Terça-feira, 02.02.10

E ao vigésimo sétimo dia Steve Jobs lançou o iPad. E viu que era bom. “É a nossa tecnologia mais avançada, num aparelho mágico e revolucionário, a um preço inacreditável”, diz Jobs to the boys (and girls), que estavam mesmo a pedir, o iPad.
O iPad é, e cito a notícia do i, “um leitor de livros electrónicos, um aparelho de acesso à internet, um centro multimédia para gerir fotos, vídeos, música e contactos, uma consola de jogos...”
A característica decisiva é, sem dúvida, a primeira: um leitor de livros electrónicos. O próprio Jobs elogiou o papel pioneiro da Amazon nos leitores de livros electrónicos, mas disse que com o iPad a Apple vai “subir para os ombros” da Amazon. Ou seja, vai replicar o modelo da iTunes Store. Isto é, o mercado dos livros electrónicos (e dos jornais electrónicos, o New York Times é, desde já, o primeiro parceiro) vai ter finalmente o seu boom.
Uma revolução em marcha, claro. E o papel, o papel dos livros e dos jornais? Não vai desaparecer, mas os livros e os jornais vão ser cada vez mais objectos, peças de design, para guardarmos o que queremos preservar. Relembremos o verso de Caetano Veloso: “os livros são objetos transcendentes / mas podemos amá-los do amor táctil”.
A transcendência dos livros materializa-se cada vez mais no imaterial electrónico dos e-readers. Estamos a ler de uma nova maneira, tal como quando deixámos de ler em voz alta e passámos a ler em silêncio, agora estamos a aprender a ler em hiperligação. Não é só ler vários livros ao mesmo tempo, e jornais e afins, é ler e abrir uma porta numa palavra para passar para outro texto, e doutro texto para outro texto, sem fechar a porta do primeiro.
Passamos do texto para o hipertexto, e no paradoxo da hiperleitura lemos cada vez mais e cada vez menos lemos, com o tempo que temos, que não temos, para o tempo que a literatura exige.
Eu adoro ler livros, romances, contos, ensaios... Todos os dias leio referências a livros que quero ler e que se publicam diariamente. Mas só leio as referências, não leio os livros. Não tenho tempo. E olho à minha volta e vejo que é igual com os outros que, como eu, gostam de livros e gostam de ler. Mesmo os que vivem de escrever sobre livros (ou sobretudo esses) lêem a correr, transversalmente. E depois passam para outro, e para outro. Transformámo-nos todos em Marcelos Rebelo de Sousa, a despachar recomendações e títulos. Todos? Nem todos. Há, felizmente, aldeias de gauleses irredutíveis, fora do tempo. Mas o tempo é de hiperligações, caminhamos por cima de livros abertos e deixados a meio.
E o papel, o papel dos escritores, dos intelectuais? Pessoa antecipou tudo. O escritor é persona e personas, o escritor é múltiplo e palco de dramas em gente. O drama hoje em dia está desdramatizado mas os escritores heteronimizam por aí, pelo espaço público- que é o espaço mediático. Os escritores estão a tornar-se actores, performers e, tal como os músicos que, depois da net ter estoirado com as editoras todas poderosas, vivem dos concertos ao vivo e seus derivados, os escritores e intelectuais contemporâneos vivem dos seus espectáculos ao vivo: lançamentos, conferências, debates, defesa de causas, participações em fóruns, programas de TV, net, redes sociais, etc.
Os escritores do século XXI são performers da palavra no espaço público. Haverá sempre os eremitas, claro ( por sinal os que poderão ter mais valor mediático pela escassez das suas aparições), mas como já acontece noutros territórios - como a política, tudo se joga na representação pública no palco dos media e na replicação dessas representações nas hiperligações.
A literatura, ou a poesia, no futuro, como no passado, é o que resiste, o que fica dos tempos, com o tempo.



