“Boa noite, este é o canal de notícias fáceis (...) Trazemos-lhe todas as notícias que são fáceis de arranjar (...) Pessoas noutros países querem matar-nos. O resto do artigo está cheio de nomes que não consigo pronunciar (...) Assim, a segunda peça: um debate entre dois brancos de meia idade que também não sabem por que razão pessoas nos querem matar. (Homem 1: Eles odeiam-nos porque nós somos tão espectaculares. Homem 2: Comprem o meu livro ou morrerão todos). A seguir no canal das notícias falsas, os nossos comentadores discutirão sobre varas tortas que ficam encravadas em chaminés. Excelente.” Escolhi esta (longuíssima) citação, no fundo uma transcrição, de uma tira de banda desenhada do Dilbert de Scott Adams, porque ela resume de forma perfeita o que sinto em dias como os de hoje, quando vejo o pais na televisão (ou o pais da televisão). Tudo parece normal mas é como se eu procurasse outro ângulo de visão do televisor a partir do sofá da sala e, tal como nos filmes de ficção científica, as personagens reais daquele ângulo se transformassem nos cromos Dilbertianos. As comparações, metáforas ou analogias são figuras que nos fazem perceber o sentido das coisas com uma força e uma intensidade que a linguagem mais literal e não figurada não tem. Uma boa história ou uma frase inspirada iluminam uma situação com uma luz que acrescenta verdade à constatação dos factos. Gosto de recortar e coleccionar frases ou cartoons e tiras de banda desenhada. São como versos de poemas que cito não pela sua beleza ou profundidade, antes pela sua graça e demolidora desmontagem da convenção. Há um desenho de um dos meus cartoonistas favoritos, Gary Larson, que de uma forma sintética é um tratado sobre as relações no local de trabalho: num escritório dois tipos frente a frente em duas secretárias absolutamente iguais. Um diz para o outro: “Um dia esse lugar há-de ser meu”. Ou sobre o mundo dos blogues e da opinião, aquele cartoon publicado na New Yorker, assinado por Gregory, em que um cão diz para o outro: “Eu tive o meu próprio blogue por um tempo mas agora decidi voltar só a ladrar incessantemente e sem sentido”. Por vezes é a própria realidade que nos surge em versão já metafórica e cartoonada, como era o caso do inesquecível ministro da propaganda iraniana que repetia a frase “I now inform you you’re too far from reality”. É claro que é sempre uma questão de gosto e de idiossincrasia. Cada um de nós colecciona os cromos de que gosta mais, e sobre gosto pessoal, por exemplo, uma das minhas citações favoritas é a do critico de televisão que, sobre os comediantes populares Abott e Costello dizia: “essa parelha de comediantes que não faz rir ninguém. A não ser o público”. Ou, ainda sobre os críticos, o genial Oscar Wilde que no “The critic as artist” dizia: “Ah, não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo tenho sempre a impressão que estou errado”. Um dos melhores fraseadores vivos – e certamente, quando morrer, um dos maiores fraseadores mortos – é, claro, Woody Allen. Uma das suas mais citadas frases é, parafraseio, aquela em que ele diz que não percebe porque se critica a masturbação, afinal é fazer sexo com a pessoa de quem mais gostamos na vida. O mestre reconhecido e louvado por Allen era Groucho Marx. No filme “Annie Hall”, Woody Allen utiliza um frase de Marx como uma metáfora para o seu problema nas relações amorosas: “Nunca pertenceria a um clube que me aceitasse como sócio”. Há uma frase de Groucho Marx de que eu me lembro sempre quando convivo com determinadas personagens do nosso mundo televisivo: “Já chega de falar de mim, vamos falar de ti. O que é que pensas de mim?”.
As coisas que só acontecem uma vez podem durar toda a vida. O que é fascinante é sabermos que nunca poderemos saber, de todas as coisas que só nos acontecem uma vez, as que vamos reter para sempre. Podemos esquecer o dia em que encontrámos a pessoa mais importante da nossa vida adulta e, no entanto, lembrarmo-nos de um dia anónimo em que com essa pessoa não fizemos nada de especial.
"A vida é a arte do encontro" dizia, cantando, Vinicius de Moraes, acrescentando "embora haja tanto desencontro nessa vida". A vida não é devidamente valorizada como arte do encontro. Investimos muito de nós e do nosso tempo em coisas completamente estúpidas que não nos são decisivas ou sequer inspiradoras. E não perdemos tempo para nos dedicarmos à arte de nos encontrarmos com os outros.
Em 1989 escrevi, a meias com o Luís Miguel Viterbo, um livrinho, na verdade um pequeno ensaio/manifesto, que a &etc editou, sobre, precisamente, essa arte dos relacionamentos a que demos o nome de "A Elaboração dos Acasos".
