A minha história favorita sobre as relações entre produtores e autores é a do argumentista de um filme de ficção científica que viu um argumento seu recusado pelo produtor com a justificação que dá título a esta crónica: “Um marciano nunca diria isso”. Este episódio e a sua punch line sintetizam de forma exemplar o choque de civilizações que é sempre a relação entre o criador e o produtor. Trabalhar em cinema, como em televisão, é trabalhar em equipa. E é sobretudo trabalhar numa cadeia de acontecimentos, desde a ideia inicial até à forma final, em que, muitas vezes, qualquer semelhança entre a ideia original e o resultado final é pura coincidência. Em Portugal isso tem sido por demais evidente, quer no cinema quer na televisão, pela simples razão que em ambos o autor inicial, isto é, o argumentista, não tem normalmente qualquer poder para fazer vingar as suas ideias. No caso do cinema esse poder em Portugal tem estado excessivamente concentrado no realizador, no caso da televisão esse poder tem estado concentrado no produtor e, ultimamente, no director da estação televisiva. Esta fragilidade dos argumentistas portugueses explica muito do insucesso da produção de filmes e séries em Portugal. Costuma dizer-se que o problema é não termos argumentistas. A verdadeira razão é não termos produtores. E por trás desta razão há outra que é a estagnação estrutural do audiovisual em Portugal. É sempre uma questão de poder, aquilo que se joga no processo de produção de um filme ou de uma série. Quem toma as decisões artísticas, quem decide se fica desta ou daquela maneira, quem tem o final cut. Em Portugal é muito normal não haver sequer direcção artística e o processo ficar numa deriva que deve mais à arbitrariedade, ao desleixo e à desresponsabilização do que a qualquer escolha fundamentada. Quando não é assim, normalmente é tudo afunilado numa única pessoa. Tradicionalmente o actor comediante nas séries de humor, o realizador autor nos filmes, a direcção de programas na televisão em geral. Nunca, praticamente nunca, no primeiro autor que é o argumentista, que em Portugal ainda hoje é considerado um tarefeiro, quase ao nível de um fornecedor de catering. Nos países onde há vitalidade e diversidade criativa na indústria audiovisual, o autor é não só poderoso como, em muitos casos, o elemento mais poderoso do projecto. Veja-se o período de ouro da televisão americana, que agora simbolicamente se encerra com o fim da série Lost. Um período em que os autores eram creditados como produtores da série porque eram eles quem decidia, do princípio ao fim, as grandes opções criativas da série. Da escolha de elenco ao final cut. Acima deles, só as estações produtoras, que podiam decidir cancelar ou continuar as séries, mas não interferiam de forma abusiva no conteúdo. O êxito desta fórmula pode ser comprovado se olharmos para os últimos dez anos de produção de séries americanas. A qualidade esteve sempre associada ao modelo de autor/produtor, sejam séries de humor ou séries dramáticas, mais juvenis ou mais adultas. Agora que a época de ouro parece ter terminado, por razões que têm a ver com a pulverização dos canais e a internet, e que fazem com que as grandes produtoras não arrisquem grandes produções, o papel dos autores, dos primeiros autores, dos argumentistas, deve ser mais valorizado do que nunca. Com o fim de Lost, a série mais cara de sempre, é a própria indústria que se encontra perdida, na imprevisível ilha dos media contemporâneos. Mas independentemente de toda a mutação das plataformas e dos écrãs, o essencial não mudou e não vai mudar: histórias. As pessoas vão continuar a querer seguir as boas histórias. Seja em que canal for, e seja de que maneira for, no momento em que são emitidas pela primeira vez ou quando quiserem. O que nós todos vamos continuar a querer é partilhar essas histórias com outros. E vamos continuar a querer pertencer a comunidades que vejam o mesmo que nós vemos. E vamos continuar a querer ver histórias que já conhecemos e gostamos. E vamos continuar a querer ver histórias novas. Num mundo cada vez mais invadido de conteúdos por todo o lado, há dois tipos de pessoas que vamos querer seguir: os inspirados contadores de histórias e os programadores que vão orientar-nos na forma de encontrarmos os contadores de histórias de que gostamos. Aqueles que nos contam o que os marcianos realmente dizem.