Nuno Artur Silva às 10:02 | link do post

Terça-feira, 26.01.10

De que falamos quando falamos de televisão? De dia para dia a pergunta aumenta a sua interrogação. Na segunda metade do século XX a televisão ocupou o centro do palco mediático contemporâneo e o televisor foi o altar das nossas salas de estar. Foi o tempo das grandes estações generalistas, das grandes produções, do grande fluxo televisivo.
E agora? O televisor continua nas nossas salas de estar, mas está também frequentemente noutras divisões da casa. E há os portáteis e mutantes computadores, telemóveis, consolas, etc. Écrãs por todo o lado e cada vez mais conectividade, convergência, integração. Ou seja, acesso a conteúdos e plataformas de todas as maneiras e feitios. A diferença passa a ser mais de condição de recepção: mais perto, mais longe, com maior ou menor qualidade de definição e imagem, ver sozinho ou ver acompanhado; e muito menos do tipo de conteúdo, no sentido em que tudo tende a estar permanentemente disponível, seja por que meio for. Vai ser curioso ver quais as expressões que vão prevalecer. Continuaremos a dizer “ir à net”? E o que é que isso vai querer dizer? E ver televisão vai ser o quê?
O que vai acontecer com os conteúdos audiovisuais é o que já aconteceu com os conteúdos musicais. Eles vão surgir por todos os poros da net. E isso vai mudar radicalmente a indústria. Já está a acontecer em todo o mundo e vai acontecer em Portugal.
Veja-se o caso da música. Nunca a música popular portuguesa foi tão rica e variada. Porquê? Porque deixou de estar tudo afunilado nas editoras que decidiam o que se devia editar e não editar. Porque deixou de haver meia dúzia de papas que decidiam o que era ou não era bom. Desde que qualquer músico passou a poder chegar directamente aos ouvintes sem ter a autorização de qualquer detentor de meios de distribuição, que as propostas musicais se multiplicaram e a diversidade abriu novos caminhos, não só artísticos, mas igualmente novos modelos de negócio, dando origem a um novo panorama musical, inquestionavelmente mais vibrante e estimulante.
É preciso que aconteça o mesmo no audiovisual. Durante anos a produção audiovisual portuguesa foi decidida por meia dúzia de pessoas, em lugares chave: os directores, primeiro só da RTP, e depois da SIC e da TVI. É muito pouca gente para decidir o que tanta gente deve ou não deve ver. Se analisarmos mais em pormenor a história da televisão em Portugal, veremos que não só os centros de decisão eram muito poucos e sempre os mesmos, como as pessoas que ocuparam esse lugar foram e continuam a ser sempre as mesmas ou com o mesmo perfil. Quase sempre jornalistas, generalistas ou da área da política, a decidirem que filmes, séries, documentários, programas, é que devem ser produzidos.
O património audiovisual criado pelas televisões portuguesas reflecte o perfil dos decisores. Há um domínio de programas de informação de actualidade e entretenimento e uma escassez absoluta de programas de documentário e ficção. Há uma abundância de apresentadores e uma falta gritante de autores.
Tal como na música, este mundo está a acabar. Os canais vão-se multiplicar e os conteúdos audiovisuais vão surgir por todo o lado. E, à partida, essa diversidade é muito boa. Mas fazer produção audiovisual é mais caro do que fazer música. E a perda de importância dos canais generalistas traz grandes desafios. Quem vai investir em conteúdos de produção mais cara? Desde logo reportagens de investigação e, na área da ficção, grandes séries e filmes? Como é que se vai conseguir massa crítica, investimento publicitário, receita, se tudo está pulverizado e as audiências dispersas por mil e uma plataformas? E a questão não se põe unicamente do ponto de vista da sustentabilidade do negócio. Antes de mais, o que se pergunta é: que meios de comunicação, que canais, vão ser agregadores capazes de atrair e mobilizar comunidades? Ou seja, de ter relevância política.


 

Crónica publicada no Económico no dia 23 de Janeiro de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:20 | link do post

Terça-feira, 19.01.10

“Famílias e como sobreviver-lhes” era o título do livro que John Cleese fez a meias com o (seu) psiquiatra Robin Skynner e podia ser uma definição para a vida de cada um de nós. Ou nas palavras de Philip Larkin “They fuck you up, your mum and dad. / They may not mean to, but they do. / They fill you with the faults they had / And add some extra, just for you. / But they were fucked up in their turn / By fools in old-style hats and coats, / Who half the time were soppy-stern / And half at one another's throats.”, Não preciso de traduzir, julgo que o primeiro verso, que dá o tom, é Esperanto Universal. 

As famílias são a base da sociedade e podem ser, claro, lugares maravilhosos ou inescapáveis pesadelos. Ou as duas coisas, ou nenhuma delas. A verdade é que nascemos, quase todos, no seio delas, e delas temos que nos emancipar e libertar, partir para outra, quase sempre para outra família, sabendo sempre que a nossa família inicial permanece connosco até ao fim, bem ou mal.