O acaso é o acaso do encontro. Ou, se acreditarmos que o acaso é, como dizia Paul Valery ,"a inteligência secreta do destino", voilà, o destino. Destino não quer dizer que tudo já esteja escrito mas sim que a nossa vida se escreve, como um romance. E partindo do princípio que somos ficção, o nosso encontro com as personagens que podem valer a pena na nossa vida "é uma disciplina artística a apurar dia a dia; é um exercício de depuração e elaboração, um exercício de estilo. Um jogo de distâncias (...) Uma ficção, irremediavelmente verdadeira e real".
E não é só nas relações mais pessoais que deveríamos elaborar a arte do encontro. Naquilo que as relações profissionais têm de pessoais, no tempo que passamos uns com os outros quando trabalhamos juntos, por vezes mais tempo do que com aqueles que escolhemos passar o nosso tempo, deveríamos investir a nossa sensibilidade e criatividade, para tirar dele, tempo, e delas, pessoas, o melhor.
No meio do meu trabalho, que tem sido essencialmente nos últimos 30 anos um trabalho criativo com equipas efémeras, não me canso de dizer que o facto de estarmos juntos naquela circunstância, aquele conjunto de pessoas, poderá não se repetir. E que, portanto, o que quer que aquele grupo tenha para dar em conjunto que possa ser mais do que a soma das partes, tem que acontecer nesse agora.
Para mim cada trabalho novo: uma série de televisão, um livro a meias, uma peça de teatro, um filme... é como um grupo de músicos jazz que se encontra para tocar junto, numa dada circunstância que não se repetirá. É preciso procurar o máximo, a melhor música e a melhor contracena, que esse grupo de pessoas seja capaz de dar.
Isto soa como uma verdade luminosa na pele dos performers, músicos, dançarinos, actores, mas acaba por ser sempre verdade, alargado aos performers do fundo do conteúdo que são os inventores de ideias, os escritores quando abrem o seu trabalho à actuação de outros.
A beleza do trabalho colectivo não está unicamente no resultado múltiplo, variado e complexo, ela pode estar nas memórias que esse trabalho deixa nas nossas vidas individuais, como espectadores também, mas sobretudo como parte desses colectivos.
Aconteceu-me participar em inúmeros trabalhos colectivos, de diversas maneiras, como escritor, autor da ideia, coordenador, actor, director de actores, participante, figurante, director, etc. Recordo aqui um que está longe de ser, no seu resultado final, uma das melhores coisas que fiz. Mas foi um dos que mais gratas memórias me deixou, a mim e a várias pessoas que nele participaram como intervenientes ou visitantes (e não será isto o resultado final?). Foram os "Nocturnos", há quase 20 anos, músicos, actores e bailarinos pelo Jardim Botânico, quadros vivos de uma exposição musical e poética que as pessoas seguiam guiadas por lanternas, nas noites quentes de Verão. Não tínhamos dinheiro para a produção e houve mil e um problemas técnicos. Mas aquele nocturno e quase secreto jardim no coração de Lisboa foi nesse momento um lugar de encontros.
Crónica publicada no Económico no dia 17 de Julho de 2010.
Adoro televisão. Desde que me lembro de mim que me lembro das noites da minha infância na sala da casa dos meus pais, em frente a um televisor com ecrã minúsculo encastrado num pequeno móvel com porta de mini-bar. Ainda hoje o conservo em minha casa, como uma relíquia, a caixa realmente mágica de onde saíam a preto e branco os desenhos animados, as séries, os filmes, os festivais da canção, a chegada do Homem à lua, o 25 de Abril... Estávamos no fim dos anos 60-início dos anos 70 e havia um único canal, a RTP única e tutelada pelo velho Estado Novo. Mas foi nela que eu vi pela primeira, e muitas vezes única vez coisas que nunca mais saíram da memória da minha imaginação e que me inspiraram e me fizeram ser o que sou hoje. O televisor era a lareira à frente da qual a família se reunia e unia na partilha das histórias que dele emanavam. Nessa altura a emissão era só à noite e terminava com o hino nacional, por volta da meia-noite. Só mais tarde começaram as emissões à hora de almoço, mas nunca como nessa altura vi tanta televisão e com tanto fervor. Com o tempo fui vendo menos televisão, naturalmente dispersando-me por outras formas de cultura e entretenimento. Quando comecei a trabalhar no meio televisivo não passei a ver mais televisão, passei a vê-la de outra maneira. Retenho sempre uma frase que julgo ser do Nicolau Breyner, quando lhe perguntaram se tinha visto um programa em que tinha entrado ele respondeu: “Para fazer é um preço, para ver é mais caro”. É costume assinalar a contradição de em Portugal termos passado a ter mais canais mas termos passado a ter menos diversidade na oferta, visto que os canais começaram a competir repetindo o mesmo tipo de formato televisivo. Julgo que isso é verdade só até a um certo ponto. Há uma monocultura comum aos privados generalistas mas com o surgimento do satélite, do cabo e das IP TV, a oferta diversificou-se completamente. A ideia de que a televisão é “pastilha elástica para os olhos” faz cada vez menos sentido. Hoje quando me sento a ver televisão o que eu gosto realmente de fazer é zapping. E se o zapping pode ser, mais do que uma actividade, uma inactividade relaxante, ele pode ser também um extraordinário e estimulante exercício de imersão na cultura popular contemporânea. Uma coisa é ver um filme ou um documentário específico, podemos fazê-lo de múltiplas maneiras: seguindo-o na emissão do fluxo televisivo, gravado, on demand, num DVD, etc. Outra coisa é ver televisão. E ver televisão é fazer zapping. É misturar. É passar para universos totalmente diferentes com um clique. É passar do lixo ao luxo e vice-versa. E ver com igual acesso e possível curiosidade espectáculos degradantes e momentos sublimes. Esta experiência