Crónica publicada no Económico, no dia 29 de Maio de 2010.
Para ler uma entrevista feita por Maria João Freitas, com fotografia de David Cardeira Alves, clique aqui.
Sempre me pareceu que Deus está mais na palavra “acredito” do que na palavra “ Deus”, quando se diz “acredito em Deus”. Natália Correia deixou-nos um belíssimo pequeno texto “Exórdio”, incluído no livro “O Armistício”, onde diz: “Não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses. Porque mais importante que os deuses existirem é acreditarmos neles”. Fui educado no catolicismo mas depressa o abandonei. Imediatamente depois de ter feito a primeira comunhão, desliguei-me. A variante católica do cristianismo não só nunca me sensibilizou como, em muitos aspectos me ofendeu e ofende. Desde logo pela chocante contradição entre a pompa e ostentação do poder do Vaticano e o despojamento da mensagem cristã, mas sobretudo pela imposição do conceito de pecado e pela continuada repressão do corpo e das ideias - da liberdade, e em suma, pela sua primária e bafienta mitologia. Mas fico sempre fascinado pela necessidade que as pessoas têm de acreditar em qualquer coisa e pela forma como satisfazem essa necessidade celebrando essa fé em público e em colectivo. Aconteceu agora de novo em Portugal com a vinda do Papa, como acontece sempre com o fenómeno de Fátima ( Ou, de outra maneira não tão diferente quanto possa pensar-se, aconteceu no domingo passado, com a vitória do Benfica numa outra forma de celebração colectiva de uma fé, neste caso muito terrena, profana e prosaica, mas que suscita, como a outra, paixão libertação e alegria, e igualmente promove rituais de celebração colectiva). Não me identifico com nenhuma das grandes religiões, todas me parecem muito mais formas políticas de poder sobre os pessoas e os povos do que sistemas de relação com a transcendência, o divino ou a espiritualidade. O sentido etimológico da palavra religião, religare, é voltar a ligar, reencontrar a ligação com aquilo de que estamos separados, afinal um sentido comum com o da mitologia universal do amor. E, tal como o amor, o sentimento religioso é uma questão íntima e privada, uma relação individual com uma transcendência que, no essencial, faz da epifania uma experiência estética. Há um verso luminoso na obscura poesia de Herberto Hélder que, para mim, exprime, cintilante, esta ideia: “Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza”. Uma das mais gritantes evidências das grandes religiões é, precisamente, a péssima relação delas com as artes contemporâneas, por mais que, por exemplo, o próprio Papa invoque a Beleza. António Marujo escrevia no Público desta semana que “há uma estética na Igreja Católica feia e ridícula, presa que está a expressões de um passado recente – século XIX e XX, em que o catolicismo se zangou com a arte e vice-versa – ou à reprodução deslocada de ícones de séculos”. Mas a inadequação das grandes religiões à época contemporânea não é unicamente uma questão estética, ou sequer ética. A verdade é que não sinto necessidade, como a personagem do Woody Allen num dos seus filmes, de bater à porta de todas as congregações – judaicas, cristãs, muçulmanas, budistas – para perceber qual é a religião ideal para mim. Aliás, num mundo dominado pelas leis do mercado e pela obsessão do consumo, as religiões hoje chegam-nos por catálogo multimédia, muito mais do que por via familiar, escolar ou estatal. Lembro-me de ter escrito um sketch sob a forma de uma rubrica de defesa do consumidor, em que se comparavam diferentes religiões, como quem compara electrodomésticos, usando tabelas onde se comparam a qualidade das igrejas, o interesse dos discursos, a relação entre tempo investido e alívio das consciências, etc. Para lá da anedota, é isto que hoje se passa, quando por exemplo entre nós temos católicos não praticantes, ou seja, católicos que acabam por não praticar ou concordar com muitas coisas que estruturam a sua própria religião. A questão é que não precisamos das grandes religiões tradicionais e do seu totalitarismo politico. Acreditar e ter fé faz parte da natureza e da cultura humanas, a espiritualidade é um caminho para a nossa alegria e elevação. Mas é tempo de inscrever esse caminho no território do livre arbítrio e da liberdade. Acabo como comecei, citando Natália Correia: “Verdade de todos os deuses serem verdadeiros; e não o deus totalitário da verdade única tenazmente administrada pelo fantatismo dos monoteístas (...) Já que só se defende fanaticamente aquilo de que se duvida (...) Os deuses são da poesia.”