Isto tudo a propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da discussão à volta da sua legalização. É sempre fascinante observar a obsessão da direita conservadora, com o seu lastro de opressão católica sobre a liberdade, a individualidade, o corpo e o desejo, em querer que o Estado interfira e controle aquilo que é mais irremediavelmente pessoal, enquanto simultaneamente defende a mínima intervenção possível desse mesmo Estado em tudo o que tenha a ver com os bens materiais e as suas transacções e negócios , negando uma intervenção estatal reguladora para a salvaguarda de um mínimo de dignidade social e de condições e oportunidades económicas justas para todos. É como se o dinheiro fosse o corpo para o sexo livre e sem barreiras, a orgia pública e consentida da direita dos bons costumes.

Mas o que estava em questão era pura e simplesmente uma questão de igualdade de direitos. O amor, o sexo ou a amizade são outra coisa. E não são para aqui chamados. Aqui trata-se de um direito a um contrato. Um contrato de casamento. Uma relação institucional de direitos e deveres com o Estado, que já tardava em ser aprovada. A sua proibição a pessoas do mesmo sexo era uma imposição abusiva do Estado ( como, aliás, é abusiva a lei das uniões de facto, que impõe o estatuto de casados a pessoas que não manifestam a vontade de casar).

Os argumentos de que tudo isto acabará afinal por servir unicamente a meia dúzia de casais são falaciosos no contexto do respeito pelas minorias e pelos seus direitos, que não são, aliás, referendáveis Nem que tudo isto fosse para que um único casamento acontecesse, teria valido a pena.

O que eu lamento é que tenha sido aprovado à portuguesa, com condicionante, amputada do direito de adopção. Que, no entanto, não tenho dúvidas, mais tarde ou mais cedo virá. Afinal o que é melhor: dezenas de milhar de crianças à espera de adopção, amontoadas em instituições, ou a possibilidade dessas crianças serem adoptadas por famílias, diferentes tipos de família, desde que aprovadas para adopção com critérios que tenham a ver com as possibilidades de felicidade que aquelas famílias em concreto possam proporcionar e não com preconceitos de género ou outros?

“Um dia mereceremos que não haja governos” dizia Borges. Hoje não é a véspera desse dia, dizia Asterix, a propósito de outra coisa.

Neste caso, o Parlamento, ainda que por linhas tortas escreveu direito ao aprovar esta lei. Abre caminho para famílias mais abertas, com mais hipóteses para haver nelas pessoas mais felizes.



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

Terça-feira, 12.01.10

2009 ficará como o ano da grande crise mundial. Em Portugal poderá não ser assim. Pode ser que o ano da crise venha a ser 2010. 

Os sinais são péssimos: o impasse e a degradação da cena política, a corrupção e a falência do modelo de justiça, o problema financeiro e económico e o desemprego.

Como podemos contrariar este cenário pessimista? Para além de todas as reformas necessárias e urgentes nas áreas referidas que, bem ou mal, vão inevitavelmente ter de ser feitas, a resposta é simples: o foco tem que estar na economia. É pelo desenvolvimento da economia que podemos começar a resolver o problema do país. Temos de ultrapassar as análises pessimistas do défice, da dívida e da estagnação, e passar para a aposta nos investimentos económicos de futuro.

Há inúmeros estudos sobre as potencialidades do país e as áreas onde se deve investir. Falta investir. Não há, em Portugal, uma cultura do risco. Houve, no tempo das Descobertas, depois disso ficámos soterrados debaixo de séculos de inquisição e de um século XX de salazarismo.

O problema principal da economia portuguesa é o perfil do empresário típico português. Mais chico-esperto do que informado, provinciano, sem mundo, agarrado ao dinheiro, sem dedicação à causa pública, com uma cultura empresarial onde há uma grande desproporção financeira entre os quadros superiores e os trabalhadores, e onde a motivação é muitas vezes substituída pelo simples medo de perder o trabalho. Acima de tudo, há uma visão predominantemente conservadora ou mesmo retrógrada, em vez de uma cultura da inovação e do risco.

São raras as excepções, felizmente cada vez mais, mas ainda não as suficientes para que se perceba que há uma nova classe empresarial capaz de mudar o país.

Estão identificadas áreas de grande potencial económico em Portugal, onde está quase tudo por fazer. Desde logo o turismo, mas claro um turismo que aposte na qualidade e na diferenciação. Relacionado com o turismo, mas não só, a cultura. O potencial económico da cultura nunca foi realmente valorizado por nenhum governo. O entendimento que se tem da cultura tem sido sempre o da subsidiação a actividades consideradas decorativas ou ornamentais. Falta uma política integrada e transversal de incentivo às artes e indústrias criativas para que estas possam estabelecer as suas redes e gerar valor.

