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  <title>Nuno Artur Silva</title>
  <subtitle>Nuno Artur Silva</subtitle>
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    <name>Nuno Artur Silva</name>
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  <updated>2010-07-27T08:40:50Z</updated>
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    <issued>2010-07-27T09:38:51</issued>
    <title>Aqui ficava bem uma citação</title>
    <published>2010-07-27T08:40:50Z</published>
    <updated>2010-07-27T08:40:50Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;“Boa noite, este é o canal de notícias fáceis (...) Trazemos-lhe todas as notícias que são fáceis de arranjar (...) Pessoas noutros países querem matar-nos. O resto do artigo está cheio de nomes que não consigo pronunciar (...) Assim, a segunda peça: um debate entre dois brancos de meia idade que também não sabem por que razão pessoas nos querem matar. (Homem 1: Eles odeiam-nos porque nós somos tão espectaculares. Homem 2: Comprem o meu livro ou morrerão todos). A seguir no canal das notícias falsas, os nossos comentadores discutirão sobre varas tortas que ficam encravadas em chaminés. Excelente.” Escolhi esta (longuíssima) citação, no fundo uma transcrição, de uma tira de banda desenhada do Dilbert de Scott Adams, porque ela resume de forma perfeita o que sinto em dias como os de hoje, quando vejo o pais na televisão (ou o pais da televisão). Tudo parece normal mas é como se eu procurasse outro ângulo de visão do televisor a partir do sofá da sala e, tal como nos filmes de ficção científica, as personagens reais daquele ângulo se transformassem nos cromos Dilbertianos. As comparações, metáforas ou analogias são figuras que nos fazem perceber o sentido das coisas com uma força e uma intensidade que a linguagem mais literal e não figurada não tem. Uma boa história ou uma frase inspirada iluminam uma situação com uma luz que acrescenta verdade à constatação dos factos. Gosto de recortar e coleccionar frases ou cartoons e tiras de banda desenhada. São como versos de poemas que cito não pela sua beleza ou profundidade, antes pela sua graça e demolidora desmontagem da convenção. Há um desenho de um dos meus cartoonistas favoritos, Gary Larson, que de uma forma sintética é um tratado sobre as relações no local de trabalho: num escritório dois tipos frente a frente em duas secretárias absolutamente iguais. Um diz para o outro: “Um dia esse lugar há-de ser meu”. Ou sobre o mundo dos blogues e da opinião, aquele cartoon publicado na New Yorker, assinado por Gregory, em que um cão diz para o outro: “Eu tive o meu próprio blogue por um tempo mas agora decidi voltar só a ladrar incessantemente e sem sentido”. Por vezes é a própria realidade que nos surge em versão já metafórica e cartoonada, como era o caso do inesquecível ministro da propaganda iraniana que repetia a frase “I now inform you you’re too far from reality”. É claro que é sempre uma questão de gosto e de idiossincrasia. Cada um de nós colecciona os cromos de que gosta mais, e sobre gosto pessoal, por exemplo, uma das minhas citações favoritas é a do critico de televisão que, sobre os comediantes populares Abott e Costello dizia: “essa parelha de comediantes que não faz rir ninguém. A não ser o público”. Ou, ainda sobre os críticos, o genial Oscar Wilde que no “The critic as artist” dizia: “Ah, não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo tenho sempre a impressão que estou errado”. Um dos melhores fraseadores vivos – e certamente, quando morrer, um dos maiores fraseadores mortos – é, claro, Woody Allen. Uma das suas mais citadas frases é, parafraseio, aquela em que ele diz que não percebe porque se critica a masturbação, afinal é fazer sexo com a pessoa de quem mais gostamos na vida. O mestre reconhecido e louvado por Allen era Groucho Marx. No filme “Annie Hall”, Woody Allen utiliza um frase de Marx como uma metáfora para o seu problema nas relações amorosas: “Nunca pertenceria a um clube que me aceitasse como sócio”. Há uma frase de Groucho Marx de que eu me lembro sempre quando convivo com determinadas personagens do nosso mundo televisivo: “Já chega de falar de mim, vamos falar de ti. O que é que pensas de mim?”.&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-07-19T11:00:37</issued>
    <title>A duração do efémero</title>
    <published>2010-07-16T18:44:28Z</published>
    <updated>2010-07-19T10:29:24Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;As coisas que só acontecem uma vez podem durar toda a vida. O que é fascinante é sabermos que nunca poderemos saber, de todas as coisas que só nos acontecem uma vez, as que vamos reter para sempre. Podemos esquecer o dia em que encontrámos a pessoa mais importante da nossa vida adulta e, no entanto, lembrarmo-nos de um dia anónimo em que com essa pessoa não fizemos nada de especial.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;"A vida é a arte do encontro" dizia, cantando, Vinicius de Moraes, acrescentando "embora haja tanto desencontro nessa vida". A vida não é devidamente valorizada como arte do encontro. Investimos muito de nós e do nosso tempo em coisas completamente estúpidas que não nos são decisivas ou sequer inspiradoras. E não perdemos tempo para nos dedicarmos à arte de nos encontrarmos com os outros.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Em 1989 escrevi, a meias com o Luís Miguel Viterbo, um livrinho, na verdade um pequeno ensaio/manifesto, que a &amp;amp;etc editou, sobre, precisamente, essa arte dos relacionamentos a que demos o nome de "A Elaboração dos Acasos".&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O acaso é o acaso do encontro. Ou, se acreditarmos que o acaso é, como dizia Paul Valery ,"a inteligência secreta do destino", voilà,  o destino. Destino não quer dizer que tudo já esteja escrito mas sim que a nossa vida se escreve, como um romance. E partindo do princípio que somos ficção, o nosso encontro com as personagens que podem valer a pena na nossa vida "é uma disciplina artística a apurar dia a dia; é um exercício de depuração e elaboração, um exercício de estilo. Um jogo de distâncias (...) Uma ficção, irremediavelmente verdadeira e real".&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;E não é só nas relações mais pessoais que deveríamos elaborar a arte do encontro. Naquilo que as relações profissionais têm de pessoais, no tempo que passamos uns com os outros quando trabalhamos juntos, por vezes mais tempo do que com aqueles que escolhemos passar o nosso tempo, deveríamos investir a nossa sensibilidade e criatividade, para tirar dele, tempo, e delas, pessoas, o melhor.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;No meio do meu trabalho, que tem sido essencialmente nos últimos 30 anos um trabalho criativo com equipas efémeras, não me canso de dizer que o facto de estarmos juntos naquela circunstância, aquele conjunto de pessoas, poderá não se repetir. E que, portanto, o que quer que aquele grupo tenha para dar em conjunto que possa ser mais do que a soma das partes, tem que acontecer nesse agora.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Para mim cada trabalho novo: uma série de televisão, um livro a meias, uma peça de teatro, um filme... é como um grupo de músicos jazz que se encontra para tocar junto, numa dada circunstância que não se repetirá. É preciso procurar o máximo, a melhor música e a melhor contracena, que esse grupo de pessoas seja capaz de dar.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Isto soa como uma verdade luminosa na pele dos performers, músicos, dançarinos, actores, mas acaba por ser sempre verdade, alargado aos performers do fundo do conteúdo que são os inventores de ideias, os escritores quando abrem o seu trabalho à actuação de outros.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;A beleza do trabalho colectivo não está unicamente no resultado múltiplo, variado e complexo, ela pode estar nas memórias que esse trabalho deixa nas nossas vidas individuais, como espectadores também, mas sobretudo como parte desses colectivos.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Aconteceu-me participar em inúmeros trabalhos colectivos, de diversas maneiras, como escritor, autor da ideia, coordenador, actor, director de actores, participante, figurante, director, etc. Recordo aqui um que está longe de ser, no seu resultado final, uma das melhores coisas que fiz. Mas foi um dos que mais gratas memórias me deixou, a mim e a várias pessoas que nele participaram como intervenientes ou visitantes (e não será isto o resultado final?). Foram os "Nocturnos", há quase 20 anos,  músicos, actores e bailarinos pelo Jardim Botânico, quadros vivos de uma exposição musical e poética que as pessoas seguiam guiadas por lanternas, nas noites quentes de Verão. Não tínhamos dinheiro para a produção e houve mil e um problemas técnicos. Mas aquele nocturno e quase secreto jardim  no coração de Lisboa foi nesse  momento um lugar de encontros.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico no dia 17 de Julho de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-07-12T10:50:28</issued>
    <title>A nova idade de ouro da televisão</title>
    <published>2010-07-08T07:51:50Z</published>
    <updated>2010-07-08T07:51:50Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Adoro televisão. Desde que me lembro de mim que me lembro das noites da minha infância na sala da casa dos meus pais, em frente a um televisor com ecrã minúsculo encastrado num pequeno móvel com porta de mini-bar. Ainda hoje o conservo em minha casa, como uma relíquia, a caixa realmente mágica de onde saíam a preto e branco os desenhos animados, as séries, os filmes, os festivais da canção, a chegada do Homem à lua, o 25 de Abril... Estávamos no fim dos anos 60-início dos anos 70 e havia um único canal, a RTP única e tutelada pelo velho Estado Novo. Mas foi nela que eu vi pela primeira, e muitas vezes única vez coisas que nunca mais saíram da memória da minha imaginação e que me inspiraram e me fizeram ser o que sou hoje. O televisor era a lareira à frente da qual a família se reunia e unia na partilha das histórias que dele emanavam. Nessa altura a emissão era só à noite e terminava com o hino nacional, por volta da meia-noite. Só mais tarde começaram as emissões à hora de almoço, mas nunca como nessa altura vi tanta televisão e com tanto fervor. Com o tempo fui vendo menos televisão, naturalmente dispersando-me por outras formas de cultura e entretenimento. Quando comecei a trabalhar no meio televisivo não passei a ver mais televisão, passei a vê-la de outra maneira. Retenho sempre uma frase que julgo ser do Nicolau Breyner, quando lhe perguntaram se tinha visto um programa em que tinha entrado ele respondeu: “Para fazer é um preço, para ver é mais caro”. É costume assinalar a contradição de em Portugal termos passado a ter mais canais mas termos passado a ter menos diversidade na oferta, visto que os canais começaram a competir repetindo o mesmo tipo de formato televisivo. Julgo que isso é verdade só até a um certo ponto. Há uma monocultura comum aos privados generalistas mas com o surgimento do satélite, do cabo e das IP TV, a oferta diversificou-se completamente. A ideia de que a televisão é “pastilha elástica para os olhos” faz cada vez menos sentido. Hoje quando me sento a ver televisão o que eu gosto realmente de fazer é zapping. E se o zapping pode ser, mais do que uma actividade, uma inactividade relaxante, ele pode ser também um extraordinário e estimulante exercício de imersão na cultura popular contemporânea. Uma coisa é ver um filme ou um documentário específico, podemos fazê-lo de múltiplas maneiras: seguindo-o na emissão do fluxo televisivo, gravado, on demand, num DVD, etc. Outra coisa é ver televisão. E ver televisão é fazer zapping. É misturar. É passar para universos totalmente diferentes com um clique. É passar do lixo ao luxo e vice-versa. E ver com igual acesso e possível curiosidade espectáculos degradantes e momentos sublimes. Esta experiência está prestes a sofrer uma nova transformação, que acelerará de forma radical este modo zapping de ver. A Google, em parceria com a Sony, a Intel e a Logitech, está a lançar a Google TV, ou seja, como se esperava, finalmente num único aparelho, o cruzamento da televisão com a net, no ecrã da sala. Sintetizando, é juntar no mesmo botão de comando, a possibilidade de zapping e de linking. Vamos não só poder ver os canais disponíveis como todos os conteúdos autónomos, inteiros ou em snack. Passaremos a ter o Youtube e o Facebook, e o que vier de novo na net. A tudo isso continuaremos a chamar televisão. Os serões familiares, ou de amigos, ganharão uma dimensão incomparavelmente mais aberta nas suas possibilidades. O acto de navegar na net, até aqui uma actividade predominantemente individual, passa a poder ser partilhado não unicamente à distância, como já acontece, mas em presença, no espaço físico, por exemplo, das salas de estar familiares. Com o mesmo entusiasmo com que antes eu e as outras crianças da minha geração olhávamos para a velha RTP a preto e branco, inamovível e inzapável, vamos todos agora poder ver nas nossas salas de estar praticamente tudo o que quisermos. De todo o mundo. E poder zappar e clicar não só ao sabor do acaso ou da preguiça mas igualmente por associação e procura deliberadas. Vai ser uma nova idade de ouro para a televisão.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico no dia 10 de Julho de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-07-06T09:42:46</issued>