está prestes a sofrer uma nova transformação, que acelerará de forma radical este modo zapping de ver. A Google, em parceria com a Sony, a Intel e a Logitech, está a lançar a Google TV, ou seja, como se esperava, finalmente num único aparelho, o cruzamento da televisão com a net, no ecrã da sala. Sintetizando, é juntar no mesmo botão de comando, a possibilidade de zapping e de linking. Vamos não só poder ver os canais disponíveis como todos os conteúdos autónomos, inteiros ou em snack. Passaremos a ter o Youtube e o Facebook, e o que vier de novo na net. A tudo isso continuaremos a chamar televisão. Os serões familiares, ou de amigos, ganharão uma dimensão incomparavelmente mais aberta nas suas possibilidades. O acto de navegar na net, até aqui uma actividade predominantemente individual, passa a poder ser partilhado não unicamente à distância, como já acontece, mas em presença, no espaço físico, por exemplo, das salas de estar familiares. Com o mesmo entusiasmo com que antes eu e as outras crianças da minha geração olhávamos para a velha RTP a preto e branco, inamovível e inzapável, vamos todos agora poder ver nas nossas salas de estar praticamente tudo o que quisermos. De todo o mundo. E poder zappar e clicar não só ao sabor do acaso ou da preguiça mas igualmente por associação e procura deliberadas. Vai ser uma nova idade de ouro para a televisão.
Crónica publicada no Económico no dia 10 de Julho de 2010.
Esta foi uma semana em que foi possível vermos na realidade e em antevisão, concentradas, as questões, tensões e linhas de força do futuro próximo de Portugal. (E não só: querem melhor metáfora da incapacidade de um governo para controlar a rédea solta das corporações do que a impotência do governo americano para estancar a muito real mancha negra da BP no Golfo do México?). No conto “O Aleph” Jorge Luís Borges descrevia a visão desse fenómeno que dá título ao conto como um ponto do espaço que abarca toda a realidade do universo. Esta última semana foi uma espécie de Aleph temporal para Portugal. Desde logo, a questão espanhola, duplamente, primeiro na versão patrótica-folclórica do futebol, depois na versão “É a economia, estúpido” em duelo David contra Golias, sem que se vislumbre como é que a PT vai dar a fisgada na Telefónica, fisgadas que estão ambas pelo Brasil. Depois, as SCUTs, assim chamadas, nunca é demais lembrar, por abreviarem a expressão Sem Custos Para o Utilizador, que afinal passariam a ter custos para o utilizador, e que no fim vão acabar quase todas por não ter ou ter só para alguns. Todo um case study sobre a governação em Portugal. Aumentam os impostos, pedem-se sacrifícios e, como de costume, é a frágil classe média quem mais vai sofrer. Em entrevista ao Expresso, João Talone dizia que estamos a voltar ao que sempre fomos: “um país de pobres com ricos”. Anunciam-se cortes na área da cultura. Nada de novo. A novidade é serem retroactivos sobre projectos já em curso. Indignação, contestação fundamentada nos direitos adquiridos e recuo. Fica só a versão de cortes para o futuro. A classe artística protesta. Com razão. O primeiro ministro tinha feito um mea culpa no desinvestimento cultural que tinha sido praticado no seu primeiro governo. O Presidente tinha feito um discurso a incentivar as indústrias criativas. Que vergonha, rapazes! Como sempre, os que protestam mais e têm mais destaque nos jornais habituais são os do cinema. A arte que em Portugal está mais subdesenvolvida. O sector onde há maior reivindicação e pretensão, e menos talento e criatividade. Os escritores, onde é possível encontrar mais exemplos de qualidade, praticamente não são subsidiados. No teatro, os maiores subsídios há anos que vão para para as mesmas (apesar de tudo excelentes e meritórias) companhias independentes surgidas logo após o 25 de Abril. Mas é talvez a dança o sector onde mais se fez com o pouco dinheiro que o Estado deu. Foi na dança que, nos últimos anos, surgiram os projectos e incubadoras mais interessantes da rede artística nacional. As artes plásticas sempre se articularam bem com as empresas. O design, por definição, também. A música pop teve um boom independente de todos os apoios por ser a arte mais popular entre os jovens, e a mais adaptada à revolução da internet. O cinema, tal como a ficção televisiva, praticamente não existe. Sufocado por um sistema de financiamento de peditório e pela ausência de talentos mobilizadores. Os cineastas portugueses, salvo raras honrosas excepções, são como o Cristiano Ronaldo mas sem o talento para a bola. São os capitães do discurso cultural que apontam a culpa dos maus resultados aos Carlos Queiroz do momento. Num futuro próximo, dominado pelas grandes empresas multinacionais e por um capitalismo enredado em abstractas operações financeiras cada vez mais incontroláveis, é fundamental redefinir o papel dos Estados. E com ele o papel dos blocos de que eles fazem parte. Como Portugal e a Europa. A questão da golden share é exemplar da relação do Estado com as empresas estratégicas. Não me parece que a golden share seja a fórmula certa. O que me parece errado é o Estado abandonar áreas de decisivo interesse público à natural ganância capitalista privada. Julgo ser essencial que o Estado - dirigido por um governo que eu posso eleger, contestar e demitir - detenha empresas que têm um papel estratégico na defesa e definição de um país. Não há nada mais estruturante para uma identidade do que a cultura. E no centro da cultura, a Língua. Uma grande empresa de telecomunicações, tal como uma grande empresa de produção, divulgação e promoção de conteúdos multimédia (por exemplo, a RTP) é um activo inalienável. Sobretudo quando aposta na mais certa das estratégias: a nossa ligação ao Brasil. O problema não é perder com a Espanha. É não ganhar o Brasil.