E é preciso investir nas cidades, nas cidades como grandes centros agregadores de mistura e ligação, no potencial económico do cruzamento de culturas das cidades. É preciso investir no mar, na nossa costa. Nas energias renováveis. Nas redes de nova geração. Na Língua. No espaço da Língua Portuguesa. É preciso não perder a oportunidade do Brasil.

Dizia António Câmara, CEO da Ydreams, numa entrevista aqui no Económico, no final de 2009, que nos falta uma cultura de querer fazer e que o problema começa nas universidades, que não estão ligadas às empresas, não promovem essa abertura à sociedade e não estimulam o empreendedorismo. Mas dizia igualmente que apesar de não termos quadros de gestão em economia do conhecimento – “um dos dramas de Portugal” – a mudança empresarial é possível, “porque há uma massa crítica da juventude muito mais bem preparada do que alguma vez houve (...) há muito mais pessoas expostas ao mundo e portanto Portugal tem uma massa crítica de talento que nunca teve”. Portugal não pode deixar desperdiçar esta geração.
 

 

Crónica publicada no Económico no dia 9 de Janeiro de 2010.



Nuno Artur Silva às 18:26 | link do post

Quinta-feira, 07.01.10

 

(Clique na imagem para fazer o download do texto "trailer para uma trilogia").


Arquivado em:

Nuno Artur Silva às 11:12 | link do post | comentar

Terça-feira, 05.01.10

Do monte de jornais e revistas desta época de Natal e de fim de ano, no meio de balanços e antevisões do ano e da década, recorto e guardo um artigo de António-Pedro Vasconcelos no jornal Sol onde, a propósito da estreia de Avatar ele diz: “... estes filmes (...) apesar do virtuosismo e das boas intenções, não respondem ao problema essencial do nosso tempo: poderemos ainda ser salvos pela ficção?”.
Jorge Luís Borges dizia que os jornais eram feitos para o esquecimento, ao contrário da literatura, que era o que ficava. Não sei se esta citação será esquecida, como boutade jornalística, ou se será lembrada como frase literária. O certo é que é uma citação datada.
Hoje publicam-se mais livros do que nunca, mas decresce o número de jornais em papel. No futuro próximo tudo estará disponível online e multiplicar-se-ão os dispositivos de leitura tipo Kindle. As publicações em papel, livros ou jornais, serão objectos de design destinados a coleccionar, tal como os DVDs ou os CDs. Como já acontece hoje com os livros para crianças, que se transformaram em livros-objectos, tridimensionais, arquitecturas de papel, por vezes com sons e gadgets diversos.
No futuro, como já acontece hoje, não é o suporte que determina a literatura. A literatura, ou a poesia, pode estar em todo o lado e onde menos esperamos, no hipertexto, em rede, nas paredes do metro ou no jornal de fim-de-semana, no meio dos artigos de economia e intriga política.
Num tempo em que a realidade dominante da comunicação social é a crise económica e financeira, e que os problemas do país e do mundo se resumem ao impacto dessa crise no quotidiano do país e de cada um de nós, a ideia de que a salvação pela ficção é o problema essencial do nosso tempo é tão absolutamente poética como verdadeira.
É sempre pela ficção, pelas histórias, pelo seu enredo e pelos seus heróis, pela sua poesia, que redimimos a realidade das nossas vidas. Desde sempre aquilo que nós somos, o que vivemos e o que sonhamos, na religião, na política, no amor, é por aquilo em que acreditamos. E aquilo em que acreditamos é a mitologia criada pelas ficções do nosso tempo.
As ficções do século XX foram sobretudo as do cinema e depois da televisão. E agora, no século XXI, que ficções temos, no momento em que a internet ocupa o centro, e a rede é não só uma realidade como um conceito e um processo de relação com o real e com as suas histórias?
Na sua recente passagem pelo festival de cinema do Estoril, Francis Ford Coppola dizia o mesmo que A.P. Vasconcelos, ou seja, que independentemente do 3D e dos efeitos especiais, o futuro estava, como sempre, nas histórias, na capacidade de contar histórias, de enredar os ouvintes e espectadores na teia (na rede) dessas histórias.
A visão de futuro de Coppola passava não tanto pela inovação tecnológica mas antes por novos conceitos como o surgimento de sessões de cinema onde realizadores/performers misturem fragmentos de filmes como hoje em dia os DJs e os VJs já fazem. É um novo futuro para as sessões em sala, dando-lhe um carácter único de eventos. Ou, numa versão mais pessoal, a possibilidade de cada um de nós ter um iPod de imagens ou de cenas favoritas de filmes.
Conceitos como o de mistura e ligação estão no centro da cultura popular contemporânea e não há-de faltar muito para estas antevisões começarem por se tornar culto e depois globalizarem-se. As formas reinventam-se, os meios mudam. Estamos sempre perdidos na tradução do mundo em que vivíamos para o mundo onde estamos sempre a começar a viver. O que nos pode salvar é - agora como sempre - a ficção.