    <title> A semana do Aleph nacional </title>
    <published>2010-07-01T17:44:17Z</published>
    <updated>2010-07-01T17:44:17Z</updated>
    <content type="html">&lt;p&gt;Esta foi uma semana em que foi possível vermos na realidade e em antevisão, concentradas,  as questões, tensões e linhas de força do futuro próximo de Portugal.  (E não só: querem melhor metáfora da incapacidade de um governo para controlar a rédea solta das corporações do que a impotência do governo americano para estancar a muito real mancha negra da BP no Golfo do México?).  No conto “O Aleph” Jorge Luís Borges  descrevia a visão desse fenómeno que dá título ao conto como um ponto do espaço que abarca toda a realidade do universo. Esta última semana foi uma espécie de Aleph temporal para Portugal.  Desde logo, a questão espanhola, duplamente, primeiro na versão patrótica-folclórica do futebol, depois na versão “É a economia, estúpido” em duelo David contra Golias, sem que se vislumbre como é que a PT vai dar a fisgada na Telefónica, fisgadas que estão ambas pelo Brasil.  Depois, as SCUTs, assim chamadas, nunca é demais lembrar, por abreviarem a expressão Sem Custos Para o Utilizador, que afinal passariam a ter custos para o utilizador, e que no fim vão acabar quase todas por não ter ou ter só para alguns. Todo um case study sobre a governação em Portugal.  Aumentam os impostos, pedem-se sacrifícios e, como de costume, é a frágil classe média quem mais vai sofrer. Em entrevista ao Expresso, João Talone dizia que estamos a voltar ao que sempre fomos: “um país de pobres com ricos”. Anunciam-se cortes na área da cultura. Nada de novo. A novidade é serem retroactivos sobre projectos já em curso. Indignação, contestação fundamentada nos direitos adquiridos e recuo. Fica só a versão de cortes para o futuro. A classe artística protesta. Com razão. O primeiro ministro tinha feito um mea culpa no desinvestimento cultural que tinha sido praticado no seu primeiro governo. O Presidente  tinha feito um discurso a incentivar as indústrias criativas. Que vergonha, rapazes!  Como sempre, os que protestam mais e têm mais destaque nos jornais habituais são os do cinema. A arte que em Portugal está mais subdesenvolvida. O sector onde há maior reivindicação e pretensão, e menos talento e criatividade.  Os escritores, onde é possível encontrar mais exemplos de qualidade, praticamente não são subsidiados. No teatro, os maiores subsídios há anos que vão para para as mesmas (apesar de tudo excelentes e meritórias) companhias independentes surgidas logo após o 25 de Abril. Mas é talvez a dança o sector onde mais se fez com o pouco dinheiro que o Estado deu. Foi na dança que, nos últimos anos, surgiram os projectos e incubadoras mais interessantes da rede artística nacional. As artes plásticas sempre se articularam bem com as empresas. O design, por definição, também. A música pop teve um boom independente de todos os apoios por ser a arte mais popular entre os jovens, e a mais adaptada à revolução da internet.  O cinema, tal como a ficção televisiva, praticamente não existe. Sufocado por um sistema de financiamento de peditório e  pela ausência de talentos mobilizadores.  Os cineastas portugueses, salvo raras honrosas excepções, são como o Cristiano Ronaldo mas sem o talento para a bola. São os capitães do discurso cultural que apontam a culpa dos maus resultados aos Carlos Queiroz do momento.  Num futuro próximo, dominado pelas grandes empresas multinacionais e por um capitalismo enredado em abstractas operações financeiras cada vez mais incontroláveis, é fundamental redefinir o papel dos Estados. E com ele o papel dos blocos de que eles fazem parte. Como Portugal e a Europa. A questão da golden share é exemplar da relação do Estado com as empresas estratégicas. Não me parece que a golden share seja a fórmula certa. O que me parece errado é o Estado abandonar áreas de decisivo interesse público à natural ganância capitalista privada. Julgo ser essencial que o Estado - dirigido por um governo que eu posso eleger, contestar e demitir - detenha empresas que têm um papel estratégico na defesa e definição de um país.  Não há nada mais estruturante para uma identidade do que a cultura. E no centro da cultura, a Língua. Uma grande empresa de telecomunicações, tal como uma grande empresa de produção, divulgação e promoção de conteúdos multimédia (por exemplo, a RTP) é um activo inalienável. Sobretudo quando aposta na mais certa das estratégias: a nossa ligação ao Brasil.  O problema não é perder com a Espanha. É não ganhar o Brasil.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico no dia 3 de Julho de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-06-29T11:12:56</issued>
    <title>Os cómicos</title>
    <published>2010-06-29T10:15:27Z</published>
    <updated>2010-07-05T08:47:08Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Sou um cómico profissional involuntário. Nunca quis fazer da comédia, profissão. O que é cómico é que acabei por fundar a empresa de comédia mais conhecida em Portugal, agora que os Parodiantes de Lisboa já não estão no activo. E que o Governo de Santana Lopes cessou funções. Cá está, piada fácil.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Apesar de não ser humorista estou sempre a dar entrevistas sobre humor. As perguntas são sempre as mesmas: como é que se faz humor, quais os limites do humor, o que é o que o faz rir...&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O Jorge Luís Borges, escritor muito sério, dizia que “o humor é um êxito de conversação”. O Raul Solnado, actor muito cómico, dizia que “fazer rir ou é fácil ou é impossível”.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O Dinis Machado escreveu um pequeno texto que me parece definitivo sobre o tema. Faz parte de um livro mal conhecido, “Reduto Quase Final”, que ele escreveu depois de “O Que Diz Molero” e que sempre ficou na sombra deste. Inclui um texto que se chama precisamente “Qual é o lado mais cómico disto?” e onde ele fala desse olhar muito particular sobre o mundo: “Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer esta pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica – até o leito de sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado mais cómico disto? (...) Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. (...) e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro”...&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Quando o Dinis morreu e os amigos se reuniram no funeral para celebrar a sua vida foi este o texto que escolhi para ler nesse momento de grande tristeza.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Os psiquiatras dizem que o humor é “o triunfo maníaco sobre a depressão”. Pode ser que sim, pode ser que não, digo só por pura rima e espírito de contradição.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Pela circunstância da minha profissão, convivo com muitos cómicos, melhores e piores, melhores e piores pessoas. Mesmo nos momentos complicados, nas zangas e ego-batalhas, em que se bate com os brinquedos nas cabeças uns dos outros, nos momentos em que usamos o armamento pesado, não há nada mais desarmante do que um momento de humor.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Lembro-me que a Amália contava a história de como esteve quase a suicidar-se num hotel numa digressão e abandonou essa ideia quando viu o Fred Astaire a dançar na televisão. Aos cómicos, dançarinos do sentido das coisas, perdoo-lhes tudo no momento em que eles me fazem rir. Fazer rir uma pessoa é como dar um momento de felicidade instantânea, mesmo que passe logo,  já ninguém nos tira. Nunca agradecerei o suficiente a quem me faz rir.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;E o que me faz rir é sempre o que não estou à espera. Gosto muito quando o figurante em quem ninguém apostava nada rouba, com um pormenor mínimo, a cena ao protagonista. Uma vez gravámos um sketch com um actor e uma criança. A criança só tinha de ficar sentada e não dizer nada. O actor tinha as piadas todas. O que aconteceu foi que, a meio do sketch, o miúdo decidiu inexplicavelmente abanar a cabeça e revirar os olhos, sem razão aparente, como se estivesse a dançar um ritmo íntimo ao ouvir uma música nuns phones que não tinha. O resultado foi absolutamente hilariante e não me canso de ver a cena só para ver a cara do miúdo.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Não gosto que me digam que me vão contar uma anedota, desde logo porque é como anunciarem que me vão fazer rir. Mas a minha anedota favorita é a do coxo que queria muito entrar na peça da aldeia. Depois de muita insistência, concordaram que ele entraria e apresentaria  a peça dizendo “Senhoras e senhores: O Melro”. Entusiasmado, o coxo foi para casa ensaiar: “Senhoras e senhores: O Melro”, “Senhoras e senhores: O Melro”, “Senhoras e senhores: O Melro”... No dia da estreia, com a sala cheia, toda a aldeia em peso a ver, ouvem-se as pancadas de Moliere e o coxo entra em cena e prepara-se para a sua deixa, quando é interrompido por um tipo da assistência que diz “Olha o coxo!”, indignado, o coxo responde: “O coxo, o melro!, senhoras e senhores: O Caralho.”&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Adoro estas personagens loosers, pelas quais tenho um carinho cruel, os tipos que têm uma única oportunidade na vida e desperdiçam-na.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;E sempre que entro em cena como cómico profissional sinto-me coxo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico no dia 26 de Junho de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-06-23T16:33:26</issued>
    <title>Voz, finalmente em DVD e oferecido às escolas</title>
    <published>2010-06-23T16:23:40Z</published>
    <updated>2010-06-24T19:16:10Z</updated>
    <category term="notas"/>
