“Famílias e como sobreviver-lhes” era o título do livro que John Cleese fez a meias com o (seu) psiquiatra Robin Skynner e podia ser uma definição para a vida de cada um de nós. Ou nas palavras de Philip Larkin “They fuck you up, your mum and dad. / They may not mean to, but they do. / They fill you with the faults they had / And add some extra, just for you. / But they were fucked up in their turn / By fools in old-style hats and coats, / Who half the time were soppy-stern / And half at one another's throats.”, Não preciso de traduzir, julgo que o primeiro verso, que dá o tom, é Esperanto Universal.
As famílias são a base da sociedade e podem ser, claro, lugares maravilhosos ou inescapáveis pesadelos. Ou as duas coisas, ou nenhuma delas. A verdade é que nascemos, quase todos, no seio delas, e delas temos que nos emancipar e libertar, partir para outra, quase sempre para outra família, sabendo sempre que a nossa família inicial permanece connosco até ao fim, bem ou mal.
Isto tudo a propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da discussão à volta da sua legalização. É sempre fascinante observar a obsessão da direita conservadora, com o seu lastro de opressão católica sobre a liberdade, a individualidade, o corpo e o desejo, em querer que o Estado interfira e controle aquilo que é mais irremediavelmente pessoal, enquanto simultaneamente defende a mínima intervenção possível desse mesmo Estado em tudo o que tenha a ver com os bens materiais e as suas transacções e negócios , negando uma intervenção estatal reguladora para a salvaguarda de um mínimo de dignidade social e de condições e oportunidades económicas justas para todos. É como se o dinheiro fosse o corpo para o sexo livre e sem barreiras, a orgia pública e consentida da direita dos bons costumes.
Mas o que estava em questão era pura e simplesmente uma questão de igualdade de direitos. O amor, o sexo ou a amizade são outra coisa. E não são para aqui chamados. Aqui trata-se de um direito a um contrato. Um contrato de casamento. Uma relação institucional de direitos e deveres com o Estado, que já tardava em ser aprovada. A sua proibição a pessoas do mesmo sexo era uma imposição abusiva do Estado ( como, aliás, é abusiva a lei das uniões de facto, que impõe o estatuto de casados a pessoas que não manifestam a vontade de casar).
Os argumentos de que tudo isto acabará afinal por servir unicamente a meia dúzia de casais são falaciosos no contexto do respeito pelas minorias e pelos seus direitos, que não são, aliás, referendáveis Nem que tudo isto fosse para que um único casamento acontecesse, teria valido a pena.
O que eu lamento é que tenha sido aprovado à portuguesa, com condicionante, amputada do direito de adopção. Que, no entanto, não tenho dúvidas, mais tarde ou mais cedo virá. Afinal o que é melhor: dezenas de milhar de crianças à espera de adopção, amontoadas em instituições, ou a possibilidade dessas crianças serem adoptadas por famílias, diferentes tipos de família, desde que aprovadas para adopção com critérios que tenham a ver com as possibilidades de felicidade que aquelas famílias em concreto possam proporcionar e não com preconceitos de género ou outros?
“Um dia mereceremos que não haja governos” dizia Borges. Hoje não é a véspera desse dia, dizia Asterix, a propósito de outra coisa.
Neste caso, o Parlamento, ainda que por linhas tortas escreveu direito ao aprovar esta lei. Abre caminho para famílias mais abertas, com mais hipóteses para haver nelas pessoas mais felizes.