempo, e jornais e afins, é ler e abrir uma porta numa palavra para passar para outro texto, e doutro texto para outro texto, sem fechar a porta do primeiro.
Passamos do texto para o hipertexto, e no paradoxo da hiperleitura lemos cada vez mais e cada vez menos lemos, com o tempo que temos, que não temos, para o tempo que a literatura exige.
Eu adoro ler livros, romances, contos, ensaios... Todos os dias leio referências a livros que quero ler e que se publicam diariamente. Mas só leio as referências, não leio os livros. Não tenho tempo. E olho à minha volta e vejo que é igual com os outros que, como eu, gostam de livros e gostam de ler. Mesmo os que vivem de escrever sobre livros (ou sobretudo esses) lêem a correr, transversalmente. E depois passam para outro, e para outro. Transformámo-nos todos em Marcelos Rebelo de Sousa, a despachar recomendações e títulos. Todos? Nem todos. Há, felizmente, aldeias de gauleses irredutíveis, fora do tempo. Mas o tempo é de hiperligações, caminhamos por cima de livros abertos e deixados a meio.
E o papel, o papel dos escritores, dos intelectuais? Pessoa antecipou tudo. O escritor é persona e personas, o escritor é múltiplo e palco de dramas em gente. O drama hoje em dia está desdramatizado mas os escritores heteronimizam por aí, pelo espaço público- que é o espaço mediático. Os escritores estão a tornar-se actores, performers e, tal como os músicos que, depois da net ter estoirado com as editoras todas poderosas, vivem dos concertos ao vivo e seus derivados, os escritores e intelectuais contemporâneos vivem dos seus espectáculos ao vivo: lançamentos, conferências, debates, defesa de causas, participações em fóruns, programas de TV, net, redes sociais, etc.
Os escritores do século XXI são performers da palavra no espaço público. Haverá sempre os eremitas, claro ( por sinal os que poderão ter mais valor mediático pela escassez das suas aparições), mas como já acontece noutros territórios - como a política, tudo se joga na representação pública no palco dos media e na replicação dessas representações nas hiperligações.
A literatura, ou a poesia, no futuro, como no passado, é o que resiste, o que fica dos tempos, com o tempo.



Nuno Artur Silva às 10:02 | link do post

Terça-feira, 26.01.10

De que falamos quando falamos de televisão? De dia para dia a pergunta aumenta a sua interrogação. Na segunda metade do século XX a televisão ocupou o centro do palco mediático contemporâneo e o televisor foi o altar das nossas salas de estar. Foi o tempo das grandes estações generalistas, das grandes produções, do grande fluxo televisivo.
E agora? O televisor continua nas nossas salas de estar, mas está também frequentemente noutras divisões da casa. E há os portáteis e mutantes computadores, telemóveis, consolas, etc. Écrãs por todo o lado e cada vez mais conectividade, convergência, integração. Ou seja, acesso a conteúdos e plataformas de todas as maneiras e feitios. A diferença passa a ser mais de condição de recepção: mais perto, mais longe, com maior ou menor qualidade de definição e imagem, ver sozinho ou ver acompanhado; e muito menos do tipo de conteúdo, no sentido em que tudo tende a estar permanentemente disponível, seja por que meio for. Vai ser curioso ver quais as expressões que vão prevalecer. Continuaremos a dizer “ir à net”? E o que é que isso vai querer dizer? E ver televisão vai ser o quê?
O que vai acontecer com os conteúdos audiovisuais é o que já aconteceu com os conteúdos musicais. Eles vão surgir por todos os poros da net. E isso vai mudar radicalmente a indústria. Já está a acontecer em todo o mundo e vai acontecer em Portugal.
Veja-se o caso da música. Nunca a música popular portuguesa foi tão rica e variada. Porquê? Porque deixou de estar tudo afunilado nas editoras que decidiam o que se devia editar e não editar. Porque deixou de haver meia dúzia de papas que decidiam o que era ou não era bom. Desde que qualquer músico passou a poder chegar directamente aos ouvintes sem ter a autorização de qualquer detentor de meios de distribuição, que as propostas musicais se multiplicaram e a diversidade abriu novos caminhos, não só artísticos, mas igualmente novos modelos de negócio, dando origem a um novo panorama musical, inquestionavelmente mais vibrante e estimulante.
É preciso que aconteça o mesmo no audiovisual. Durante anos a produção audiovisual portuguesa foi decidida por meia dúzia de pessoas, em lugares chave: os directores, primeiro só da RTP, e depois da SIC e da TVI. É muito pouca gente para decidir o que tanta gente deve ou não deve ver. Se analisarmos mais em pormenor a história da televisão em Portugal, veremos que não só os centros de decisão eram muito poucos e sempre os mesmos, como as pessoas que ocuparam esse lugar foram e continuam a ser sempre as mesmas ou com o mesmo perfil. Quase sempre jornalistas, generalistas ou da área da política, a decidirem que filmes, séries, documentários, programas, é que devem ser produzidos.
O património audiovisual criado pelas televisões portuguesas reflecte o perfil dos decisores. Há um domínio de programas de informação de actualidade e entretenimento e uma escassez absoluta de programas de documentário e ficção. Há uma abundância de apresentadores e uma falta gritante de autores.
Tal como na música, este mundo está a acabar. Os canais vão-se multiplicar e os conteúdos audiovisuais vão surgir por todo o lado. E, à partida, essa diversidade é muito boa. Mas fazer produção audiovisual é mais caro do que fazer música. E a perda de importância dos canais generalistas traz grandes desafios. Quem vai investir em conteúdos de produção mais cara? Desde logo reportagens de investigação e, na área da ficção, grandes séries e filmes? Como é que se vai conseguir massa crítica, investimento publicitário, receita, se tudo está pulverizado e as audiências dispersas por mil e uma plataformas? E a questão não se põe unicamente do ponto de vista da sustentabilidade do negócio. Antes de mais, o que se pergunta é: que meios de comunicação, que canais, vão ser agregadores capazes de atrair e mobilizar comunidades? Ou seja, de ter relevância política.