    <category term="episódios sketches"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Uma breve nota para sinalizar a edição em DVD do Voz. Já aqui escrevi sobre aquele que é um dos projectos que mais gostei de fazer e talvez aquele cujo resultado final mais superou as minhas expectativas. Depois de cinco anos de persistência, foi possível, com o patrocínio da Fundação EDP, a quem quero agradecer - e em particular ao Sérgio Figueiredo e ao José Manuel dos Santos - não só editar o DVD com os 75 clips dos poemas e o making of, mas igualmente fazê-lo no âmbito de uma iniciativa mais vasta que permite oferecer um DVD a todas as escolas secundárias do país e se fazer nessas escolas uma sessão de apresentação e recital com um dos actores do projecto. É o início de uma nova fase para um projecto que começou no programa da RTP em 2005 e que desta maneira não termina na edição do DVD.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Dos 75 clips, já publiquei aqui alguns. Acrescento estes três. O primeiro é um extracto d'A Pluma Caprichosa do Alexandre O'Neill, a quem o Rogério Samora oferece a sua extraordinária voz. O segundo é um poema do Manuel Alegre que, nesta versão, tem uma circunstância muito especial. O Zé Pedro Gomes tinha tido um aneurisma e como tal ficou em risco de perder a memória, o que felizmente não aconteceu. Este é o primeiro trabalho que ele fez depois do acidente. Pareceu-me que não haveria melhor poema para esse regresso do que este, que fala precisamente da memória. A gravação foi feita em casa do Zé Pedro e as fotografias são mesmo fotografias dele. Esta coincidência dá uma autenticidade a esta leitura que nunca deixa de me emocionar de cada vez que a vejo. Por fim, o terceiro poema, Outros Lugares de Jorge de Sena, lido pelo Diogo Infante. Neste caso estamos a pisar o risco. E o Diogo fala disso no documentário do Voz. É um poema sobre o desaparecimento, sobre a morte.  E a opção de o fazer num lar de terceira idade com figurantes reais, eles próprios nessa zona de fronteira que é o fim da vida, está no limite ético do que pode ser filmado. O resultado é, na minha opinião, absolutamente tocante.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;A estes três magníficos actores, como a todos os outros que participaram no projecto, à extraordinária equipa de realização e de edição dos Até ao Fim do Mundo, o meu profundo e sincero agradecimento.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Da minha parte, dediquei este trabalho a três amigos infelizmente já desaparecidos: o poeta Al Berto, que lia brilhantemente os seus próprios textos, e com quem organizei muitos recitiais, o Hermínio Monteiro, editor e dinamizador de recitais e encontros, com quem fiz, para a RTP, com a Margarida Gil, uma primeira versão deste Voz, que se chamava Instantes, e por fim o Raul Solnado, que eu tive o prazer de conhecer já no fim da vida dele e que gravou o poema com que fecha o DVD do Voz: Liberdade, de Fernando Pessoa.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;
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&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt; 
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&lt;p&gt;&lt;br /&gt; 
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    <issued>2010-06-22T10:14:43</issued>
    <title>Precisamos de novos líderes. E de novos nós.</title>
    <published>2010-06-18T10:16:15Z</published>
    <updated>2010-06-18T10:16:15Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;É impressionante a quantidade de vezes que opinamos e decidimos sobre coisas das quais não percebemos nada. Também é impressionante a quantidade de vezes que somos decididos e orientados nas nossas opiniões por pessoas que percebem tanto como nós. Na politica, e não me refiro só às eleições mas, desde logo, às opiniões e escolhas dos lados dos contraditórios em que queremos estar, a verdade é que, na esmagadora maioria das vezes, optamos por intuição e simpatia, por influência, por embirração, por preconceito, por fanatismo, por acaso. Seja em relação a que tema for, há muito mais adesão emocional do que conhecimento de causa. A hipermediatização da discussão pública, com a transformação dos comentários e dos debates em soundbytes e espectáculo, tem amplificado e consolidado este modelo. Não é necessariamente mau que tomemos decisões por instinto ou inteligência emocional. Para lá das ideias e das políticas há os representantes e líderes partidários, ou seja, as pessoas e o seu carácter. E muitas vezes a melhor maneira de avaliar um projecto político é avaliar a personalidade e a capacidade do seu líder, e a melhor forma de o fazer é quase sempre confiar na “impressão” que temos dele e seguir o nosso instinto. Como nos textos dramáticos, a narrativa e a qualidade do texto são indispensáveis, mas o intérprete é que é o determinante. É uma evidência e tem sido muitas vezes repetida: há uma gritante falta de líderes na cena política nacional e internacional. Perante a crise cada vez mais aguda, e grave, passe a contradição sonora, não são só os modelos de gestão política que precisam de ter novas soluções. É o próprio modelo de líder que precisa de encontrar uma geração de novos intérpretes. Como parece que a América encontrou em Obama. Joseph Nye Jr., ex-reitor da Kennedy School of Government da Universidade de Harvard, e autor de livros como o recente “Liderança e Poder” (edição Gradiva), defende precisamente essa ideia de que a liderança está a mudar e que, no novo contexto de informação global, o esquema de poder hierárquico que vinha da era industrial tornou-se inadequado e ineficaz. Numa entrevista à revista Visão, Nye Jr. dizia “Dantes, o líder era o rei da montanha, que dava ordens cá para baixo. Agora os líderes eficientes estão no centro de um círculo e atraem os outros para os seguirem”. Refere ainda que para além de ter que ser um bom comunicador e de ter inteligência emocional para seduzir, os novos líderes vão precisar de ter aquilo a que ele chama de inteligência contextual, ou seja, “a capacidade de adaptar as estratégias a diferentes contextos”, e realçava: “a inteligência contextual é a maior qualidade para um líder do século XXI”. É este novo modelo de líder que tem de surgir na direcção das empresas e nas direcções políticas, no território de permanente mudança de contextos que é a crise mundial actual. Duas salvaguardas óbvias: o Estado não é uma empresa e não pode ser gerido como uma empresa; adaptar estratégias a diferentes contextos não quer dizer adaptar princípios ( não se aplica a célebre e tão praticada máxima : “Os meus princípios são estes. Mas se for preciso mudam-se”). Uma verdadeira liderança não se impõe nem pela força da instituição que dirige, nem pelo cargo, nem pela força coerciva, nem pelo dinheiro. Uma liderança impõe-se por si, isto é, pela autoridade que em si se reconheça. E não se apresenta num modelo hierárquico, mas antes numa lógica de visão de futuro e inspiração. Mas não há possibilidade para estes novos líderes aparecerem se não houver mudança na forma de os avaliarmos. Não são só os líderes que precisam de ser contextualmente inteligentes, cada um de nós deve obrigar-se a uma procura de informação e reflexão que nos faça decidir com mais conhecimento de causa. Ou seja, tentar perceber melhor o que está realmente em jogo. Que é muito. O meu ponto de vista de indivíduo ignorante das grandes questões de macro-política , diz-me que, mais do que nunca, precisamos de defender o “Estado social” dos predadores financeiros e dos teóricos do liberalismo selvagem. E diz-me que para esse modelo ser viável vamos precisar, por um lado, de mais Europa , e por outro lado de mais política de proximidade, ou seja, de mais região e de mais politica da cidade (mas de menos caciquismo). E de mais família (mas não da fechada família católica). Não há ninguém que nos diga como é que isto se faz? E alguém que o comece a fazer?&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico no dia 19 de Junho de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-06-14T12:00:14</issued>
    <title>O que faz mover as pessoas</title>
    <published>2010-06-13T12:39:30Z</published>
    <updated>2010-06-14T11:31:09Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O que é que nos faz mover, correr?, pergunto-me, de vez em quando, numa pausa no meio da movida, da correria e debato-me com as respostas da praxe: o sexo, o poder, o dinheiro, a curiosidade, o medo ( da morte e tal), a fé... Já disse o sexo? ... Os Beatles diziam que tudo o que faziam era para ter muitas namoradas. E tiveram, pelo menos antes de Yoko-Onarem. Mas o sexo não é tudo. Sobretudo quando se tem (quando se vem?). Depois há as derivações, substituições e perversões, em suma, o ser humano. Freud explica e complica. Às vezes um charuto é só um charuto, dizia ele, a ver se se enganava. O sexo já não é o que era (felizmente). A Internet está a mudar tudo. E a tecnologia. Dos encontros ( dating ) à consumação ( splash!?), radicalizou-se a ideia que conhecer uma pessoa é encontrarmo-nos com uma ideia – uma ficção que fazemos dela, e desejar uma pessoa é fazer coincidir essa pessoa com a projecção do nosso desejo. Ou seja, tudo o que nos faz perder a cabeça se passa na nossa cabeça. A consumação física dessa coisa mental é o contacto do nosso corpo com outro corpo, mas pode vir a ser cada vez mais o contacto do nosso corpo com a simulação de outro corpo. É aqui que o futuro se torna sedutor: o que acontecerá à sedução, ao namoro, à paixão, ao amor nos tempos de cibersexo, hiper-representação e ironia? Mas como dizia o outro ( Stig Dagerman), “ A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”, ou o que nós somos capazes de fazer só para que gostem de nós. No meu habitat de trabalho isso é tão evidente. A infância explica tudo. Como o mundo seria diferente se certas pessoas tivessem tido um pouco mais de atenção na infância. Agora vingam-se actuando para grandes plateias, ou, se tal não for possível, para pequenas, normalmente um sacrificado grupo de incautos circunstantes. A quantidade de problemas da arte, do showbizz, da politica, que se resolveriam tão simplesmente com um pouco de mimo e colo. Ou, vá lá, de sexo. Tanta declaração de princípios, opinião, teoria, polémica, indignação, honra ofendida, problema insanável que se resolveria com uma boa queca ou, vá lá, um gosto muito de ti, és o maior, mentido com jeito e convicção. As pessoas e os seus actos, tal como as personagens dos romances, têm o seu subtexto. Por detrás de uma acção ou de um traço de carácter é possível sempre descortinar uma explicação, uma lógica quase sempre mais elementar do que gostaríamos de admitir. As múltiplas variáveis humanas tem no seu dna meia-dúzia-se-tanto de Basic Plots, para ser completamente rigoroso. Como no livro de Pio de Abreu, “Como tornar-se Doente Mental”, só temos de identificar a patologia em causa ou em potência e agir em conformidade, prevenindo ou remediando. ( No meu caso um mix maníaco-depressivo / obsessivo compulsivo com nuances de narcisismo, tudo agravado por uma irremediável infância feliz). Acaba por ser divertido ler as pessoas para lá das aparências, sobretudo quando temos a informação contextual para o fazer. Perceber que o tipo que trabalhava connosco e que dizia que éramos os maiores e agora nos insulta em público, ao expressar o seu ressentimento, tem falta de mimo e colo e, agora como antes, precisa afinal é que nós lhe digamos que ele é o maior que por aqui já passou e há-de passar; que o critico que repetidamente nos critica na sua ignorada tribuna que é a sua razão de existir, ao verberar a sua verborreia, tem falta basicamente de vida e precisa que lhe digam que é muito importante e sem ele não haveria ninguém para denunciar como as coisas realmente são; em resumo, que nós próprios, ou pelo menos eu, quando começamos, começo, a perder tempo com pessoas como eles e a escrever um parágrafo que seja sobre o assunto é porque estamos, estou, a precisar de qualquer coisa. Provavelmente, arrisco, de mimo e colo. Ou então, somente de me dedicar a coisas mais interessantes. Como o que faz mover as pessoas.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico no dia 12 de Junho de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-06-07T15:45:24</issued>
    <title>Crónica à vol d’oiseau</title>
    <published>2010-06-07T14:48:49Z</published>