Crónica publicada no Económico no dia 15 de Maio de 2010.
Num tempo político em que os investimentos públicos estão na linha da frente da discussão, era inevitável que a RTP voltasse à baila. Já se começam a ouvir os políticos a debitarem banalidades de base, cheios de certezas sobre o que fazer. Desde logo, vozes pseudoliberais do partido que cometeu o maior erro que se fez com a RTP – a abolição da taxa, uma decisão de Cavaco Silva. O que é lamentável é que nenhum dos partidos, nem dos grandes nem dos pequenos, tenha uma posição reflectida e articulada sobre o tema e não se vislumbre neles sequer quem a possa ou queira ter (as únicas excepções são Arons de Carvalho do Partido Socialista, que já há muito tempo desempenha o mesmo papel, e Pacheco Pereira que, como é seu hábito, usa o tema não para o discutir em si mas como um pretexto para defender a sua agenda politica ). Duplamente lamentável é que a abordagem ao tema seja exclusivamente economicista e não se inscreva no quadro onde realmente se deve inscrever - no contexto cultural. A manutenção do serviço público de televisão e de rádio - do serviço público multimédia é um pilar fundamental de uma política para o audiovisual em Portugal. Num futuro governo a tutela deste serviço público devia ser inequivocamente do Ministério da Cultura. Mas para além disso, deveria ser o próprio Primeiro Ministro, neste caso, como noutros de política cultural (a política da Língua, por exemplo), a chamar a si a primeira responsabilidade desta causa e a garantir a articulação do Ministério da Cultura com outros, como o da Economia, o dos Negócios Estrangeiros, o da Educação e o da Ciência. Tal como noutras áreas culturais (e sobretudo não culturais), a pequena dimensão do país faz com que tenha que ser o Estado a criar condições para a existência de uma indústria audiovisual que possa ser diversa e acessível a todos. Mais: o próprio jornalismo de qualidade pode ter que vir a necessitar de apoios do Estado. Parece paradoxal num tempo em que se clama pela não interferência do Estado na actividade dos jornalistas mas, quando nos grupos privados escasseiam as condições para um trabalho jornalístico mais aprofundado, a ironia dos tempos é que pode vir a ser o Estado quem tem que ser chamado a apoiar projectos que mantenham vivo o pulmão da democracia: o jornalismo livre. Não podemos ser simplistas nem ingénuos nesta discussão. Quando se diz que se quer privatizar a RTP, isso quer dizer o quê? Quem é que quer comprar a RTP? E, já agora, que parte da RTP? E a dívida? E os trabalhadores? Só a RTP 1? E o resto? E ao privatizar a RTP 1 ficariam três canais generalistas a competir? Então não se aprova um quinto canal e privatiza-se o canal público? Julgo que seria aconselhável uma discussão aprofundada sobre o assunto. O que me parece é que a médio prazo faria sentido renegociar a dívida da RTP e, logo que possível, tirar os intervalos publicitários à estação pública, mas não tirar completamente a publicidade, isto é, manter a possibilidade de haver programas e iniciativas patrocinadas e product placement nas séries de ficção. Parece-me que seria desejável que a RTP fosse o centro de uma nova estratégia de financiamento para a produção, promoção e divulgação de filmes, séries e documentários. É fundamental que, ao fazer esta mudança radical, a RTP não se transforme num serviço público residual, como existe na América, com a PBS, ou no Brasil, não somos um país com aquela escala que permite ter grandes estações privadas, que façam grandes produções, precisamos de manter uma grande estação pública, que faça investimentos na ficção e no documentário e que articule co-produções de maior dimensão ( A ideia de uma televisão da Sociedade Civil tal como foi ensaiada pela RTP2 é um absurdo que ninguém vê). Tudo está a mudar no mundo das televisões - E aproveito aqui para saudar o novo canal Etv do grupo Económico - por mais que os canais generalistas façam esquemas com as agências de meios para atrasar o inevitável: o futuro está numa estratégia de rede de canais integrados em grupos de comunicação (Por isso é que é a TVI - e não a SIC, que tem um problema para resolver a curto prazo, se não quer ficar reduzida a um canal de Cs e Ds) Neste contexto de mudança é preciso mudar a RTP para que ela tenha um desígnio maior, para que, com a sua rede de canais multimédia, ela seja o motor de uma nova vitalidade audiovisual da cultura portuguesa. E sim, isto é mais importante do que o aeroporto, a terceira ponte e o TGV.