Crónica publicada no Económico no dia 3 de Julho de 2010.
Sou um cómico profissional involuntário. Nunca quis fazer da comédia, profissão. O que é cómico é que acabei por fundar a empresa de comédia mais conhecida em Portugal, agora que os Parodiantes de Lisboa já não estão no activo. E que o Governo de Santana Lopes cessou funções. Cá está, piada fácil.
Apesar de não ser humorista estou sempre a dar entrevistas sobre humor. As perguntas são sempre as mesmas: como é que se faz humor, quais os limites do humor, o que é o que o faz rir...
O Jorge Luís Borges, escritor muito sério, dizia que “o humor é um êxito de conversação”. O Raul Solnado, actor muito cómico, dizia que “fazer rir ou é fácil ou é impossível”.
O Dinis Machado escreveu um pequeno texto que me parece definitivo sobre o tema. Faz parte de um livro mal conhecido, “Reduto Quase Final”, que ele escreveu depois de “O Que Diz Molero” e que sempre ficou na sombra deste. Inclui um texto que se chama precisamente “Qual é o lado mais cómico disto?” e onde ele fala desse olhar muito particular sobre o mundo: “Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer esta pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica – até o leito de sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado mais cómico disto? (...) Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. (...) e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro”...
Quando o Dinis morreu e os amigos se reuniram no funeral para celebrar a sua vida foi este o texto que escolhi para ler nesse momento de grande tristeza.
Os psiquiatras dizem que o humor é “o triunfo maníaco sobre a depressão”. Pode ser que sim, pode ser que não, digo só por pura rima e espírito de contradição.
Pela circunstância da minha profissão, convivo com muitos cómicos, melhores e piores, melhores e piores pessoas. Mesmo nos momentos complicados, nas zangas e ego-batalhas, em que se bate com os brinquedos nas cabeças uns dos outros, nos momentos em que usamos o armamento pesado, não há nada mais desarmante do que um momento de humor.
Lembro-me que a Amália contava a história de como esteve quase a suicidar-se num hotel numa digressão e abandonou essa ideia quando viu o Fred Astaire a dançar na televisão. Aos cómicos, dançarinos do sentido das coisas, perdoo-lhes tudo no momento em que eles me fazem rir. Fazer rir uma pessoa é como dar um momento de felicidade instantânea, mesmo que passe logo, já ninguém nos tira. Nunca agradecerei o suficiente a quem me faz rir.
E o que me faz rir é sempre o que não estou à espera. Gosto muito quando o figurante em quem ninguém apostava nada rouba, com um pormenor mínimo, a cena ao protagonista. Uma vez gravámos um sketch com um actor e uma criança. A criança só tinha de ficar sentada e não dizer nada. O actor tinha as piadas todas. O que aconteceu foi que, a meio do sketch, o miúdo decidiu inexplicavelmente abanar a cabeça e revirar os olhos, sem razão aparente, como se estivesse a dançar um ritmo íntimo ao ouvir uma música nuns phones que não tinha. O resultado foi absolutamente hilariante e não me canso de ver a cena só para ver a cara do miúdo.
Não gosto que me digam que me vão contar uma anedota, desde logo porque é como anunciarem que me vão fazer rir. Mas a minha anedota favorita é a do coxo que queria muito entrar na peça da aldeia. Depois de muita insistência, concordaram que ele entraria e apresentaria a peça dizendo “Senhoras e senhores: O Melro”. Entusiasmado, o coxo foi para casa ensaiar: “Senhoras e senhores: O Melro”, “Senhoras e senhores: O Melro”, “Senhoras e senhores: O Melro”... No dia da estreia, com a sala cheia, toda a aldeia em peso a ver, ouvem-se as pancadas de Moliere e o coxo entra em cena e prepara-se para a sua deixa, quando é interrompido por um tipo da assistência que diz “Olha o coxo!”, indignado, o coxo responde: “O coxo, o melro!, senhoras e senhores: O Caralho.”