    <updated>2010-06-13T12:41:21Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Lisboa e Junho é um casamento perfeito. À beira do verão, a cidade está salpicada de jacarandás, penso como será vista do céu, mas do céu próximo, num voo de pássaro. Em francês à vol d’oiseau quer dizer passar sem nos determos, em linha recta, mas também por alto, podia ser um título para uma crónica.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;“À beira do mar de Junho” é o título de um livro de poemas de João Miguel Fernandes Jorge, do início dos anos oitenta, gostava do livro pelos poemas, eram quase sempre muito curtos, a abrirem muitas leituras, mas gostava sobretudo do livro pelo livro em si, era uma edição da Na Regra do Jogo, com capa azul cartonada. No interior, logo nas primeiras páginas, tinha uma foto do mar visto de uma arriba com vegetação, que estava impressa e colada como um cromo. Gostei desse livro como se ele, objecto, fosse um poema e, como acontece com um poema, me inspirasse não tanto pelo que lá está escrito como pelo que eu leio nele. Agora que o livro está numa estante da casa como um poema numa antologia, não volto a ele para não perder a memoria que dele agora tenho.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Não sei explicar ao certo o prazer que encontro nessas evocações do verão ou da ideia do verão á beira mar, nunca sei explicar ao certo e vou errando numa deriva preguiçosa que me leva desse livro a outros livros de poemas litorais, como o Salsugem, do Al Berto ou tantos ao acaso da Sophia onde apetece ficar como num terraço branco debaixo de um alpendre florido sobre o mar.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Há um amigo meu que não gosta de poesia. Diz que ouvir poemas, para ele, é como ouvir números. “ Eu vi a luz em um pais perdido”: 33, 22, 7, 423. “E busque amor novas artes, novo engenho”: 93, 44, 2, 113.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Imagino-o, um dia, a ler, por acaso, um poema “É ferida que dói e não se sente”: 24, 13, 5, 1001, desinteressado e distraído, um texto que nem seja um poema, um texto donde lhe venha, inesperado e fulgurante, um verso que ele ganhe como quem ganha a lotaria, como o número de uma lotaria íntima, o segredo do cofre onde ele guarda a sua secreta poesia privada.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Dos poemas parte-se para a infância. Ao passar pela minha adolescência lembro-me dos verões à beira mar, acampado na praia com os amigos, trocando leituras e projectos. Nunca a inspiração dos livros foi tão vibrante e partilhada como nesse tempo em que tudo parecia estar por acontecer. Do Portinho da Arrábida à costa vicentina ou ao Algarve menos betonado ficou um rasto de criação de memorias comuns de pequenas aventuras de férias e de grandes aventuras sonhadas a partir dos livros que nos seduziam como as namoradas que sonhávamos ter.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;“É triste no Outono concluir/ que era o verão a única estação” diz Ruy Belo num dos mais tristes versos da literatura portuguesa, um verso onde me poderia ver mas não vejo, nem me revejo, apesar de belo e Belo, duplamente belo, estando agora no verão estou no verso do verso a concluir que o verão volta sempre. Nem que seja para nos assombrar.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;À sombra dos verões passados escrevo e regresso à Lisboa hoje quase deserta do feriado.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Uma vez sonhei que estava em Lisboa e toda a gente tinha desaparecido sem deixar rasto, mas tudo estava na mesma para alem da ausência das pessoas. Percorria as ruas e não se via vivalma. Do sonho não me lembro mais, mas se o traduzisse num filme começaria a encontrar aqui e ali as pessoas que eu não vi nunca mais, como o senhor Antunes da papelaria a dizer que já tinha chegado o Tintim, o homem da carrinha dos gelados a chegar à esquina e a tocar a campainha ou o pai a dizer para nos despacharmos para apanhar o 2 para a matiné do Tivoli.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;A praceta em frente à casa está agora coberta por um tapete roxo monet de folhas de jacarandá.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Termino como um pássaro que volta a pousar no fio do telefone. Like a bird on a wire/ like a drunk in a midnight choir/ I have tried in my way to be free ( Leonard Cohen).&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Depois, pegarei no telemóvel e ligarei a um amigo para lhe perguntar o que é que ele tem andado a ler.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico no dia 5 de Junho de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-06-01T10:00:53</issued>
    <title>"Um marciano nunca diria isso"</title>
    <published>2010-05-28T07:40:06Z</published>
    <updated>2010-05-28T07:40:06Z</updated>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;A minha história favorita sobre as relações entre produtores e autores é a do argumentista de um filme de ficção científica que viu um argumento seu recusado pelo produtor com a justificação que dá título a esta crónica: “Um marciano nunca diria isso”. Este episódio e a sua punch line sintetizam de forma exemplar o choque de civilizações que é sempre a relação entre o criador e o produtor. Trabalhar em cinema, como em televisão, é trabalhar em equipa. E é sobretudo trabalhar numa cadeia de acontecimentos, desde a ideia inicial até à forma final, em que, muitas vezes, qualquer semelhança entre a ideia original e o resultado final é pura coincidência. Em Portugal isso tem sido por demais evidente, quer no cinema quer na televisão, pela simples razão que em ambos o autor inicial, isto é, o argumentista, não tem normalmente qualquer poder para fazer vingar as suas ideias. No caso do cinema esse poder em Portugal tem estado excessivamente concentrado no realizador, no caso da televisão esse poder tem estado concentrado no produtor e, ultimamente, no director da estação televisiva. Esta fragilidade dos argumentistas portugueses explica muito do insucesso da produção de filmes e séries em Portugal. Costuma dizer-se que o problema é não termos argumentistas. A verdadeira razão é não termos produtores. E por trás desta razão há outra que é a estagnação estrutural do audiovisual em Portugal. É sempre uma questão de poder, aquilo que se joga no processo de produção de um filme ou de uma série. Quem toma as decisões artísticas, quem decide se fica desta ou daquela maneira, quem tem o final cut. Em Portugal é muito normal não haver sequer direcção artística e o processo ficar numa deriva que deve mais à arbitrariedade, ao desleixo e à desresponsabilização do que a qualquer escolha fundamentada. Quando não é assim, normalmente é tudo afunilado numa única pessoa. Tradicionalmente o actor comediante nas séries de humor, o realizador autor nos filmes, a direcção de programas na televisão em geral. Nunca, praticamente nunca, no primeiro autor que é o argumentista, que em Portugal ainda hoje é considerado um tarefeiro, quase ao nível de um fornecedor de catering. Nos países onde há vitalidade e diversidade criativa na indústria audiovisual, o autor é não só poderoso como, em muitos casos, o elemento mais poderoso do projecto. Veja-se o período de ouro da televisão americana, que agora simbolicamente se encerra com o fim da série Lost. Um período em que os autores eram creditados como produtores da série porque eram eles quem decidia, do princípio ao fim, as grandes opções criativas da série. Da escolha de elenco ao final cut. Acima deles, só as estações produtoras, que podiam decidir cancelar ou continuar as séries, mas não interferiam de forma abusiva no conteúdo. O êxito desta fórmula pode ser comprovado se olharmos para os últimos dez anos de produção de séries americanas. A qualidade esteve sempre associada ao modelo de autor/produtor, sejam séries de humor ou séries dramáticas, mais juvenis ou mais adultas. Agora que a época de ouro parece ter terminado, por razões que têm a ver com a pulverização dos canais e a internet, e que fazem com que as grandes produtoras não arrisquem grandes produções, o papel dos autores, dos primeiros autores, dos argumentistas, deve ser mais valorizado do que nunca. Com o fim de Lost, a série mais cara de sempre, é a própria indústria que se encontra perdida, na imprevisível ilha dos media contemporâneos. Mas independentemente de toda a mutação das plataformas e dos écrãs, o essencial não mudou e não vai mudar: histórias. As pessoas vão continuar a querer seguir as boas histórias. Seja em que canal for, e seja de que maneira for, no momento em que são emitidas pela primeira vez ou quando quiserem. O que nós todos vamos continuar a querer é partilhar essas histórias com outros. E vamos continuar a querer pertencer a comunidades que vejam o mesmo que nós vemos. E vamos continuar a querer ver histórias que já conhecemos e gostamos. E vamos continuar a querer ver histórias novas. Num mundo cada vez mais invadido de conteúdos por todo o lado, há dois tipos de pessoas que vamos querer seguir: os inspirados contadores de histórias e os programadores que vão orientar-nos na forma de encontrarmos os contadores de histórias de que gostamos. Aqueles que nos contam o que os marcianos realmente dizem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico, no dia 29 de Maio de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-05-25T10:42:11</issued>
    <title>Da adaptação dos livros ao futuro</title>
    <published>2010-05-21T11:44:26Z</published>
    <updated>2010-05-21T11:44:26Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">Num dos últimos fins-de-semana passei pela Feira do Livro para uma sessão de autógrafos a dois com o António Jorge Gonçalves. Estava bom tempo e a feira estava cheia de gente, mas a sensação que ambos tivemos e comentámos foi a de que, num tempo em que se começam a comercializar os dispositivos electrónicos de leitura, este  modelo de  Feira do Livro de papel está esgotado. A feérica exibição comercial e industrial do livro enquanto objecto impresso massivamente e indiferenciadamente (seja literatura, livro técnico ou simplesmente versão livresca de qualquer sucesso televisivo)  esconde com a sua incontinência editorial o fim de uma época na história da edição.
O Jorge dizia que a multidão de pessoas com sacos cheios de livros lhe fazia lembrar o tempo em que não havia água canalizada e as pessoas iam às fontes com bilhas e garrafões.
Hoje em dia os “livros” começam a chegar-nos electrónicos e canalizados e já não falta muito para que todos nós tenhamos, para além do telemóvel e do “computador” portátil, hoje absolutamente banais e essenciais à vida urbana contemporânea, um dispositivo de leitura electrónica portátil, na linha Kindle ou iPad ou o que for. Ironicamente, esta mudança não vai ser a morte do livro em papel, mas a sua salvação. Quando pudermos ler o que quisermos e quando quisermos no nosso leitor portátil, vamos poder perceber e escolher melhor, com melhor critério, aquilo que gostaríamos de ter em edição especial. Como já acontece com os CDs ou os DVDs, aquilo que faz sentido editar são colecções especiais, objectos de design em colecções limitadas e muitas vezes personalizadas pela assinatura dos autores. Os livros que escolhemos ter nas nossas estantes vão ser, literalmente, escolhidos a dedo como objectos de colecção e, tal como hoje acontece com os livros infantis, podem ter mil e um formatos e vir em caixas de diferentes formas e feitios. 
Talvez quando isso acontecer as feiras do livro se transformem novamente em sítios onde o contacto com os autores seja também transformado em momentos mais especiais, sítios com uma arquitectura que valorize mais os lugares de encontro dos escritores com os seus autores e os separe um pouco mais dos postos de venda, ou seja, cafés literários, aquilo em que, desejo e espero, acabarão por se transformar as livrarias. 
Por outro lado, os leitores electrónicos vêm permitir um novo género de escrita e de leitura, que ainda mal começou a ser explorado. Refiro-me não só à possibilidade do hipertexto, que permitirá, a partir de uma palavra, expressão, ou de uma citação, entrar – literalmente, noutro texto, como à possibilidade de cruzar com as palavras e as imagens dos livros tradicionais, outros registos, como o som e a música ou as imagens em movimento. Imaginem as possibilidades que se abrem ao podermos “escrever” um livro que nos faça passar de uma história para outra que foi citada, que nos permita ouvir a música que a personagem trauteia, que nos faça ver a cidade que ela percorre, etc. 
É claro que a literatura continuará a ser a literatura, como o cinema continuará a ser o cinema. Haverá mistura, mas o que muda não é tanto o género em si como o suporte e a maneira como ele chega a cada um de nós. O cinema, por exemplo, na maior parte das vezes, já nos chega por múltiplos ecrãs nas nossas casas ou nos dispositivos portáteis. Numa altura em que é o cinema que vem até nós, “ir ao cinema” vai ser uma de duas coisas: ou vamos ao cinema para namorarmos ou nos divertirmos em grupo, ou para fruirmos uma experiência estética que, curiosamente, aproxima o cinema do teatro: isto é, ou vamos como adolescentes para uma grande sala de cinema divertirmo-nos, ou vamos para um cinema de culto ou uma cinemateca ver um filme clássico ou de autor em película num grande écrã como quem vai ao teatro ter uma experiência que só acontece naquela noite. ( A propósito, já era tempo de haver uma sala que só programasse grandes clássicos do cinema). 
Tudo se resume a podermos escolher, mas escolher de forma personalizada, como na anedota das duas cabras que estão numa lixeira a comer os restos de uma película de cinema e uma comenta para a outra: “que tal, gostas?”, e a outra responde “gosto mas prefiro o livro”. 