Crónica publicada no dia 8 de Maio de 2010 no Económico.
Dizia o Almada Negreiros: "Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade."
Relembro esta frase num tempo em que, mais que nunca, a política e a discussão pública, no essencial, se jogam e se decidem muito mais em função do que é dito do que a partir do que é feito. Fazer politica foi sempre, antes de mais, fazer discurso politico, narrativa, oratória, mas agora essa separação entre o dito e o feito é radicalizada na medida que o dito acontece nos palcos mediáticos de uma forma mais dramática, espectacular, hiperbolizada, que ilude, confunde e obscurece o feito ao ponto de prescindir dele.
A formação da opinião pública, que pode determinar as escolhas e as tendências da sociedade, é feita mais em função do que é tido como verdadeiro ou mentiroso do que daquilo que é realmente verdadeiro ou mentiroso, mais em função do que se disse ou não se disse do que daquilo que se fez ou não se fez.
Penso nisso a propósito do discurso do Presidente da República no 25 de Abril. Cavaco Silva criticou os prémios milionários atribuídos a gestores de empresas, denunciou as desigualdades e disse que se devia apostar no mar e num pólo criativo no Porto. É claro que não se pode deixar de contextualizar o discurso num contexto de pré-candidatura presidencial (a especificidade do pólo criativo no Porto é claramente um apelo ao eleitorado tradicionalmente cavaquista do Norte). Mas, independentemente do contexto, foi um excelente discurso, que sinalizou problemas e possíveis alternativas de futuro.
É verdade que não foi um discurso original, outros antes do Presidente já tinham dito o mesmo. Mas é importante que seja o Presidente a dizê-lo. Contudo, o que me parece tristemente relevante e exemplar da vida política portuguesa é que este discurso tenha sido proferido pelo mesmo Cavaco Silva que cada vez mais estamos a concluir ter sido o principal responsável pela situação em que nos encontramos. Foi nos dois governos de Cavaco Silva, com a abundância de dinheiros europeus a entrar em Portugal pela primeira vez, que cresceu e se estabeleceu o modelo de desenvolvimento de que hoje estamos reféns. Cavaco fala no mar, mas foi no seu tempo que se desmantelou a nossa frota pesqueira, fala nas remunerações, mas foi no seu tempo que se iniciou o fosso desproporcional entre administradores e trabalhadores das empresas (no caso concreto da EDP, a comissão de remunerações tem como um dos seus administradores um fiel cavaquista, Eduardo Catroga), etc, etc, etc, ... sem querer deixar de referir como político exemplar do que foi o cavaquismo o inefável Dias Loureiro, nomeado, por Cavaco Silva, Conselheiro de Estado.
O que torna este discurso e a sua situação tão exemplares do que é Portugal tem como cereja nesse bolo simbólico o facto de, com grande probabilidade, Cavaco vir a ser reeleito Presidente da República.
E este discurso surge a fechar a semana em que uma das situações mais aberrantes da história da justiça em Portugal se declara. Falo, claro, do caso Domingos Névoa/Sá Fernandes, em que, depois de ter sido provado o acto de corrupção do primeiro, se acaba por condenar o segundo, o que denunciou a corrupção. Não quero deixar de exprimir a minha perplexidade e a minha revolta pela decisão do Tribunal da Relação. Numa altura em que toda a gente fala da corrupção e da incapacidade da justiça para a combater como o principal problema da sociedade portuguesa, esta decisão que premeia um acto de corrupção e condena a denúncia desse acto é, na sua chocante realidade, de um simbolismo absoluto daquilo em que se tornou a sociedade portuguesa. Uma sociedade onde falta quem honre a causa pública, onde falta quem cumpra, quem faça. Uma sociedade de homens palavrosos onde faltam homens de palavra.