Adoro estas personagens loosers, pelas quais tenho um carinho cruel, os tipos que têm uma única oportunidade na vida e desperdiçam-na.
E sempre que entro em cena como cómico profissional sinto-me coxo.
Crónica publicada no Económico no dia 26 de Junho de 2010.
Uma breve nota para sinalizar a edição em DVD do Voz. Já aqui escrevi sobre aquele que é um dos projectos que mais gostei de fazer e talvez aquele cujo resultado final mais superou as minhas expectativas. Depois de cinco anos de persistência, foi possível, com o patrocínio da Fundação EDP, a quem quero agradecer - e em particular ao Sérgio Figueiredo e ao José Manuel dos Santos - não só editar o DVD com os 75 clips dos poemas e o making of, mas igualmente fazê-lo no âmbito de uma iniciativa mais vasta que permite oferecer um DVD a todas as escolas secundárias do país e se fazer nessas escolas uma sessão de apresentação e recital com um dos actores do projecto. É o início de uma nova fase para um projecto que começou no programa da RTP em 2005 e que desta maneira não termina na edição do DVD.
Dos 75 clips, já publiquei aqui alguns. Acrescento estes três. O primeiro é um extracto d'A Pluma Caprichosa do Alexandre O'Neill, a quem o Rogério Samora oferece a sua extraordinária voz. O segundo é um poema do Manuel Alegre que, nesta versão, tem uma circunstância muito especial. O Zé Pedro Gomes tinha tido um aneurisma e como tal ficou em risco de perder a memória, o que felizmente não aconteceu. Este é o primeiro trabalho que ele fez depois do acidente. Pareceu-me que não haveria melhor poema para esse regresso do que este, que fala precisamente da memória. A gravação foi feita em casa do Zé Pedro e as fotografias são mesmo fotografias dele. Esta coincidência dá uma autenticidade a esta leitura que nunca deixa de me emocionar de cada vez que a vejo. Por fim, o terceiro poema, Outros Lugares de Jorge de Sena, lido pelo Diogo Infante. Neste caso estamos a pisar o risco. E o Diogo fala disso no documentário do Voz. É um poema sobre o desaparecimento, sobre a morte. E a opção de o fazer num lar de terceira idade com figurantes reais, eles próprios nessa zona de fronteira que é o fim da vida, está no limite ético do que pode ser filmado. O resultado é, na minha opinião, absolutamente tocante.
A estes três magníficos actores, como a todos os outros que participaram no projecto, à extraordinária equipa de realização e de edição dos Até ao Fim do Mundo, o meu profundo e sincero agradecimento.
Da minha parte, dediquei este trabalho a três amigos infelizmente já desaparecidos: o poeta Al Berto, que lia brilhantemente os seus próprios textos, e com quem organizei muitos recitiais, o Hermínio Monteiro, editor e dinamizador de recitais e encontros, com quem fiz, para a RTP, com a Margarida Gil, uma primeira versão deste Voz, que se chamava Instantes, e por fim o Raul Solnado, que eu tive o prazer de conhecer já no fim da vida dele e que gravou o poema com que fecha o DVD do Voz: Liberdade, de Fernando Pessoa.
É impressionante a quantidade de vezes que opinamos e decidimos sobre coisas das quais não percebemos nada. Também é impressionante a quantidade de vezes que somos decididos e orientados nas nossas opiniões por pessoas que percebem tanto como nós. Na politica, e não me refiro só às eleições mas, desde logo, às opiniões e escolhas dos lados dos contraditórios em que queremos estar, a verdade é que, na esmagadora maioria das vezes, optamos por intuição e simpatia, por influência, por embirração, por preconceito, por fanatismo, por acaso. Seja em relação a que tema for, há muito mais adesão emocional do que conhecimento de causa. A hipermediatização da discussão pública, com a transformação dos comentários e dos debates em soundbytes e espectáculo, tem amplificado e consolidado este modelo. Não é necessariamente mau que tomemos decisões por instinto ou inteligência emocional. Para lá das ideias e das políticas há os representantes e líderes partidários, ou seja, as pessoas e o seu carácter. E muitas vezes a melhor maneira de avaliar um projecto político é avaliar a personalidade e a capacidade do seu líder, e a melhor forma de o fazer é quase sempre confiar na “impressão” que temos dele e seguir o nosso instinto. Como nos textos dramáticos, a narrativa e a qualidade do texto são indispensáveis, mas o intérprete é que é o determinante. É uma evidência e tem sido muitas vezes repetida: há uma gritante falta de líderes na cena política nacional e internacional. Perante a crise cada vez mais aguda, e grave, passe a contradição sonora, não são só os modelos de gestão política que precisam de ter novas soluções. É o próprio modelo de líder que precisa de encontrar uma geração de novos intérpretes. Como parece que a América encontrou em Obama. Joseph Nye Jr., ex-reitor da Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, e autor de livros como o recente “Liderança e Poder” (edição Gradiva), defende precisamente essa ideia de que a liderança está a mudar e que, no novo contexto de informação global, o esquema de poder hierárquico que vinha da era industrial tornou-se inadequado e ineficaz. Numa entrevista à revista Visão, Nye Jr. dizia “Dantes, o líder era o rei da montanha, que dava ordens cá para baixo. Agora os líderes eficientes estão no centro de um círculo e atraem os outros para os seguirem”. Refere ainda que para além de ter que ser um bom comunicador e de ter inteligência emocional para seduzir, os novos líderes vão precisar de ter aquilo a que ele chama de inteligência contextual, ou seja, “a capacidade de adaptar as estratégias a diferentes contextos”, e realçava: “a inteligência contextual é a maior qualidade para um líder do século XXI”. É este novo modelo de líder que tem de surgir na direcção das empresas e nas direcções políticas, no território de permanente mudança de contextos que é a crise mundial actual. Duas salvaguardas óbvias: o Estado não é uma empresa e não pode ser gerido como uma empresa; adaptar estratégias a diferentes contextos não quer dizer adaptar princípios ( não se aplica a célebre e tão praticada máxima : “Os meus princípios são estes. Mas se for preciso mudam-se”). Uma verdadeira liderança não se impõe nem pela força da instituição que dirige, nem pelo cargo, nem pela força coerciva, nem pelo dinheiro. Uma liderança impõe-se por si, isto é, pela autoridade que em si se reconheça. E não se apresenta num modelo hierárquico, mas antes numa lógica de visão de futuro e inspiração. Mas não há possibilidade para estes novos líderes aparecerem se não houver mudança na forma de os avaliarmos. Não são só os líderes que precisam de ser contextualmente inteligentes, cada um de nós deve obrigar-se a uma procura de informação e reflexão que nos faça decidir com mais conhecimento de causa. Ou seja, tentar perceber melhor o que está realmente em jogo. Que é muito. O meu ponto de vista de indivíduo ignorante das grandes questões de macro-política , diz-me que, mais do que nunca, precisamos de defender o “Estado social” dos predadores financeiros e dos teóricos do liberalismo selvagem. E diz-me que para esse modelo ser viável vamos precisar, por um lado, de mais Europa , e por outro lado de mais política de proximidade, ou seja, de mais região e de mais politica da cidade (mas de menos caciquismo). E de mais família (mas não da fechada família católica). Não há ninguém que nos diga como é que isto se faz? E alguém que o comece a fazer?
Crónica publicada no Económico no dia 19 de Junho de 2010.
O que é que nos faz mover, correr?, pergunto-me, de vez em quando, numa pausa no meio da movida, da correria e debato-me com as respostas da praxe: o sexo, o poder, o dinheiro, a curiosidade, o medo ( da morte e tal), a fé... Já disse o sexo? ... Os Beatles diziam que tudo o que faziam era para ter muitas namoradas. E tiveram, pelo menos antes de Yoko-Onarem. Mas o sexo não é tudo. Sobretudo quando se tem (quando se vem?). Depois há as derivações, substituições e perversões, em suma, o ser humano. Freud explica e complica. Às vezes um charuto é só um charuto, dizia ele, a ver se se enganava. O sexo já não é o que era (felizmente). A Internet está a mudar tudo. E a tecnologia. Dos encontros ( dating ) à consumação ( splash!?), radicalizou-se a ideia que conhecer uma pessoa é encontrarmo-nos com uma ideia – uma ficção que fazemos dela, e desejar uma pessoa é fazer coincidir essa pessoa com a projecção do nosso desejo. Ou seja, tudo o que nos faz perder a cabeça se passa na nossa cabeça. A consumação física dessa coisa mental é o contacto do nosso corpo com outro corpo, mas pode vir a ser cada vez mais o contacto do nosso corpo com a simulação de outro corpo. É aqui que o futuro se torna sedutor: o que acontecerá à sedução, ao namoro, à paixão, ao amor nos tempos de cibersexo, hiper-representação e ironia? Mas como dizia o outro ( Stig Dagerman), “ A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”, ou o que nós somos capazes de fazer só para que gostem de nós. No meu habitat de trabalho isso é tão evidente. A infância explica tudo. Como o mundo seria diferente se certas pessoas tivessem tido um pouco mais de atenção na infância. Agora vingam-se actuando para grandes plateias, ou, se tal não for possível, para pequenas, normalmente um sacrificado grupo de incautos circunstantes. A quantidade de problemas da arte, do showbizz, da politica, que se resolveriam tão simplesmente com um pouco de mimo e colo. Ou, vá lá, de sexo. Tanta declaração de princípios, opinião, teoria, polémica, indignação, honra ofendida, problema insanável que se resolveria com uma boa queca ou, vá lá, um gosto muito de