 

Crónica publicada no Económico no dia 23 de Janeiro de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:20 | link do post

Terça-feira, 19.01.10

“Famílias e como sobreviver-lhes” era o título do livro que John Cleese fez a meias com o (seu) psiquiatra Robin Skynner e podia ser uma definição para a vida de cada um de nós. Ou nas palavras de Philip Larkin “They fuck you up, your mum and dad. / They may not mean to, but they do. / They fill you with the faults they had / And add some extra, just for you. / But they were fucked up in their turn / By fools in old-style hats and coats, / Who half the time were soppy-stern / And half at one another's throats.”, Não preciso de traduzir, julgo que o primeiro verso, que dá o tom, é Esperanto Universal. 

As famílias são a base da sociedade e podem ser, claro, lugares maravilhosos ou inescapáveis pesadelos. Ou as duas coisas, ou nenhuma delas. A verdade é que nascemos, quase todos, no seio delas, e delas temos que nos emancipar e libertar, partir para outra, quase sempre para outra família, sabendo sempre que a nossa família inicial permanece connosco até ao fim, bem ou mal.

Isto tudo a propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da discussão à volta da sua legalização. É sempre fascinante observar a obsessão da direita conservadora, com o seu lastro de opressão católica sobre a liberdade, a individualidade, o corpo e o desejo, em querer que o Estado interfira e controle aquilo que é mais irremediavelmente pessoal, enquanto simultaneamente defende a mínima intervenção possível desse mesmo Estado em tudo o que tenha a ver com os bens materiais e as suas transacções e negócios , negando uma intervenção estatal reguladora para a salvaguarda de um mínimo de dignidade social e de condições e oportunidades económicas justas para todos. É como se o dinheiro fosse o corpo para o sexo livre e sem barreiras, a orgia pública e consentida da direita dos bons costumes.

Mas o que estava em questão era pura e simplesmente uma questão de igualdade de direitos. O amor, o sexo ou a amizade são outra coisa. E não são para aqui chamados. Aqui trata-se de um direito a um contrato. Um contrato de casamento. Uma relação institucional de direitos e deveres com o Estado, que já tardava em ser aprovada. A sua proibição a pessoas do mesmo sexo era uma imposição abusiva do Estado ( como, aliás, é abusiva a lei das uniões de facto, que impõe o estatuto de casados a pessoas que não manifestam a vontade de casar).

Os argumentos de que tudo isto acabará afinal por servir unicamente a meia dúzia de casais são falaciosos no contexto do respeito pelas minorias e pelos seus direitos, que não são, aliás, referendáveis Nem que tudo isto fosse para que um único casamento acontecesse, teria valido a pena.