Crónica publicada no Económico no dia 1 de Maio de 2010.
No meio da crise e do impasse geral, no país e em particular no mundo dos media, escolho dois temas que merecem ser destacados: os nove anos da SIC Radical e o sétimo ano do Festival Indie Lisboa.
Nunca a produção audiovisual em Portugal teve um horizonte tão indefinido como o actual. O fracasso do modelo do FICA gerou uma situação pantanosa que ainda não foi clarificada. Este retrocesso, aliado à quebra de receitas do ICA, fez de 2009 um dos anos mais negros e menos produtivos do cinema português.
Do lado das televisões o panorama também é desolador. A única produção regular de ficção é a de telenovelas. A pouca diversidade ficcional e os poucos documentários praticamente se reduzem a uma RTP que cumpre os mínimos a que é obrigada.
Perante este cenário insiste-se em fazer manifestos como o Manifesto pelo Cinema Português, assinado pelos realizadores do costume, isto é, o status quo que tem dominado a política de cinema em Portugal, onde se defende a continuidade de um modelo que conduziu à situação actual de o cinema português ser aquele que detém a mais baixa quota de mercado de exibição de cinema nacional em sala da Europa, com uma quota inferior a 3%, contra números de pelo menos dois dígitos em todos os restantes países. Um manifesto que confunde o inegável prestígio internacional de Manoel de Oliveira e Pedro Costa (nos festivais de cinema, que não nas salas) com qualquer reconhecimento do cinema português para além destes autores, que não existe de todo.
Como muito bem assinalaram António Ferreira e Miguel Rosa numa excelente "Carta aberta à Ministra da Cultura a propósito do cinema" publicada esta semana no Público, "uma quota de mercado assim baixa só pode ser explicada por uma desadequação entre a oferta cultural e os gostos do público". E noutra passagem: "o Estado tem vindo a apoiar o cinema (...) resguardado na estéril (e falsa) divisão entre cinema comercial e cinema de autor, atribuindo subsídios a filmes sem qualquer tipo de viabilidade económica e cultural, cobrindo praticamente 100% dos custos destes, quando o papel do Estado devia ser o de cobrir apenas a falha de mercado, ou seja, aquela fatia de receita que a nossa dimensão não consegue gerar (...) Esta política de privilégio de um suposto cinema de autor, hermético e de baixo retorno, penaliza os verdadeiros autores que procuram uma política de aproximação ao público..." ( Aqui só contesto a utilização do adjectivo "verdadeiros") . Como tem sido habitual, este artigo não teve o eco que o outro manifesto teve, cujos promotores há anos têm tido o benefício de uma imprensa que também não tem dado espaço para o contraditório dessa corrente.
Mas, fazendo jus à etimologia da causa, as novas gerações de cineastas movem-se e procuram novas formas de filmar e de produzir. É ver a vitalidade da produção de curtas metragens e das suas mostras e festivais, que se multiplicam. E falando de festivais, nunca é demais saudar a maturidade e o profissionalismo do Indie na sua sétima edição, cuja programação e organização exemplares falam por si.
Enquanto isso, do lado da televisão, é de saudar igualmente a SIC Radical, no seu nono aniversário. O primeiro canal de cabo português que, para lá da informação e do desporto, abriu espaço à produção nacional realmente alternativa na área do humor e, ainda que mais timidamente, na ficção.
Há pouco tempo num artigo publicado na Meios e Publicidade, o director da SIC Radical, Pedro Boucherie Mendes, assinalava o facto de canais estrangeiros a operar em Portugal, como por exemplo a Fox Life, não terem qualquer obrigação de uma percentagem de programação de obras de origem europeia, muito menos portuguesa.
Seria o mínimo exigível e um pequeno contributo para a produção independente portuguesa. Contributo que a SIC Radical tem de facto dado. Apesar do baixo orçamento tem sido possível neste canal, ainda que de forma rarefeita e irregular, dar a ver novos humoristas (o caso mais emblemático é, claro, os Gato Fedorento), ou mesmo novos formatos. Isto para além de programação estrangeira que não estariamos a ver se não fosse aqui. Era preciso que houvesse mais investimento neste canal ou noutros que possam surgir (e aqui agora falo com conhecimento de causa). Por muito que não pareça agora, o futuro passa mais por esses canais do que pelos grandes generalistas.