ti, és o maior, mentido com jeito e convicção. As pessoas e os seus actos, tal como as personagens dos romances, têm o seu subtexto. Por detrás de uma acção ou de um traço de carácter é possível sempre descortinar uma explicação, uma lógica quase sempre mais elementar do que gostaríamos de admitir. As múltiplas variáveis humanas tem no seu dna meia-dúzia-se-tanto de Basic Plots, para ser completamente rigoroso. Como no livro de Pio de Abreu, “Como tornar-se Doente Mental”, só temos de identificar a patologia em causa ou em potência e agir em conformidade, prevenindo ou remediando. ( No meu caso um mix maníaco-depressivo / obsessivo compulsivo com nuances de narcisismo, tudo agravado por uma irremediável infância feliz). Acaba por ser divertido ler as pessoas para lá das aparências, sobretudo quando temos a informação contextual para o fazer. Perceber que o tipo que trabalhava connosco e que dizia que éramos os maiores e agora nos insulta em público, ao expressar o seu ressentimento, tem falta de mimo e colo e, agora como antes, precisa afinal é que nós lhe digamos que ele é o maior que por aqui já passou e há-de passar; que o critico que repetidamente nos critica na sua ignorada tribuna que é a sua razão de existir, ao verberar a sua verborreia, tem falta basicamente de vida e precisa que lhe digam que é muito importante e sem ele não haveria ninguém para denunciar como as coisas realmente são; em resumo, que nós próprios, ou pelo menos eu, quando começamos, começo, a perder tempo com pessoas como eles e a escrever um parágrafo que seja sobre o assunto é porque estamos, estou, a precisar de qualquer coisa. Provavelmente, arrisco, de mimo e colo. Ou então, somente de me dedicar a coisas mais interessantes. Como o que faz mover as pessoas.
Crónica publicada no Económico no dia 12 de Junho de 2010.
Lisboa e Junho é um casamento perfeito. À beira do verão, a cidade está salpicada de jacarandás, penso como será vista do céu, mas do céu próximo, num voo de pássaro. Em francês à vol d’oiseau quer dizer passar sem nos determos, em linha recta, mas também por alto, podia ser um título para uma crónica.
“À beira do mar de Junho” é o título de um livro de poemas de João Miguel Fernandes Jorge, do início dos anos oitenta, gostava do livro pelos poemas, eram quase sempre muito curtos, a abrirem muitas leituras, mas gostava sobretudo do livro pelo livro em si, era uma edição da Na Regra do Jogo, com capa azul cartonada. No interior, logo nas primeiras páginas, tinha uma foto do mar visto de uma arriba com vegetação, que estava impressa e colada como um cromo. Gostei desse livro como se ele, objecto, fosse um poema e, como acontece com um poema, me inspirasse não tanto pelo que lá está escrito como pelo que eu leio nele. Agora que o livro está numa estante da casa como um poema numa antologia, não volto a ele para não perder a memoria que dele agora tenho.
Não sei explicar ao certo o prazer que encontro nessas evocações do verão ou da ideia do verão á beira mar, nunca sei explicar ao certo e vou errando numa deriva preguiçosa que me leva desse livro a outros livros de poemas litorais, como o Salsugem, do Al Berto ou tantos ao acaso da Sophia onde apetece ficar como num terraço branco debaixo de um alpendre florido sobre o mar.
Há um amigo meu que não gosta de poesia. Diz que ouvir poemas, para ele, é como ouvir números. “ Eu vi a luz em um pais perdido”: 33, 22, 7, 423. “E busque amor novas artes, novo engenho”: 93, 44, 2, 113.
Imagino-o, um dia, a ler, por acaso, um poema “É ferida que dói e não se sente”: 24, 13, 5, 1001, desinteressado e distraído, um texto que nem seja um poema, um texto donde lhe venha, inesperado e fulgurante, um verso que ele ganhe como quem ganha a lotaria, como o número de uma lotaria íntima, o segredo do cofre onde ele guarda a sua secreta poesia privada.
Dos poemas parte-se para a infância. Ao passar pela minha adolescência lembro-me dos verões à beira mar, acampado na praia com os amigos, trocando leituras e projectos. Nunca a inspiração dos livros foi tão vibrante e partilhada como nesse tempo em que tudo parecia estar por acontecer. Do Portinho da Arrábida à costa vicentina ou ao Algarve menos betonado ficou um rasto de criação de memorias comuns de pequenas aventuras de férias e de grandes aventuras sonhadas a partir dos livros que nos seduziam como as namoradas que sonhávamos ter.
“É triste no Outono concluir/ que era o verão a única estação” diz Ruy Belo num dos mais tristes versos da literatura portuguesa, um verso onde me poderia ver mas não vejo, nem me revejo, apesar de belo e Belo, duplamente belo, estando agora no verão estou no verso do verso a concluir que o verão volta sempre. Nem que seja para nos assombrar.
À sombra dos verões passados escrevo e regresso à Lisboa hoje quase deserta do feriado.