O que eu lamento é que tenha sido aprovado à portuguesa, com condicionante, amputada do direito de adopção. Que, no entanto, não tenho dúvidas, mais tarde ou mais cedo virá. Afinal o que é melhor: dezenas de milhar de crianças à espera de adopção, amontoadas em instituições, ou a possibilidade dessas crianças serem adoptadas por famílias, diferentes tipos de família, desde que aprovadas para adopção com critérios que tenham a ver com as possibilidades de felicidade que aquelas famílias em concreto possam proporcionar e não com preconceitos de género ou outros?

“Um dia mereceremos que não haja governos” dizia Borges. Hoje não é a véspera desse dia, dizia Asterix, a propósito de outra coisa.

Neste caso, o Parlamento, ainda que por linhas tortas escreveu direito ao aprovar esta lei. Abre caminho para famílias mais abertas, com mais hipóteses para haver nelas pessoas mais felizes.



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

Terça-feira, 12.01.10

2009 ficará como o ano da grande crise mundial. Em Portugal poderá não ser assim. Pode ser que o ano da crise venha a ser 2010. 

Os sinais são péssimos: o impasse e a degradação da cena política, a corrupção e a falência do modelo de justiça, o problema financeiro e económico e o desemprego.

Como podemos contrariar este cenário pessimista? Para além de todas as reformas necessárias e urgentes nas áreas referidas que, bem ou mal, vão inevitavelmente ter de ser feitas, a resposta é simples: o foco tem que estar na economia. É pelo desenvolvimento da economia que podemos começar a resolver o problema do país. Temos de ultrapassar as análises pessimistas do défice, da dívida e da estagnação, e passar para a aposta nos investimentos económicos de futuro.

Há inúmeros estudos sobre as potencialidades do país e as áreas onde se deve investir. Falta investir. Não há, em Portugal, uma cultura do risco. Houve, no tempo das Descobertas, depois disso ficámos soterrados debaixo de séculos de inquisição e de um século XX de salazarismo.

O problema principal da economia portuguesa é o perfil do empresário típico português. Mais chico-esperto do que informado, provinciano, sem mundo, agarrado ao dinheiro, sem dedicação à causa pública, com uma cultura empresarial onde há uma grande desproporção financeira entre os quadros superiores e os trabalhadores, e onde a motivação é muitas vezes substituída pelo simples medo de perder o trabalho. Acima de tudo, há uma visão predominantemente conservadora ou mesmo retrógrada, em vez de uma cultura da inovação e do risco.

São raras as excepções, felizmente cada vez mais, mas ainda não as suficientes para que se perceba que há uma nova classe empresarial capaz de mudar o país.

Estão identificadas áreas de grande potencial económico em Portugal, onde está quase tudo por fazer. Desde logo o turismo, mas claro um turismo que aposte na qualidade e na diferenciação. Relacionado com o turismo, mas não só, a cultura. O potencial económico da cultura nunca foi realmente valorizado por nenhum governo. O entendimento que se tem da cultura tem sido sempre o da subsidiação a actividades consideradas decorativas ou ornamentais. Falta uma política integrada e transversal de incentivo às artes e indústrias criativas para que estas possam estabelecer as suas redes e gerar valor.

E é preciso investir nas cidades, nas cidades como grandes centros agregadores de mistura e ligação, no potencial económico do cruzamento de culturas das cidades. É preciso investir no mar, na nossa costa. Nas energias renováveis. Nas redes de nova geração. Na Língua. No espaço da Língua Portuguesa. É preciso não perder a oportunidade do Brasil.

Dizia António Câmara, CEO da Ydreams, numa entrevista aqui no Económico, no final de 2009, que nos falta uma cultura de querer fazer e que o problema começa nas universidades, que não estão ligadas às empresas, não promovem essa abertura à sociedade e não estimulam o empreendedorismo. Mas dizia igualmente que apesar de não termos quadros de gestão em economia do conhecimento – “um dos dramas de Portugal” – a mudança empresarial é possível, “porque há uma massa crítica da juventude muito mais bem preparada do que alguma vez houve (...) há muito mais pessoas expostas ao mundo e portanto Portugal tem uma massa crítica de talento que nunca teve”. Portugal não pode deixar desperdiçar esta geração.
 

 

Crónica publicada no Económico no dia 9 de Janeiro de 2010.



Nuno Artur Silva às 18:26 | link do post

Quinta-feira, 07.01.10

 

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Nuno Artur Silva às 11:12 | link do post | comentar


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