Crónica publicada no Económico no dia 22 de Maio de 2010.</content>
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    <issued>2010-05-18T12:15:21</issued>
    <title>Club Alice </title>
    <published>2010-05-18T11:18:38Z</published>
    <updated>2010-05-18T11:18:38Z</updated>
    <category term="média"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;Para ler uma entrevista feita por Maria João Freitas, com fotografia de David Cardeira Alves, clique &lt;a href="http://clubalice.com/index.php?file=1&amp;amp;id=707"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-05-18T10:16:38</issued>
    <title>"Os deuses são da poesia"</title>
    <published>2010-05-16T10:18:24Z</published>
    <updated>2010-05-16T10:18:24Z</updated>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Sempre me pareceu que Deus está mais na palavra “acredito” do que na palavra “ Deus”, quando se diz “acredito em Deus”. Natália Correia deixou-nos um belíssimo pequeno texto “Exórdio”, incluído no livro “O Armistício”, onde diz: “Não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses. Porque mais importante que os deuses existirem é acreditarmos neles”. Fui educado no catolicismo mas depressa o abandonei. Imediatamente depois de ter feito a primeira comunhão, desliguei-me. A variante católica do cristianismo não só nunca me sensibilizou como, em muitos aspectos me ofendeu e ofende. Desde logo pela chocante contradição entre a pompa e ostentação do poder do Vaticano e o despojamento da mensagem cristã, mas sobretudo pela imposição do conceito de pecado e pela continuada repressão do corpo e das ideias - da liberdade, e em suma, pela sua primária e bafienta mitologia. Mas fico sempre fascinado pela necessidade que as pessoas têm de acreditar em qualquer coisa e pela forma como satisfazem essa necessidade celebrando essa fé em público e em colectivo. Aconteceu agora de novo em Portugal com a vinda do Papa, como acontece sempre com o fenómeno de Fátima ( Ou, de outra maneira não tão diferente quanto possa pensar-se, aconteceu no domingo passado, com a vitória do Benfica numa outra forma de celebração colectiva de uma fé, neste caso muito terrena, profana e prosaica, mas que suscita, como a outra, paixão libertação e alegria, e igualmente promove rituais de celebração colectiva). Não me identifico com nenhuma das grandes religiões, todas me parecem muito mais formas políticas de poder sobre os pessoas e os povos do que sistemas de relação com a transcendência, o divino ou a espiritualidade. O sentido etimológico da palavra religião, religare, é voltar a ligar, reencontrar a ligação com aquilo de que estamos separados, afinal um sentido comum com o da mitologia universal do amor. E, tal como o amor, o sentimento religioso é uma questão íntima e privada, uma relação individual com uma transcendência que, no essencial, faz da epifania uma experiência estética. Há um verso luminoso na obscura poesia de Herberto Hélder que, para mim, exprime, cintilante, esta ideia: “Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza”. Uma das mais gritantes evidências das grandes religiões é, precisamente, a péssima relação delas com as artes contemporâneas, por mais que, por exemplo, o próprio Papa invoque a Beleza. António Marujo escrevia no Público desta semana que “há uma estética na Igreja Católica feia e ridícula, presa que está a expressões de um passado recente – século XIX e XX, em que o catolicismo se zangou com a arte e vice-versa – ou à reprodução deslocada de ícones de séculos”. Mas a inadequação das grandes religiões à época contemporânea não é unicamente uma questão estética, ou sequer ética. A verdade é que não sinto necessidade, como a personagem do Woody Allen num dos seus filmes, de bater à porta de todas as congregações – judaicas, cristãs, muçulmanas, budistas – para perceber qual é a religião ideal para mim. Aliás, num mundo dominado pelas leis do mercado e pela obsessão do consumo, as religiões hoje chegam-nos por catálogo multimédia, muito mais do que por via familiar, escolar ou estatal. Lembro-me de ter escrito um sketch sob a forma de uma rubrica de defesa do consumidor, em que se comparavam diferentes religiões, como quem compara electrodomésticos, usando tabelas onde se comparam a qualidade das igrejas, o interesse dos discursos, a relação entre tempo investido e alívio das consciências, etc. Para lá da anedota, é isto que hoje se passa, quando por exemplo entre nós temos católicos não praticantes, ou seja, católicos que acabam por não praticar ou concordar com muitas coisas que estruturam a sua própria religião. A questão é que não precisamos das grandes religiões tradicionais e do seu totalitarismo politico. Acreditar e ter fé faz parte da natureza e da cultura humanas, a espiritualidade é um caminho para a nossa alegria e elevação. Mas é tempo de inscrever esse caminho no território do livre arbítrio e da liberdade. Acabo como comecei, citando Natália Correia: “Verdade de todos os deuses serem verdadeiros; e não o deus totalitário da verdade única tenazmente administrada pelo fantatismo dos monoteístas (...) Já que só se defende fanaticamente aquilo de que se duvida (...) Os deuses são da poesia.”&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico no dia 15 de Maio de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-05-10T15:25:24</issued>
    <title>A RTP é mais importante que o TGV</title>
    <published>2010-05-07T16:30:49Z</published>
    <updated>2010-05-10T14:30:00Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Num tempo político em que os investimentos públicos estão na linha da frente da discussão, era inevitável que a RTP voltasse à baila. Já se começam a ouvir os políticos a debitarem banalidades de base, cheios de certezas sobre o que fazer. Desde logo, vozes pseudoliberais do partido que cometeu o maior erro que se fez com a RTP – a abolição da taxa, uma decisão de Cavaco Silva. O que é lamentável é que nenhum dos partidos, nem dos grandes nem dos pequenos, tenha uma posição reflectida e articulada sobre o tema e não se vislumbre neles sequer quem a possa ou queira ter (as únicas excepções são Arons de Carvalho do Partido Socialista, que já há muito tempo desempenha o mesmo papel, e Pacheco Pereira que, como é seu hábito, usa o tema não para o discutir em si mas como um pretexto para defender a sua agenda politica ). Duplamente lamentável é que a abordagem ao tema seja exclusivamente economicista e não se inscreva no quadro onde realmente se deve inscrever - no contexto cultural. A manutenção do serviço público de televisão e de rádio - do serviço público multimédia é um pilar fundamental de uma política para o audiovisual em Portugal. Num futuro governo a tutela deste serviço público devia ser inequivocamente do Ministério da Cultura. Mas para além disso, deveria ser o próprio Primeiro Ministro, neste caso, como noutros de política cultural (a política da Língua, por exemplo), a chamar a si a primeira responsabilidade desta causa e a garantir a articulação do Ministério da Cultura com outros, como o da Economia, o dos Negócios Estrangeiros, o da Educação e o da Ciência. Tal como noutras áreas culturais (e sobretudo não culturais), a pequena dimensão do país faz com que tenha que ser o Estado a criar condições para a existência de uma indústria audiovisual que possa ser diversa e acessível a todos. Mais: o próprio jornalismo de qualidade pode ter que vir a necessitar de apoios do Estado. Parece paradoxal num tempo em que se clama pela não interferência do Estado na actividade dos jornalistas mas, quando nos grupos privados escasseiam as condições para um trabalho jornalístico mais aprofundado, a ironia dos tempos é que pode vir a ser o Estado quem tem que ser chamado a apoiar projectos que mantenham vivo o pulmão da democracia: o jornalismo livre. Não podemos ser simplistas nem ingénuos nesta discussão. Quando se diz que se quer privatizar a RTP, isso quer dizer o quê? Quem é que quer comprar a RTP? E, já agora, que parte da RTP? E a dívida? E os trabalhadores? Só a RTP 1? E o resto? E ao privatizar a RTP 1 ficariam três canais generalistas a competir? Então não se aprova um quinto canal e privatiza-se o canal público? Julgo que seria aconselhável uma discussão aprofundada sobre o assunto. O que me parece é que a médio prazo faria sentido renegociar a dívida da RTP e, logo que possível, tirar os intervalos publicitários à estação pública, mas não tirar completamente a publicidade, isto é, manter a possibilidade de haver programas e iniciativas patrocinadas e product placement nas séries de ficção. Parece-me que seria desejável que a RTP fosse o centro de uma nova estratégia de financiamento para a produção, promoção e divulgação de filmes, séries e documentários. É fundamental que, ao fazer esta mudança radical, a RTP não se transforme num serviço público residual, como existe na América, com a PBS, ou no Brasil, não somos um país com aquela escala que permite ter grandes estações privadas, que façam grandes produções, precisamos de manter uma grande estação pública, que faça investimentos na ficção e no documentário e que articule co-produções de maior dimensão ( A ideia de uma televisão da Sociedade Civil tal como foi ensaiada pela RTP2 é um absurdo que ninguém vê). Tudo está a mudar no mundo das televisões - E aproveito aqui para saudar o novo canal Etv do grupo Económico - por mais que os canais generalistas façam esquemas com as agências de meios para atrasar o inevitável: o futuro está numa estratégia de rede de canais integrados em grupos de comunicação (Por isso é que é a TVI - e não a SIC, que tem um problema para resolver a curto prazo, se não quer ficar reduzida a um canal de Cs e Ds) Neste contexto de mudança é preciso mudar a RTP para que ela tenha um desígnio maior, para que, com a sua rede de canais multimédia, ela seja o motor de uma nova vitalidade audiovisual da cultura portuguesa. E sim, isto é mais importante do que o aeroporto, a terceira ponte e o TGV. &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Crónica publicada no dia 8 de Maio de 2010 no Económico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Times New Roman;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-05-04T10:04:28</issued>
    <title>Dizer, fazer</title>
    <published>2010-04-30T08:06:15Z</published>
    <updated>2010-04-30T08:06:31Z</updated>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span id="mce_marker"&gt;Dizia o Almada Negreiros: "Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade."&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Relembro esta frase num tempo em que, mais que nunca, a política e a discussão pública, no essencial, se jogam e se decidem muito mais em função do que é dito do que a partir do que é feito.  Fazer politica foi sempre, antes de mais, fazer discurso politico, narrativa, oratória, mas agora essa separação entre o dito e o feito é radicalizada na medida que o dito acontece nos palcos mediáticos de uma forma mais dramática, espectacular, hiperbolizada,  que ilude, confunde e obscurece o feito ao ponto de prescindir dele.  &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;A formação da opinião pública, que pode determinar as escolhas e as tendências da sociedade, é feita mais em função do que é tido como verdadeiro ou mentiroso do que  daquilo que é realmente verdadeiro ou mentiroso, mais em função do que se disse ou não se disse  do que daquilo  que se fez ou não se fez.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Penso nisso a propósito do discurso do Presidente da República no 25 de Abril. Cavaco Silva criticou os prémios milionários atribuídos a gestores de empresas, denunciou as desigualdades e disse que se devia apostar no mar e num pólo criativo no Porto. É claro que não se pode deixar de contextualizar o discurso num contexto de pré-candidatura presidencial (a especificidade do pólo criativo no Porto é claramente um apelo ao eleitorado tradicionalmente cavaquista do Norte). Mas, independentemente do contexto, foi um excelente discurso, que sinalizou problemas e possíveis alternativas de futuro.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;É verdade que não foi um discurso original, outros antes do Presidente já tinham dito o mesmo. Mas é importante que seja o Presidente a dizê-lo. Contudo, o que me parece tristemente relevante e exemplar da vida política portuguesa é que este discurso tenha sido proferido pelo mesmo Cavaco Silva que cada vez mais estamos a concluir ter sido o principal responsável pela situação em que nos encontramos. Foi nos dois governos de Cavaco Silva, com a abundância de dinheiros europeus a entrar em Portugal pela primeira vez, que cresceu e se estabeleceu o modelo de desenvolvimento de que hoje estamos reféns. Cavaco fala no mar, mas foi no seu tempo que se desmantelou a nossa frota pesqueira, fala nas remunerações, mas foi no seu tempo que se iniciou o fosso desproporcional entre administradores e trabalhadores das empresas (no caso concreto da EDP, a comissão de remunerações tem como um dos seus administradores um fiel cavaquista, Eduardo Catroga), etc, etc, etc, ... sem querer deixar de referir como político exemplar do que foi o cavaquismo o inefável Dias Loureiro, nomeado, por Cavaco Silva, Conselheiro de Estado.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;O que torna este discurso e a sua situação tão exemplares do que é Portugal tem como cereja nesse bolo simbólico o facto de, com grande probabilidade, Cavaco vir a ser reeleito Presidente da República.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span&gt;E este discurso surge a fechar a semana em que uma das situações mais aberrantes da história da justiça em Portugal se declara. Falo, claro, do caso Domingos Névoa/Sá Fernandes, em que, depois de ter sido provado o acto de corrupção do primeiro, se acaba por condenar o segundo, o que denunciou a corrupção. Não quero deixar de exprimir a minha perplexidade e a minha revolta pela decisão do Tribunal da Relação. Numa altura em que toda a gente fala da corrupção e da incapacidade da justiça para a combater como o principal problema da sociedade portuguesa, esta decisão que premeia um acto de corrupção e condena a denúncia desse acto é, na sua chocante realidade, de um simbolismo absoluto  daquilo em que se tornou a sociedade portuguesa. Uma sociedade onde  falta quem honre a causa pública, onde falta quem cumpra, quem faça. Uma sociedade de homens palavrosos onde faltam homens de palavra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico no dia 1 de Maio de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-04-27T10:40:30</issued>
    <title>E no entanto movem-se</title>
    <published>2010-04-22T17:43:33Z</published>