 

Crónica publicada no Económico no dia 2 de Janeiro de 2010.

 



Nuno Artur Silva às 09:56 | link do post

Quarta-feira, 30.12.09

A fechar o ano, e ainda a propósito da edição especial da caixa com a trilogia Filipe Seems + DVD, aqui deixo duas notas.

Primeiro, o texto que escrevi para a edição de 11 de Novembro da revista Time Out, sobre a Lisboa de Seems, acompanhado pelos desenhos da série do António Jorge Gonçalves.

Depois junto a sequência de imagens que fizemos para as apresentações nas FNACs, que usámos como suporte para contar a história da nossa dupla criativa.

 

A Lisboa de Seems

 

No início dos anos 90 o António Jorge Gonçalves fazia banda desenhada e começou a fazer desenhos de Lisboa. O jornal SE7E convidou-o para publicar, primeiro, uma pequena história, e depois uma página todas as semanas. O Jorge desafiou-me a escrever o argumento. Foi quando decidimos criar um “herói”. O ponto de partida era uma versão irónica das bandas desenhadas clássicas e do imaginário dos detectives. A diferença era que tudo se passaria em Lisboa, num futuro mítico de Lisboa onde se misturam as Lisboas de todos os tempos, reais e imaginados.

Para encontrar os locais das cenas das Aventuras de Seems, o António Jorge e eu começámos a percorrer Lisboa de lés a lés, tomando notas e tirando fotografias, fazendo como no cinema, múltiplas reperages. A diferença é que não tínhamos um guião fechado. Tínhamos o argumento esboçado mas a cena só era escrita depois de decidir o local.
O que é maravilhoso na banda desenhada é que podemos passar da imaginação para a concretização no desenho sem nos preocuparmos com autorizações, efeitos especiais, orçamentos ou, pura e simplesmente, com as leis da física e da lógica do universo.

 

1 – Filipe tem um amigo cientista, Eugénio, um afro-português, negro, casado com Jane, uma astronauta loira, e com um rasto de filhos, todos com nomes de cientistas famosos. Eugénio é um génio bonacheirão. Na primeira história, “Ana”, Filipe contacta-o e Eugénio, sempre repetindo a sua expressão favorita - “é curiosíssimo” – sugere a hipótese da clonagem. A cena passa-se no laboratório de Eugénio, que decidimos situar numa versão do Instituto Superior Técnico com observatório astronómico, numa Alameda povoada de esculturas pop, com a Almirante Reis transformada num corredor para bicicletas.

 

 

2 – O mistério adensa-se quando surge uma terceira gémea. A cena passa-se num “espectáculo de moda”, misto de desfile e número de trapezistas, que tem lugar num gigantesco bar que não é senão a Basílica da Estrela. O espectáculo chama-se “Estrela da noite de todas as cores”, que era um verso do poeta surrealista português precocemente desaparecido António Maria Lisboa. Sempre nos agradou a ideia de ocupar os espaços das religiões institucionais para actividades hedonistas.

 

 

3 – Na minha infância e juventude morei em Campolide e, ao virar da esquina da minha rua, tinha uma vista sobre o vale de Alcântara, dominado pelo aqueduto das Águas Livres. Por baixo do aqueduto passavam, e passam, auto-estradas e o caminho de ferro. Mas antes disso, há mais de cem anos, o vale era um lugar bucólico e campestre, com um ribeiro a passar debaixo do aqueduto, como ilustram as gravuras da época. Na segunda aventura de Filipe Seems recuperámos esse vale e pusémos Filipe a pedalar uma bicicleta aquática para chegar ao aqueduto, subir umas escadas no arco principal, encontrar-se com Ana para um café lá em cima e depois abandonarem o local de balão, em direcção ao mar.

 

  

 

4 – Os eléctricos são as personagens mais características de Lisboa, fazem parte da sua fauna. N’“A História do Tesouro Perdido” Filipe procura um deles, num sítio que sempre nos pareceu cinematográfico: a estação de eléctricos do Calvário. Se na Lisboa real existe o 28 que liga os Prazeres à Graça, e mais do que uma linha é uma metáfora e uma filosofia de vida, na Lisboa de Seems os eléctricos deslizam sobre a cidade, suspensos, e um deles irregular e erradio, tem como destino o “desejo”.