Uma vez sonhei que estava em Lisboa e toda a gente tinha desaparecido sem deixar rasto, mas tudo estava na mesma para alem da ausência das pessoas. Percorria as ruas e não se via vivalma. Do sonho não me lembro mais, mas se o traduzisse num filme começaria a encontrar aqui e ali as pessoas que eu não vi nunca mais, como o senhor Antunes da papelaria a dizer que já tinha chegado o Tintim, o homem da carrinha dos gelados a chegar à esquina e a tocar a campainha ou o pai a dizer para nos despacharmos para apanhar o 2 para a matiné do Tivoli.
A praceta em frente à casa está agora coberta por um tapete roxo monet de folhas de jacarandá.
Termino como um pássaro que volta a pousar no fio do telefone. Like a bird on a wire/ like a drunk in a midnight choir/ I have tried in my way to be free ( Leonard Cohen).
Depois, pegarei no telemóvel e ligarei a um amigo para lhe perguntar o que é que ele tem andado a ler.
Crónica publicada no Económico no dia 5 de Junho de 2010.
A minha história favorita sobre as relações entre produtores e autores é a do argumentista de um filme de ficção científica que viu um argumento seu recusado pelo produtor com a justificação que dá título a esta crónica: “Um marciano nunca diria isso”. Este episódio e a sua punch line sintetizam de forma exemplar o choque de civilizações que é sempre a relação entre o criador e o produtor. Trabalhar em cinema, como em televisão, é trabalhar em equipa. E é sobretudo trabalhar numa cadeia de acontecimentos, desde a ideia inicial até à forma final, em que, muitas vezes, qualquer semelhança entre a ideia original e o resultado final é pura coincidência. Em Portugal isso tem sido por demais evidente, quer no cinema quer na televisão, pela simples razão que em ambos o autor inicial, isto é, o argumentista, não tem normalmente qualquer poder para fazer vingar as suas ideias. No caso do cinema esse poder em Portugal tem estado excessivamente concentrado no realizador, no caso da televisão esse poder tem estado concentrado no produtor e, ultimamente, no director da estação televisiva. Esta fragilidade dos argumentistas portugueses explica muito do insucesso da produção de filmes e séries em Portugal. Costuma dizer-se que o problema é não termos argumentistas. A verdadeira razão é não termos produtores. E por trás desta razão há outra que é a estagnação estrutural do audiovisual em Portugal. É sempre uma questão de poder, aquilo que se joga no processo de produção de um filme ou de uma série. Quem toma as decisões artísticas, quem decide se fica desta ou daquela maneira, quem tem o final cut. Em Portugal é muito normal não haver sequer direcção artística e o processo ficar numa deriva que deve mais à arbitrariedade, ao desleixo e à desresponsabilização do que a qualquer escolha fundamentada. Quando não é assim, normalmente é tudo afunilado numa única pessoa. Tradicionalmente o actor comediante nas séries de humor, o realizador autor nos filmes, a direcção de programas na televisão em geral. Nunca, praticamente nunca, no primeiro autor que é o argumentista, que em Portugal ainda hoje é considerado um tarefeiro, quase ao nível de um fornecedor de catering. Nos países onde há vitalidade e diversidade criativa na indústria audiovisual, o autor é não só poderoso como, em muitos casos, o elemento mais poderoso do projecto. Veja-se o período de ouro da televisão americana, que agora simbolicamente se encerra com o fim da série Lost. Um período em que os autores eram creditados como produtores da série porque eram eles quem decidia, do princípio ao fim, as grandes opções criativas da série. Da escolha de elenco ao final cut. Acima deles, só as estações produtoras, que podiam decidir cancelar ou continuar as séries, mas não interferiam de forma abusiva no conteúdo. O êxito desta fórmula pode ser comprovado se olharmos para os últimos dez anos de produção de séries americanas. A qualidade esteve sempre associada ao modelo de autor/produtor, sejam séries de humor ou séries dramáticas, mais juvenis ou mais adultas. Agora que a época de ouro parece ter terminado, por razões que têm a ver com a pulverização dos canais e a internet, e que fazem com que as grandes produtoras não arrisquem grandes produções, o papel dos autores, dos primeiros autores, dos argumentistas, deve ser mais valorizado do que nunca. Com o fim de Lost, a série mais cara de sempre, é a própria indústria que se encontra perdida, na imprevisível ilha dos media contemporâneos. Mas independentemente de toda a mutação das plataformas e dos écrãs, o essencial não mudou e não vai mudar: histórias. As pessoas vão continuar a querer seguir as boas histórias. Seja em que canal for, e seja de que maneira for, no momento em que são emitidas pela primeira vez ou quando quiserem. O que nós todos vamos continuar a querer é partilhar essas histórias com outros. E vamos continuar a querer pertencer a comunidades que vejam o mesmo que nós vemos. E vamos continuar a querer ver histórias que já conhecemos e gostamos. E vamos continuar a querer ver histórias novas. Num mundo cada vez mais invadido de conteúdos por todo o lado, há dois tipos de pessoas que vamos querer seguir: os inspirados contadores de histórias e os programadores que vão orientar-nos na forma de encontrarmos os contadores de histórias de que gostamos. Aqueles que nos contam o que os marcianos realmente dizem.
Crónica publicada no Económico, no dia 29 de Maio de 2010.