    <updated>2010-04-22T17:43:33Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;No meio da crise e do impasse geral, no país e em particular no mundo dos media, escolho dois temas que merecem ser destacados: os nove anos da SIC Radical e o sétimo ano do Festival Indie Lisboa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca a produção audiovisual em Portugal teve um horizonte tão indefinido como o actual. O fracasso do modelo do FICA gerou uma situação pantanosa que ainda não foi clarificada. Este retrocesso, aliado à quebra de receitas do ICA, fez de 2009 um dos anos mais negros e menos produtivos do cinema português.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Do lado das televisões o panorama também é desolador. A única produção regular de ficção é a de telenovelas. A pouca diversidade ficcional e os poucos documentários praticamente se reduzem a uma RTP que cumpre os mínimos a que é obrigada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Perante este cenário insiste-se em fazer manifestos como o Manifesto pelo Cinema Português, assinado pelos realizadores do costume, isto é, o status quo que tem dominado a política de cinema em Portugal, onde se defende a continuidade de um modelo que conduziu à situação actual de o cinema português ser aquele que detém a mais baixa quota de mercado de exibição de cinema nacional em sala da Europa, com uma quota inferior a 3%, contra números de pelo menos dois dígitos em todos os restantes países. Um manifesto que confunde o inegável prestígio internacional de Manoel de Oliveira e Pedro Costa (nos festivais de cinema, que não nas salas) com qualquer reconhecimento do cinema português para além destes autores, que não existe de todo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como muito bem assinalaram António Ferreira e Miguel Rosa numa excelente "Carta aberta à Ministra da Cultura a propósito do cinema" publicada esta semana no Público, "uma quota de mercado assim baixa só pode ser explicada por uma desadequação entre a oferta cultural e os gostos do público". E noutra passagem: "o Estado tem vindo a apoiar o cinema (...) resguardado na estéril (e falsa) divisão entre cinema comercial e cinema de autor, atribuindo subsídios a filmes sem qualquer tipo de viabilidade económica e cultural, cobrindo praticamente 100% dos custos destes, quando o papel do Estado devia ser o de cobrir apenas a falha de mercado, ou seja, aquela fatia de receita que a nossa dimensão não consegue gerar (...) Esta política de privilégio de um suposto cinema de autor, hermético e de baixo retorno, penaliza os verdadeiros autores que procuram uma política de aproximação ao público..." ( Aqui só contesto a utilização do adjectivo "verdadeiros") . Como tem sido habitual, este artigo não teve o eco que o outro manifesto teve, cujos promotores há anos têm tido o benefício de uma imprensa que também não tem dado espaço para o contraditório dessa corrente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas, fazendo jus à etimologia da causa, as novas gerações de cineastas movem-se e procuram novas formas de filmar e de produzir. É ver a vitalidade da produção de curtas metragens e das suas mostras e festivais, que se multiplicam. E falando de festivais, nunca é demais saudar a maturidade e o profissionalismo do Indie na sua sétima edição, cuja programação e organização exemplares falam por si.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enquanto isso, do lado da televisão, é de saudar igualmente a SIC Radical, no seu nono aniversário. O primeiro canal de cabo português que, para lá da informação e do desporto, abriu espaço à produção nacional realmente alternativa na área do humor e, ainda que mais timidamente, na ficção.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há pouco tempo num artigo publicado na Meios e Publicidade, o director da SIC Radical, Pedro Boucherie Mendes, assinalava o facto de canais estrangeiros a operar em Portugal, como por exemplo a Fox Life, não terem qualquer obrigação de uma percentagem de programação de obras de origem europeia, muito menos portuguesa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Seria o mínimo exigível e um pequeno contributo para a produção independente portuguesa. Contributo que a SIC Radical tem de facto dado. Apesar do baixo orçamento tem sido possível neste canal, ainda que de forma rarefeita e irregular, dar a ver novos humoristas (o caso mais emblemático é, claro, os Gato Fedorento), ou mesmo novos formatos. Isto para além de programação estrangeira que não estariamos a ver se não fosse aqui. Era preciso que houvesse mais investimento neste canal ou noutros que possam surgir (e aqui agora falo com conhecimento de causa). Por muito que não pareça agora, o futuro passa mais por esses canais do que pelos grandes generalistas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-04-24T11:27:31</issued>
    <title>...</title>
    <published>2010-04-24T10:31:29Z</published>
    <updated>2010-04-24T10:31:29Z</updated>
    <category term="fotos"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;&lt;a class="saportelink" href="http://fotos.sapo.pt/Ro2nvzbZLyhOkJ9aQEtW"&gt;&lt;img style="border: 0 none;" src="http://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/bba02ce11/6248655_wzv6d.jpeg" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foto de Carlos Ramos.&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-04-20T10:37:26</issued>
    <title>Privatizar a RTP é um erro</title>
    <published>2010-04-16T10:39:07Z</published>
    <updated>2010-04-19T15:49:17Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;Privatizar a RTP é um erro quase tão grande como não mudar radicalmente a RTP.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O tema, cíclico, regressou à praça pública. E, como é habitual, a discussão raramente é aprofundada, acabando por limitar-se aos clichés prós e contra cristalizados há anos e que se resumem, no essencial, à questão do controlo do Estado ou dos governos vigentes na informação dos canais da RTP, e à questão dos custos brutos de manutenção desses canais e da estrutura que os sustenta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A falta de uma discussão pública aprofundada sobre o serviço público de televisão e, num quadro mais geral, mas indissociável do primeiro, sobre o investimento público na área das redes de comunicação e dos seus conteúdos, tem originado um rol de decisões erradas ou, no mínimo, muito discutíveis, no território audiovisual português.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É ver a forma como foram atribuidos os canais privados em Portugal, como foi desenvolvida a televisão por cabo ou, mais recentemente, o processo de (não) atribuição da licença para o quinto canal ou o processo da televisão digital terrestre.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A verdade é que, independentemente da posição dos sucessivos governos e do atraso da legislação, o mundo não pára e a inovação tecnológica tem permitido o surgimento de novas realidades para além de todos os obstáculos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda que nem sempre da melhor forma, ainda que desregulados, desregrados ou sem obrigações, hoje a oferta de conteúdos multiplicou-se e a diversidade instalou-se. Simultaneamente com esta diversidade de oferta, e de forma aparentemente paradoxal, nunca a produção independente de conteúdos audiovisuais e de cinema, em Portugal, esteve numa situação tão frágil e indefinida como a actual.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É neste quadro que se deve pensar numa reformulação da RTP. E sobretudo no quadro mais vasto de uma política para a defesa, valorização e promoção do nosso maior património: a Língua Portuguesa. Não pode haver política da Língua sem uma política para o audiovisual. E não pode haver uma política para o audiovisual sem que a RTP faça parte dessa estratégia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que tem que acontecer é deixar de se pensar na RTP como a pensámos até aqui: um grande canal nacional, agregador de toda a população, uma variante “cultural” na RTP2, uma RTP Internacional praticamente sem programação própria e uns canais regionais (e, mais recentemente, um canal informativo do Porto e uma residual RTP Memória).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A rede de canais é muito importante mas mais importante é a estratégia de produção, co-produção ou promoção de conteúdos. Ou seja, o fundamental no futuro não é tanto o canal em que vamos ver determinado conteúdo, mas o conteúdo em si. E programar no futuro próximo não será tanto alinhar uma sequência de programas em fluxo num horário e num canal, mas muito mais pensar na sua articulação mais aberta, na sua relação múltipla com outros conteúdos não só desse canal mas da rede de que ele faça parte e doutras redes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Neste sentido, como já escrevi antes, e partilhando a opinião de Miguel Gaspar num texto recente no Público, deve-se pensar a RTP mais numa lógica net do que numa lógica de televisão tradicional. Cito Miguel Gaspar: “... aquela que devia ser neste momento a principal preocupaçao do Estado em matéria de comunicação social permanece no maior dos esquecimentos. Essa prioridade deveria ser a criação de conteúdos para a internet e ainda o equivalente a uma rede social para os espaços das comunidades portuguesas e da lusofonia, que poderia desempenhar um papel muito mais interessante do que a anacrónica RTP Internacional. Em matéria de serviço público, entrámos na era digital a pensar em termos analógicos”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É por aqui que devíamos iniciar este debate que, apesar de urgente, deve ser feito com tempo e sem decisões precipitadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no dia 17 de Abril de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-04-13T10:00:03</issued>
    <title>O Destino Português ou O Dia da Marmota</title>
    <published>2010-04-08T19:57:14Z</published>
    <updated>2010-04-08T19:57:14Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;Segundo o Financial Times que é, para a economia mundial, o que o Weather Channel é para o estado do tempo, a Grécia não tem hipóteses. É bancarrota pela certa. E depois será Espanha. E depois Portugal. A Europa, isto é, a França, e sobretudo a Alemanha, não nos salvarão, somos PIGS, ficaremos PIGS, provavelmente PGS porque a Irlanda será salva pela vizinhança inglesa. Uma tragédia, grega, traduzida para espanhol e para a região autónoma de Portugal. Ver-nos-emos todos gregos. Tal como antes o sonho do império se esfumou na realidade do pequeno país à beira-mar, agora o sonho europeu desvanece-se e deixa ver a pequena região subdesenvolvida da periferia. O país mudou muito desde o 25 de Abril, como comprovam as auto-estradas, a alfabetização e os hipermercados. As estatísticas do Prodata e do Portugal, Um Retrato Social, do António Barreto, falam por si. Mas, no essencial, nos centros de poder e de decisão, as mentalidades não mudaram. Tudo está como estava no século XIX. E por isso é que o Eça de Queirós é tão actual e as crónicas dos pessimistas como o Vasco Pulido Valente, ou os relatórios catastrofistas como os do Medina Carreira, se adequam à interpretação da realidade que, como eles, teima em não mudar. O problema é sempre o mesmo: a corrupção. A promiscuidade entre o Estado e os privados, a cupidez dos empresários que dizem mal do Estado mas não podem viver sem os seus favores, o tráfico de influências e, por fim, ou mais exactamente antes de tudo, a completa ineficácia e corrupção do sistema de justiça que permite que tudo isto se perpetue impunemente. Num dos inumeráveis estudos comparativos publicados nos últimos tempos dizia-se que se não houvesse corrupção em Portugal poderíamos estar como a Finlândia. Com a vantagem do clima. Ou seja, se cá nevasse fazia-se cá ski. Mas neste caso perdíamos a vantagem do clima. É o inevitável destino português? Estamos de novo na cauda da Europa, prontos a carregar a pedra de novo para o cimo da montanha. No filme “Groundhog Day”, de Harold Ramis, Bill Murray interpreta um egocêntrico apresentador do programa de meteorologia que é enviado à localidade de Punxsutawney para fazer a cobertura do Dia da Marmota. Ele não vê a hora de terminar o trabalho e voltar para casa, mas o inesperado acontece: ao acordar, no dia seguinte, percebe que está de novo no início do dia anterior e que tudo vai recomeçar exactamente igual e ele vai ter que fazer a reportagem do Dia da Marmota outra vez. Portugal está outra vez no Dia da Marmota, de onde afinal parece que nunca saímos. No filme a personagem de Bill Murray apaixona-se por Rita, a personagem de Andy MacDowell. Os primeiros encontros são desastrosos e ele não tem nenhuma hipótese com ela. Mas já que o dia se vai repetindo infindavelmente, e ele parece ser o único a ter consciência disso, começa a fazer com que isso jogue a seu favor. Sabendo já o que vai acontecer, ele altera o seu comportamento de modo a obter um resultado diferente. Será que Portugal pode fazer o mesmo? Ou não há volta a dar porque os portugueses serão sempre portugueses? É inescapável? Há uns anos fui convidado para uma conferência na Universidade de Rutgers, em Newark, para falar a um grupo de alunos de Estudos Portugueses. Foi um convite muito simpático e correu tudo lindamente. Já não ia a Nova Iorque há uns anos e estava desejoso de voltar a Manhattan e de visitar a cidade. O grupo de professores convidou-me para jantar e prometeu levar-me a um restaurante muito especial. Animado pela perspectiva de uma noite nova iorquina acabámos num restaurante típico português, em Newark, cheio de portugueses, com a televisão ligada na SIC Internacional, na telenovela. O bacalhau era excelente e foi uma bela noite. No dia seguinte juntei-me a outro grupo de amigos, que não via há muito tempo, e que me desafiaram para ir até Washington. Pensando que não ia estar muito tempo em Nova Iorque, e que a viagem de carro ainda era longa, troquei o programa por um bom jantar, num restaurante muito especial, que eles sugeriram. Acabámos num restaurante típico português do outro lado da rua do restaurante do dia anterior e absolutamente igual ao primeiro. Rodeado de portugueses, com a televisão na RTP Internacional, no futebol. O cozido estava óptimo e foi uma bela noite. Na terceira noite jantei sozinho. Em Manhattan. Não foi tão divertido. Três dias em Nova Iorque e dois a jantar em Carnide. É o destino português.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;Crónica publicada no Económico, no dia 10 de Abril de 2010.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-04-06T10:15:40</issued>
    <title>E você faz o quê, Ivete?</title>
    <published>2010-04-01T10:53:32Z</published>
    <updated>2010-04-01T10:53:32Z</updated>
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    <content type="html">Há uma cena no Annie Hall em que a personagem do Woody Allen, Alvy Singer, um comediante, está à porta de um cinema e um transeunte começa a andar à volta dele, a perguntar se ele é da televisão. Singer acaba por confirmar vagamente, o transeunte pergunta-lhe o nome e acaba a cena a gritar a todos os que passam “ Está aqui o Alvy Singer !”. 