Foto de Carlos Ramos.
Privatizar a RTP é um erro quase tão grande como não mudar radicalmente a RTP.
O tema, cíclico, regressou à praça pública. E, como é habitual, a discussão raramente é aprofundada, acabando por limitar-se aos clichés prós e contra cristalizados há anos e que se resumem, no essencial, à questão do controlo do Estado ou dos governos vigentes na informação dos canais da RTP, e à questão dos custos brutos de manutenção desses canais e da estrutura que os sustenta.
A falta de uma discussão pública aprofundada sobre o serviço público de televisão e, num quadro mais geral, mas indissociável do primeiro, sobre o investimento público na área das redes de comunicação e dos seus conteúdos, tem originado um rol de decisões erradas ou, no mínimo, muito discutíveis, no território audiovisual português.
É ver a forma como foram atribuidos os canais privados em Portugal, como foi desenvolvida a televisão por cabo ou, mais recentemente, o processo de (não) atribuição da licença para o quinto canal ou o processo da televisão digital terrestre.
A verdade é que, independentemente da posição dos sucessivos governos e do atraso da legislação, o mundo não pára e a inovação tecnológica tem permitido o surgimento de novas realidades para além de todos os obstáculos.
Ainda que nem sempre da melhor forma, ainda que desregulados, desregrados ou sem obrigações, hoje a oferta de conteúdos multiplicou-se e a diversidade instalou-se. Simultaneamente com esta diversidade de oferta, e de forma aparentemente paradoxal, nunca a produção independente de conteúdos audiovisuais e de cinema, em Portugal, esteve numa situação tão frágil e indefinida como a actual.
É neste quadro que se deve pensar numa reformulação da RTP. E sobretudo no quadro mais vasto de uma política para a defesa, valorização e promoção do nosso maior património: a Língua Portuguesa. Não pode haver política da Língua sem uma política para o audiovisual. E não pode haver uma política para o audiovisual sem que a RTP faça parte dessa estratégia.
O que tem que acontecer é deixar de se pensar na RTP como a pensámos até aqui: um grande canal nacional, agregador de toda a população, uma variante “cultural” na RTP2, uma RTP Internacional praticamente sem programação própria e uns canais regionais (e, mais recentemente, um canal informativo do Porto e uma residual RTP Memória).
A rede de canais é muito importante mas mais importante é a estratégia de produção, co-produção ou promoção de conteúdos. Ou seja, o fundamental no futuro não é tanto o canal em que vamos ver determinado conteúdo, mas o conteúdo em si. E programar no futuro próximo não será tanto alinhar uma sequência de programas em fluxo num horário e num canal, mas muito mais pensar na sua articulação mais aberta, na sua relação múltipla com outros conteúdos não só desse canal mas da rede de que ele faça parte e doutras redes.
Neste sentido, como já escrevi antes, e partilhando a opinião de Miguel Gaspar num texto recente no Público, deve-se pensar a RTP mais numa lógica net do que numa lógica de televisão tradicional. Cito Miguel Gaspar: “... aquela que devia ser neste momento a principal preocupaçao do Estado em matéria de comunicação social permanece no maior dos esquecimentos. Essa prioridade deveria ser a criação de conteúdos para a internet e ainda o equivalente a uma rede social para os espaços das comunidades portuguesas e da lusofonia, que poderia desempenhar um papel muito mais interessante do que a anacrónica RTP Internacional. Em matéria de serviço público, entrámos na era digital a pensar em termos analógicos”.
É por aqui que devíamos iniciar este debate que, apesar de urgente, deve ser feito com tempo e sem decisões precipitadas.
Crónica publicada no dia 17 de Abril de 2010.