 

5 – À procura do tesouro perdido, Filipe encontra-se novamente com Eugénio, numa visita ao Oceanário, com a família, onde acabaram de falar com os golfinhos. O Oceanário é, no universo Seems, um projecto utópico de um amigo nosso arquitecto, Rui Horta Santos, e consiste numa gigantesca onda em espiral no meio do Tejo.

 

 

6 – A mais emblemática imagem da série do Filipe Seems é a sequência da baixa veneziana. Sabendo dos afluentes do Tejo, que passam por baixo da Baixa, imaginámos uma Lisboa inundada, como Veneza, onde o barulho e a poluição dos automóveis fossem substituídos pelo deslizar misterioso das gôndolas e dos seus gondoleiros errantes e, na nossa versão, cegos. O grande lago do Terreiro do Paço é directamente inspirado num dos nossos autores de BD favoritos, Fred, e na sua série Philémon, e é o palco para um concerto que os espectadores ouvem por auscultadores nas suas cadeiras flutuantes.

 

 

7 - Logo no início da primeira história Filipe Seems está sentado num escritório de detective particular. Mais à frente percebemos que o escritório é uma divisão da sua casa e a fachada de detective é uma auto-ironia literária. Filipe é de facto um escritor ou “programador de histórias de vídeo-bd”. Um detective muito particular, mais seduzido pelas pistas do que pelas provas. E imaginámos como único companheiro de Filipe o gato Schro, abreviatura de Schrodinger (um físico que ficou famoso por causa da experiência que fez com um gato). Um dos hábitos de Seems era vaguear com Schro pelos telhados da sua casa na costa do Castelo. No final do “Ana” decidimos que ela ficava com ele, o que só é revelado no último quadradinho, e pensámos que a melhor maneira de visualizar essa utopia de final feliz era com a visão de uma Lisboa coberta por um manto branco de neve.

 

 

8 - Se “A História do Tesouro Perdido” era uma história solar, luminosa, com cenas marítimas, um percurso de aventura, de um sítio para outro à procura de um tesouro sempre nunca perdido, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, quase dez anos depois, era uma
história nocturna, subterrânea, densa, passada nas catacumbas de Lisboa e com Filipe Seems perdido e perturbado nos seus sonhos e fantasmas interiores. A única imagem luminosa desta terceira história é esta quando, depois de percorrer os túneis do metro e o acampamento cigano subterrâneo, seguindo a borboleta, Filipe desemboca numa fenda da fachada dos Jerónimos e sai para uma Belém inesperadamente transformada em praia tropical.
 

 

9 – Esta é uma versão negra do primeiro projecto de fachada do Cinema Éden original, tal como foi imaginado por Cassiano Branco. Não seria aprovado, acabando por ficar o outro, entretanto destruído. É neste Éden que se reúne a seita da conspiração, um grupo de cegos perante um écrã branco. Já na primeira história tínhamos utilizado um projecto nunca concretizado de Cassiano Branco, nesse caso um plano de urbanização da Costa da Caparica nos anos 30. Na primeira história é o sítio que Filipe sobrevoa de asa delta e onde acaba por pousar, antes de perder a moto voadora que perseguia.

 

 

Filipe Seems e outras histórias - percurso de uma parceria

 

 

 