Sempre me divertiu muito a relação com os famosos, sejam os famosos realmente famosos, sejam só “famosos por ser famosos”. É uma evolução da relação com os  heróis e deuses antigos, no contexto da sociedade contemporânea do espectáculo. 
A relação de um adulto com um famoso acaba por ser sempre a relação que uma criança tem com um boneco que faz parte do seu imaginário, das suas histórias de faz de conta. O encontro com esse famoso é como o momento em que a criança cumprimenta o Pato Donald na Disneylândia. Não importa para o caso que não seja realmente o Pato Donald que ela está a cumprimentar mas eventualmente um pobre de um actor desempregado com uma vida miserável, ou simplesmente o Chico da Farmácia num biscate. Tal como o grande cantor ou o grande escritor que cumprimentamos com admiração nunca é a figura mítica criada pela distância e veneração, mas simplesmente uma outra pessoa que desconhecemos.
O cumprimento ou o autógrafo são sempre uma forma fetichista de relação com o nosso herói, um fake de uma intimidade que não aconteceu. 
Mas os momentos da fotografia com o Pato Donald são sempre emocionantes ou anedóticos, ou seja, transformam-se sempre numa história para contar.  
Eu tenho vários, anedóticos, porque apesar de não ser jornalista a minha actividade já fez com que me cruzasse com inúmeras celebridades. É batota, claro. Não tem o impacto de encontrar a celebridade por acaso ou por destino. Os jornalistas, como os que trabalham nos bastidores dos espectáculos, vivem do brilho alheio e por vezes confundem situações profissionais com cumplicidade com os artistas. Mas a verdade é que estiveram próximos deles. 
Eu, por exemplo, lembro-me de ter sentido que estava a cumprimentar o Pato Donald quando conheci o Herman, que eu admirava profundamente da televisão. Depois comecei a trabalhar com ele e o efeito desvaneceu-se (embora não completamente). O próprio Herman conta, a rir, a história do encontro com o seu Pato Donald, Frank Sinatra, quando ele veio a Portugal. O Herman, que fez a primeira parte do show do Sinatra, dirigiu-se-lhe dizendo “Mr. Sinatra, I’m Herman José, a very popular comediant in Portugal”, ao que Sinatra respondeu, sem o cumprimentar e não parando: “I bet you are”. É claro que isto já foi na fase em que Sinatra saía de uma limousine e entrava na sala de concertos e dizia, como disse cá, “I’m very happy to be in... this part of the world”. 
Nos bastidores do programa do Herman cruzei-me e conversei com grandes celebridades mundiais (a sério!). Mas a história mais extraordinária de todas é capaz de ter sido quando, na época do primeiro Big Brother, o convidado do Herman Sic foi o irmão gémeo do Marco, um dos concorrentes. E nos bastidores, na sala do Herman, a dada altura, estava a equipa toda, Herman incluído, reunida à volta do sofá, onde estava sentado esse irmão do Marco, que falava como se fosse o Marlon Brando perante uma multidão ávida para o ouvir. Apesar de ter sido o irmão, este momento foi um marco na definição contemporânea de famoso.
Contudo, a minha história pessoal favorita com famosos é a seguinte: como grande fã de música brasileira, fui com uns amigos aos bastidores de um concerto do Caetano Veloso, cumprimentar o Caetano, mas sobretudo reencontrar um famoso entretanto já transformado em meu conhecido, o grande músico Jacques Morelenbaum. Tínhamos combinado jantar depois do concerto e no meu carro, para além do Jacques, dei boleia ao guitarrista do Caetano e a uma sua namorada. Ao chegarmos ao restaurante começámos a falar e eu perguntei à namorada, que ficou à minha frente, “então e você faz o quê, Ivete?”. Ao que ela respondeu “eu canto, né?”. Nesse momento eu, que me considero razoável conhecedor de música brasileira, percebi que tinha feito aquela pergunta à Ivete Sangalo, provavelmente, à época, a cantora mais popular do Brasil.
Já contei tantas vezes esta história que, por causa dela, estou a ficar famoso. Qualquer dia começo a dar autógrafos.</content>
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    <issued>2010-03-30T10:27:44</issued>
    <title>O que fica do que passa</title>
    <published>2010-03-29T14:29:38Z</published>
    <updated>2010-03-29T14:29:38Z</updated>
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    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;No meio do turbilhão de trabalho e de informação e de todo o sem tempo, tiro um tempo, faço uma suspensão no tempo e, por um momento, penso e pergunto: o que fica do que passa? Vejo os jornais em cima da mesa, hesito no tema da crónica, penso em tudo o que tenho para fazer e me apetece muito fazer e apetece-me fazer o que não tenho que fazer. E penso em tudo o que tenho feito e no que não fiz para fazer o que fiz. Agora ajusto o espelho retrovisor, e começo a ver o que vou deixando para trás. O que é que vai ficar? Agora que estou outra vez na voragem de mil e um projectos, com mil e uma coisas em falta, mal dormido e sem tempo para os amigos e para os prazeres, páro e pergunto o que fica do que passa? Lembro-me do poema do O’Neill: “E o destino passa por mim como uma pluma caprichosa / Passa pelos olhos de um gato (...) O destino passa (...) o destino demora-se e passa...” E o que vai ficar? Dos recortes do jornal que é a nossa memória dos dias quais é que vamos guardar, quais vão sobreviver ao pó e à humidade e às mudanças da casa que é a nossa memória? Quais é que vão acontecer pela segunda vez? (“A memória é o sítio onde as coisas acontecem pela segunda vez” – Paul Auster). No Blade Runner, filme meu tão favorito, na cena derradeira, quase final, o Replicant, antes de morrer, salva a vida do polícia que o queria matar e recita-lhe as suas memórias: “Vi coisas que vocês homens nem imaginam. Naves de guerra em chamas na constelação Orion. Vi raios C resplandecentes no escuro, perto do Portal de Tannhauser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer”. Lembro-me dos versos da belíssima canção de Sérgio Godinho e Ivan Lins “Que há-de ser de nós?”: “Que há-de ser do mais longo beijo / que nos fez trocar de morada / dissipar-se-á como tudo em nada? / já fizemos tanto e tão pouco / que há-de ser de nós?” Há experiências que se vivem intensamente como uma canção pop, que se repete e se canta até à exaustão, celebrando a novidade do ritmo e da melodia até se gastar como uma pastilha elástica. É a vibração pop de viver o momento intensamente, carpe diem, dizia Horácio, seize the day dizia Robin Williams no Clube dos Poetas Mortos. No meio do frenesim de tudo o que há para fazer, alguém aqui nas Produções Fictícias começou a colar pequenos poemas nas cadeiras, nas portas, nos dossiers... Como este do Jorge Sousa Braga (no espelho da casa-de-banho): “Nos semáforos da rua de Santa Catarina: ao menos os teus olhos / permanecem verdes / todo o ano”. E depois tudo se recupera pela nostalgia. Estamos a saír da nostalgia dos anos 80 e a entrar na nostalgia dos anos 90. Com a aceleração, a cultura pop vai-nos fazer celebrar o dia de hoje e iniciar a nostalgia deste dia no dia seguinte. Uma vez escrevi um sketch para o Zé Pedro Gomes e o António Feio em que eles eram dois amigos nostálgicos dos anos 60 e depois dos 70, e por aí fora, até ficarem com nostalgia do momento em que começaram a fazer o sketch e do fim do sketch, que dessa forma nunca mais acabava. Resistindo a todas as modas ficam os clássicos. Que são o que fica com o tempo. Que são o essencial. Mas o que fica com o tempo? Lembro-me que a seguir ao 25 de Abril o escritor de que se falava e que era O Escritor era o Fernando Namora. Quem lê hoje Fernando Namora? Lemos Vergílio Ferreira. Vamos continuar a ler? E Saramago, Lobo Antunes, Agustina... Aceitam-se apostas. Mas isso interessa para alguma coisa? São todos expressões do seu tempo. Se forem as vozes do seu tempo o que importa que não sejam vozes de outro tempo? Quando procuro lembrar-me da televisão que se fazia nos anos 90 em Portugal, lembro-me de uma pequena produtora de vão de escada, a Latina Europa. A Latina Europa foi fundada em 1989 pelo Paulo Miguel Fortes e pelo António Saraiva. Fez programas para a RTP 2, como Lusitânia Expresso, PopOff ou Lentes de Contacto. Por lá passaram todos os que viriam a ser os melhores realizadores de televisão da década seguinte. Era uma pequena produtora mas foi mais importante pela inovação e pelo espírito do que praticamente tudo o que se fazia na altura. Do outro lado da minha vida, fora da televisão, nesse início dos anos 90, lembro-me do Herminio Monteiro e da sua Assírio e Alvim. E de como ele juntou à sua volta poetas e artistas e editou milhares de livros de poesia. Agora que estou no meio de um lançamento de um novo projecto, no meio das tentativas e dos erros, e das dúvidas e alegrias , no meio de mil e uma ideias e pessoas , páro para pensar no que vai ficar de tudo isto. E penso que é sempre imprevisível, que nunca se pode saber. E que isso é inspirador.&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-03-23T10:00:09</issued>
    <title>A crise dos modelos dominantes de televisão</title>
    <published>2010-03-18T18:46:17Z</published>
    <updated>2010-03-18T18:47:08Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Está tudo a mudar no mundo da produção audiovisual. A própria divisão entre o que é cinema e o que é audiovisual, ou seja, televisão, está a deixar de fazer sentido no território do multimédia digital. E no que era o universo específico da televisão o território não está menos incerto. A decadência dos canais generalistas é uma evidência. O ritual de visionamento televisivo passivo, frente ao fluxo dos canais, está a ser substituído por visionamentos escolhidos, on demand, da maneira e no tempo que os espectadores querem. Isto obriga a um reposicionamento das estações de televisão, dos seus canais, das suas estratégias de produção, programação, divulgação e dos seus modelos de negócio.&lt;br /&gt;
A TVI estreou esta semana uma nova telenovela. Nada de novo. Aparentemente um êxito de share, nada de novo também. A TVI lidera de forma sólida no conjunto das três grandes estações generalistas há uma década. E, no entanto, a TVI tem um problema: o modelo está esgotado. A monocultura da telenovela gera um monopúblico. O canal está a deixar de ser generalista. E, ao perder determinados públicos, perde anunciantes. E não os recupera doutra maneira porque a estação não soube criar outros canais. A TVI 24 não tem ainda marca própria e os outros anunciados canais não aconteceram. &lt;br /&gt;
A TVI tem, pela sua estrutura accionista, condições privilegiadas para fazer pontes com Espanha e com a América Latina. A sua marca produtora, Plural, segundo foi anunciado, foi formada para concretizar esse potencial. Mas tudo parece adiado. E ainda não se começou a produzir ficção que não fosse para exibição na TVI. E praticamente tudo telenovela. O êxito telenovelesco esconde o impasse estratégico.&lt;br /&gt;