Segundo o Financial Times que é, para a economia mundial, o que o Weather Channel é para o estado do tempo, a Grécia não tem hipóteses. É bancarrota pela certa. E depois será Espanha. E depois Portugal. A Europa, isto é, a França, e sobretudo a Alemanha, não nos salvarão, somos PIGS, ficaremos PIGS, provavelmente PGS porque a Irlanda será salva pela vizinhança inglesa. Uma tragédia, grega, traduzida para espanhol e para a região autónoma de Portugal. Ver-nos-emos todos gregos. Tal como antes o sonho do império se esfumou na realidade do pequeno país à beira-mar, agora o sonho europeu desvanece-se e deixa ver a pequena região subdesenvolvida da periferia. O país mudou muito desde o 25 de Abril, como comprovam as auto-estradas, a alfabetização e os hipermercados. As estatísticas do Prodata e do Portugal, Um Retrato Social, do António Barreto, falam por si. Mas, no essencial, nos centros de poder e de decisão, as mentalidades não mudaram. Tudo está como estava no século XIX. E por isso é que o Eça de Queirós é tão actual e as crónicas dos pessimistas como o Vasco Pulido Valente, ou os relatórios catastrofistas como os do Medina Carreira, se adequam à interpretação da realidade que, como eles, teima em não mudar. O problema é sempre o mesmo: a corrupção. A promiscuidade entre o Estado e os privados, a cupidez dos empresários que dizem mal do Estado mas não podem viver sem os seus favores, o tráfico de influências e, por fim, ou mais exactamente antes de tudo, a completa ineficácia e corrupção do sistema de justiça que permite que tudo isto se perpetue impunemente. Num dos inumeráveis estudos comparativos publicados nos últimos tempos dizia-se que se não houvesse corrupção em Portugal poderíamos estar como a Finlândia. Com a vantagem do clima. Ou seja, se cá nevasse fazia-se cá ski. Mas neste caso perdíamos a vantagem do clima. É o inevitável destino português? Estamos de novo na cauda da Europa, prontos a carregar a pedra de novo para o cimo da montanha. No filme “Groundhog Day”, de Harold Ramis, Bill Murray interpreta um egocêntrico apresentador do programa de meteorologia que é enviado à localidade de Punxsutawney para fazer a cobertura do Dia da Marmota. Ele não vê a hora de terminar o trabalho e voltar para casa, mas o inesperado acontece: ao acordar, no dia seguinte, percebe que está de novo no início do dia anterior e que tudo vai recomeçar exactamente igual e ele vai ter que fazer a reportagem do Dia da Marmota outra vez. Portugal está outra vez no Dia da Marmota, de onde afinal parece que nunca saímos. No filme a personagem de Bill Murray apaixona-se por Rita, a personagem de Andy MacDowell. Os primeiros encontros são desastrosos e ele não tem nenhuma hipótese com ela. Mas já que o dia se vai repetindo infindavelmente, e ele parece ser o único a ter consciência disso, começa a fazer com que isso jogue a seu favor. Sabendo já o que vai acontecer, ele altera o seu comportamento de modo a obter um resultado diferente. Será que Portugal pode fazer o mesmo? Ou não há volta a dar porque os portugueses serão sempre portugueses? É inescapável? Há uns anos fui convidado para uma conferência na Universidade de Rutgers, em Newark, para falar a um grupo de alunos de Estudos Portugueses. Foi um convite muito simpático e correu tudo lindamente. Já não ia a Nova Iorque há uns anos e estava desejoso de voltar a Manhattan e de visitar a cidade. O grupo de professores convidou-me para jantar e prometeu levar-me a um restaurante muito especial. Animado pela perspectiva de uma noite nova iorquina acabámos num restaurante típico português, em Newark, cheio de portugueses, com a televisão ligada na SIC Internacional, na telenovela. O bacalhau era excelente e foi uma bela noite. No dia seguinte juntei-me a outro grupo de amigos, que não via há muito tempo, e que me desafiaram para ir até Washington. Pensando que não ia estar muito tempo em Nova Iorque, e que a viagem de carro ainda era longa, troquei o programa por um bom jantar, num restaurante muito especial, que eles sugeriram. Acabámos num restaurante típico português do outro lado da rua do restaurante do dia anterior e absolutamente igual ao primeiro. Rodeado de portugueses, com a televisão na RTP Internacional, no futebol. O cozido estava óptimo e foi uma bela noite. Na terceira noite jantei sozinho. Em Manhattan. Não foi tão divertido. Três dias em Nova Iorque e dois a jantar em Carnide. É o destino português.
Crónica publicada no Económico, no dia 10 de Abril de 2010.