Arquivado em: ,

Nuno Artur Silva às 19:30 | link do post | comentar

Terça-feira, 29.12.09

2009 foi um mau ano para a televisão portuguesa. A decadência dos canais generalistas é uma evidência nos números das audiências e, sobretudo, na programação. O aumento da notoriedade e da audiência do cabo, seguramente maior do que indicam os insuficientes sistemas de medição, não é, aparentemente, acompanhado pela capacidade financeira dos seus canais portugueses para criarem conteúdos próprios.
Este foi o ano em que se discutiu a viabilidade de um quinto canal generalista, num contexto em que essa discussão se tornava de dia para dia mais obsoleta. Os projectos do quinto canal foram chumbados pela entidade reguladora, que decidiu aquilo que devia ser o mercado a decidir.
O proteccionismo aos grupos existentes impediu a tentativa de criar diversidade e não gerou qualidade na oferta televisiva. Um novo projecto poderia ter aberto novas possibilidades. Se se viesse a verificar dificuldades nos grupos de comunicação caberia a estes encontrar soluções que poderiam passar por parcerias, como aliás aconteceu recentemente em Espanha.
Por outro lado, assistimos ao lançamento de mais um canal de informação no cabo, ficando Portugal com três canais informativos ( para não falar do futuro canal do grupo Económico).
Falando dos três grandes grupos de televisão: a TVI continua líder nos ditos generalistas mas o seu modelo de programação não se renova, está estagnado. Por outro lado, a TVI 24 não trouxe nem inovação nem audiências.
A SIC continua à procura de uma nova identidade. Mais bem posicionada no cabo do que no generalista, sobretudo por causa da SIC Notícias, a estação tarda em encontrar um novo caminho. A SIC Mulher, embora com um perfil definido, continua aquém do seu potencial; a SIC Radical perdeu claramente élan; e no fim do ano foi lançada a SIC K, praticamente sem conteúdos nacionais, o que é , no mínimo, precipitado.
A RTP não parece alterar uma vírgula à sua estratégia de sempre: aposta quase exclusiva na RTP 1 como canal generalista popular em que a marca de serviço público nem sempre é evidente, a não ser na relativa diversidade de formatos em antena e no investimento, ainda que tímido, noutros tipos de ficção portuguesa que não a telenovela.
A RTP 2 é uma manta de retalhos incoerente. A RTP Internacional continua a ser um vazadouro sem orçamento e sem projecto próprio. A RTPN melhorou, ainda que seja discutível o seu conceito.
Se havia um projecto que fazia sentido no contexto da RTP era a criação de um canal/portal para crianças. Mais uma vez a RTP deixou-se antecipar.
No meio da crise, uma evidência: mais do que nunca, o Estado tem de apoiar a produção audiovisual em Língua Portuguesa. E este apoio não se pode esgotar no subsídio aos filmes portugueses escolhidos por um júri arbitrário, tem de ser pensado estrategicamente num quadro mais amplo. E, desde logo, no contexto dos canais de televisão, existentes e a existir.
Aliás, mais do que um ou outro canal, e independentemente da tão discutida, embora de forma quase sempre redutora, questão do controlo da informação, o grande impasse de 2009 e a grande incógnita para 2010 é a reorganização dos grupos de comunicação portugueses no novo contexto de multiplicação digital.
A grande questão das televisões - das marcas de média em geral- é: qual o modelo de negócio? Temos o futuro próximo para o descobrir. 

 

Crónica publicada no Económico, no dia 26 de Dezembro de 2009.



Nuno Artur Silva às 11:25 | link do post

Terça-feira, 22.12.09

“O optimista pensa que vivemos no melhor de todos os mundos possíveis. O pessimista receia que isso seja verdade”. A frase é de Robert Oppenheimer, considerado “o pai da bomba atómica”. Seria ele um optimista ou um pessimista? A verdade é que inventou uma bomba que pode acabar com qualquer mundo, o melhor e o pior. A realidade muda. Às vezes estrondosamente.

Nesta época natalícia ocorre-me falar dessa antítese de Pai Natal que é o Profeta da Desgraça. Tal como os Pais Natal nos centros comerciais, com a crise, têm-se multiplicado os Profetas da Desgraça nos canais informativos. Há-os em versão light , mas os que se destacam são os do género apocalíptico. De entre estes, Vasco Pulido Valente e, sobretudo, Medina Carreira.
Para Pulido Valente a explicação de tudo em Portugal está no século XIX e no início do século XX. Tudo o que acontece hoje, cem anos depois, explica-se à luz dessa época e de acordo com a evidência de que os portugueses são muito estúpidos. É verdade que o Eça e o Camilo são mais actuais do que gostaríamos, mas é divertido verificar a quantidade de vezes que Pulido Valente se enganou nas suas previsões. Medina Carreira reduz tudo à questão financeira e ao facto de estarmos a perder não sei quantos milhões por dia e caminharmos irreversivelmente para a banca muito rota por causa da total incompetência do pessoal político. E, tal como Pulido Valente, não só não deixa de ter uma certa razão como, pela certa, lhe está a faltar uma outra razão essencial.  
No âmbito da Física, a experiência do gato de Schrodinger mostrava, não só como a realidade é complexa como, simplificando, que é impossível observá-la sem nela interferir.
O que se vê depende sempre de quem vê e donde se vê. E da fé. É a velha questão do copo meio cheio ou meio vazio. E de quem o feio ama bonito lhe parece. Ou na versão pessimista: quem o bonito detesta, feio lhe parece.
Nas comédias televisivas utilizavam-se risos gravados para condicionar a recepção do espectador. Experimentem ver um programa de humor com uma plateia predisposta a gostar do comediante e depois ver o mesmo programa num grupo que à partida não acha graça nenhuma ao mesmo comediante. É como ver dois programas diferentes. A expressão “estado de graça” aplica-se aqui na perfeição.
No palco do nosso Portugal bipolar têm contracenado Cândidos e Velhos do Restelo para todos os gostos, com melhores ou piores audiências. O que têm faltado são fazedores. Daqueles que fazem realmente a diferença.
 Um dos que fizeram realmente a diferença, talvez o que fez mais a diferença em Portugal, nos últimos cem anos, Mário Soares, editou agora um ensaio dedicado aos jovens intitulado “Elogio da Política” onde lembra que a política é uma actividade nobre. É o momento certo para o lembrar e Soares tem a autoridade para o fazer. É um optimista com 85 anos. Sempre foi. E o seu optimismo fez mudar o país.
O meu filme favorito sobre a vida de Cristo chama-se “A Vida de Brian”, dos Monty Python. O filme termina com os crucificados a cantarem “Always look on the bright side of life”. Parecendo que não, é um belo e sábio mandamento. E pode-se assobiar.
 
Crónica publicada no Económico no dia 19 de Dezembro de 2009.


Nuno Artur Silva às 09:40 | link do post

Terça-feira, 15.12.09

Fiquei a saber, na entrevista dada pela nova Ministra da Cultura à revista Visão, que o Museu de Arte Popular vai avançar já este ano e que a Ministra espera inaugurá-lo em 2010, “tal como foi concebido e no espaço onde estava”. Fiquei a saber também que, em relação ao Museu da Língua: “Haverá um museu, de preferência situado num local emblemático para a portugalidade” e que: “A expansão portuguesa e a língua portuguesa serão um projecto comum”.
Primeira declaração de interesses: estive envolvido no projecto do anterior Museu da Língua. Segunda declaração de interesses: sou amigo do anterior Ministro da Cultura.
Como se imagina, tive com ele uma série de conversas pessoais sobre muitos temas, incluindo a cultura (conversas que poderão ter sido até, quem sabe, escutadas). Mas, em ano e meio, só por duas vezes participei, a título profissional e nunca remunerado, em iniciativas do Ministério da Cultura, e por convite deste. (Com grande probabilidade menos do que se não conhecesse o Ministro). Uma foi uma participação num debate e outra foi o convite para participar, a título individual, num grupo de trabalho sobre um projecto para o Museu da Língua. Aceitei, com muito prazer, porque o projecto e a equipa eram estimulantes. Tratava-se de fazer um museu que não se esgotasse na lógica expositiva de uma história da Língua, ligada à expansão portuguesa, que era o projecto da anterior Ministra, Isabel Pires de Lima, mas que celebrasse também a Língua nas suas múltiplas realizações presentes. O grupo era dirigido pelo António Câmara, da Ydreams, e incluía arquitectos e artistas visuais. O projecto foi pensado para o edifício do antigo Museu de Arte Popular, por sua vez antigo pavilhão da Exposição do Mundo Português. Podia ter sido pensado para outro sítio? Claro, por exemplo para o inacreditavelmente abandonado Pavilhão de Portugal. Ou para outro sítio, embora não qualquer. Foi pensado para ali porque o dito Museu de Arte Popular passaria a integrar o Museu de Etnologia. E porque havia a oportunidade de fazer agora um Museu da Língua naquele sítio privilegiado, frente ao rio, em Belém, com espaço para autocarros das escolas e dos turistas e com condições para um anfiteatro para espectáculos, livraria e esplanada. Havia condições para o fazer e inaugurar em 2010. Não só condições financeiras mas de articulação de parcerias, nomeadamente com o Museu da Língua de S. Paulo, Brasil.
Percebo agora que fica adiado o Museu da Língua e avança o Museu de Arte Popular. Ou mais exactamente o Museu que celebra o fake popular inventado por António Ferro para a exposição dos anos 40. Pode ter a graça do kitsch e pode inclusivamente ser uma versão revista e actualizada que contextualize o lado feira do artesanato. Mas parece-me que um Museu da Língua seria sempre um museu mais prioritário e estratégico. E um museu que seja da Língua e não um híbrido da Língua e da expansão portuguesa. E acreditem que não falo em interesse próprio. E, já agora, ao contrário do que foi dito, e publicado no jornal Sol, as Produções Fictícias nunca estiveram envolvidas no projecto do museu. Nem nunca demos por que houvesse uma “contestação generalizada por parte dos meios culturais da capital” ao dito museu. O que houve foi, como sempre, falta de debate público, manipulação de informação e mau jornalismo. Talvez um dia se faça um museu sobre isso.
 

Crónica publicada no Económico no dia 12 de Dezembro de 2009.



Nuno Artur Silva às 16:03 | link do post


Bio Notas biográficas Currículos Fotos Links Acerca E-mail Work Livros Peças Episódios Artigos Ideias Notas Média Rádio English