Já o êxito da SIC está na sua rede de canais. Falta criar condições para que esses canais possam crescer. A SIC Notícias é um êxito e tornou-se o canal informativo de referência. A SIC Radical, a SIC Mulher e, recentemente, a SIC K, têm grande potencial de crescimento, desde que haja investimento financeiro e criativo. Falta resolver a programação da SIC generalista. Não é fácil. Desde o início que a SIC tem uma matriz informativa muito forte. Primeiro, ela foi complementada do lado da programação com a parceria com a Globo, num tempo em que as novelas brasileiras tinham público e notoriedade. Esse tempo acabou. Depois, o modelo de programação foi genericamente o da Endemol, do grande entretenimento com uma componente de reality show. Numa terceira fase apostou-se no humor popular português. Hoje em dia, e desde há uns anos, a programação procura uma marca própria que ainda não foi encontrada. A enorme instabilidade da grelha nocturna não tem fidelizado públicos. No caso da SIC podemos dizer que o impasse da estratégia de conteúdos do canal generalista tem prejudicado o desenvolvimento do conjunto dos canais. Mas, paradoxalmente, por causa da existência desta rede de canais, a SIC está mais bem posicionada para o futuro do que a TVI.&lt;br /&gt;
A RTP mantém-se fiel ao modelo de sempre, os novos canais são pequenos satélites do grande canal que é a RTP 1. A RTP Internacional continua a não ser uma prioridade. Como lhe compete, a RTP, dentro desse modelo generalista comercial que está definido desde há décadas, tem procurado ter uma programação mais diversificada que a dos privados. &lt;br /&gt;
Fazendo uma retrospectiva muito geral da história da televisão em Portugal, é fácil constatar que os modelos dominantes (e os próprios decisores) não mudaram muito. Com a excepção da SIC inicial, de Emídio Rangel, que de facto introduziu uma mudança no audiovisual português, e da TVI pós-Big Brother, de José Eduardo Moniz, da monocultura telenovelesca e da lógica reality tablóide dos talkshows aos telejornais, nada mudou substancialmente. &lt;br /&gt;
E, no entanto, como dizia no início do texto, tudo está a mudar. Em que direcção? E de que maneira? O novo modelo dominante é não haver modelo dominante? É capaz de ser um bom princípio para o futuro.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 20 de Março de 2010.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;
 &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-03-16T10:27:14</issued>
    <title>Pequena crónica sobre o Grande Tema</title>
    <published>2010-03-12T15:34:02Z</published>
    <updated>2010-03-12T15:34:02Z</updated>
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    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;O dinheiro, numa época materialista como a nossa, é o último reduto da espiritualidade. Uma imaterialidade que origina todos os bens materiais que possamos imaginar. Que origina não, que pode originar. Porque para a maioria de nós o dinheiro nunca passa de uma imaterialidade. Aquilo que quase ninguém tem mas que toda a gente anda à procura. Um Graal contemporâneo. &lt;br /&gt;
Os grandes temas da Humanidade: o Sexo, a Morte, o Poder, a Religião, as Letras Maiúsculas não são nada comparado com a fé transformadora do Dinheiro, que é a única verdadeira religião universal. &lt;br /&gt;
Como qualquer texto religioso, este texto tem de conter uma parábola. &amp;ldquo;Pergunta o ignaro ao mestre: Porque é que o cão lambe a pila? O mestre sorri com condescendência e retorque: Porque pode.&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
E porquê esta parábola? Porque é sábia e se adapta a qualquer coisa. Por exemplo, ao dinheiro. O dinheiro permite-nos lamber a pila. Metaforicamente, claro. (E também sem ser metaforicamente, mas nesse caso, normalmente, são outras pessoas). &lt;br /&gt;
Nessa medida, podemos dizer, também metaforicamente, que a vida é um casino, uma roleta que determina quem nasce rico e quem nasce pobre. A grande divisão do mundo não é entre homens e mulheres, judeus e muçulmanos, bonitos e feios, estúpidos e inteligentes: é entre ricos e pobres.&lt;br /&gt;
Claro que o dinheiro não traz a felicidade, de maneira nenhuma. Mas permite viver a infelicidade de uma forma muito mais confortável. &lt;br /&gt;
Em certos países, os milionários doam grande parte da sua fortuna para fins de beneficência, para combater doenças, abrem alas de hospitais que ficam com o seu nome, criam Fundações&amp;hellip; Em Portugal tudo isso é considerado ostensivo e de mau-gosto. Doa a quem doer, por regra, em Portugal ninguém doa nada. O milionário português quando produz riqueza fá-lo normalmente com grande discrição e nunca permite que se esbanje um tostão que seja em acções que beneficiem pessoas que afinal nunca viram mais gordas. &lt;br /&gt;
Pode-se perguntar de que serve ser milionário e ter carros e jactos e ilhas se depois se usa calças encarnadas e se casa com uma mulher que parece saída de um casting para uma novela venezuelana. Ou de que serve ter-se dinheiro para contratar qualquer artista do mundo e depois se contrata para festas privadas a Celine Dion. Quem pergunta isso não percebe o grau de infelicidade dessa gente e a sofisticação irónica do seu sofrimento Camp.&lt;br /&gt;
Sendo o dinheiro a fonte do prazer que ilude a nossa miséria, o Banco é o Grande Colchão onde enganamos a infelicidade com as mil posições desse kama-sutra que são as operações financeiras.&lt;br /&gt;
Terminamos, como começámos, com uma parábola. E que não se pense que é sobre sexo outra vez (embora seja). É a parábola do milionário e das três mulheres. &amp;ldquo;O milionário queria deixar a sua fortuna à mulher que mais o merecesse e perguntou às três mulheres o que iriam fazer com o dinheiro quando ele desaparecesse. A primeira disse que doaria tudo para beneficência; a segunda investiria, faria negócios e multiplicaria a fortuna; finalmente a terceira, sem hipocrisias, disse que gastaria tudo e se divertiria sem culpa gastando tudo até ao último cêntimo. Pergunta: a quem deixou ele o dinheiro? Resposta: à que tinha as mamas maiores.&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
Esta parábola revela muitas coisas. Primeiro, que o dinheiro permite-nos tomar qualquer decisão de forma completamente arbitrária. Segundo, que é sempre escolhido quem tem as mamas maiores. Terceiro, que o dinheiro pode fazer as mamas maiores. E, nesse sentido, quem tem as mamas maiores pode, não só ser escolhido, como escolher. E nesse caso normalmente escolhe quem tem as mamas maiores. &lt;br /&gt;
É por isso que o dinheiro é a coisa mais espiritual do mundo.&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-03-09T10:28:51</issued>
    <title>A perder tempo para o remate</title>
    <published>2010-03-05T18:34:28Z</published>
    <updated>2010-03-05T18:34:28Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Este tem sido o Inverno do nosso descontentamento. Desde logo, meteorologicamente. Nunca como este ano tenho estado tão farto da chuva, do vento e do frio, e das previsões meteorológicas que, invariavelmente, prevêem chuva para os próximos dias. E não se enganam. &lt;br /&gt;
Mas, pior ainda que o tempo meteorológico, no país real da política não pára a chuva de casos, intrigas e revelações inundando os média e deixando tudo literalmente na lama, o país transformado num pântano e numa grande metáfora climática.&lt;br /&gt;
A verdade é que estou, estamos, fartos, de Sócrates e da sua obsessão doentia pela comunicação social. Tão fartos dele como da comunicação social e da sua obsessão doentia pela obsessão doentia de Sócrates. Isto não é saudável. &lt;br /&gt;
E o pior de tudo é a impunidade com que este sistema de justiça e, muito em particular, a magistratura judicial, do Ministério Público, não faz nada para impedir que certos elementos seus condicionem as investigações, manipulando informação, fazendo fugas de imprensa sistemáticas, corrompendo completamente todo o sistema. &lt;br /&gt;
Estamos fartos que toda a gente diga que o principal problema é a justiça e ninguém faça nada. Estamos fartos deste bloqueio político em que já não acreditamos no governo e não acreditamos na oposição e nas suas rupturas e mudanças e políticas de verdade. &lt;br /&gt;
É um território perigoso este pântano. Pode abrir caminho a demagogias e populismos que se apresentam como clarificadores e acabam em autoritarismos déspotas. Quando começamos a ver maus jornalistas a transformarem-se em mártires da luta pela liberdade de imprensa está aberto o caminho para vermos maus políticos a transformarem-se em justiceiros da insatisfação popular. &lt;br /&gt;
Os média parecem um disco riscado e o coro de comentadores, a que me junto nesta crónica, repete incessantemente os refrões da praxe: contra, a favor, os do &amp;ldquo;isto já não tem saída&amp;rdquo;, e os do &amp;ldquo;é preciso acreditar&amp;rdquo;. Já para não falar dos cómicos e dos piadistas, que pululam por todo o lado, tanto quanto as novas fadistas. E estamos todos fartos uns dos outros. Deve ser do tempo. &lt;br /&gt;
E, no entanto, mais do que nunca, é preciso saber ler os sinais, é preciso ter critério, é preciso ter lucidez, inteligência, sensibilidade, é preciso separar, escolher. Não recusar a política, mas separar os maus políticos dos bons políticos, seguir os bons jornalistas e ignorar o mau jornalismo, não perder tempo com os engraçadinhos para poder rir com os cómicos, é preciso fazer escolhas, escolher o essencial, esquecer o acessório.&lt;br /&gt;
É preciso ter um critério de exigência, procurar em todas essas áreas as boas ideias e as boas pessoas e no meio do ruído encontrar as vozes certas fazendo dissipar as nuvens que as estão a tapar. &lt;br /&gt;
Para concluir, recorro ao mais citado e singular dos comentadores portugueses. Falo, claro, de Gabriel Alves. O homem que disse frases tão inesquecíveis como &amp;ldquo;um passe para a zona de ninguém, onde realmente não estava ninguém&amp;rdquo; ou &amp;ldquo;Juskoviac, a vantagem de ter duas pernas&amp;rdquo; ou ainda, enquanto o público gritava &amp;ldquo;Ó Pinto da Costa vai para o c.....&amp;rdquo; : &amp;ldquo;o público entusiasmado apoia as duas equipas&amp;rdquo;. Verdadeiros haikus com uma amplitude de significado que não se esgota no jogo de futebol. &lt;br /&gt;
O meu haiku favorito de sempre de Gabriel Alves é, na sua contenção, um tratado definitivo sobre o falhanço. O falhanço do próprio comentador mediante a incerta realidade. Penso muito nele a propósito de Portugal: &amp;ldquo;Já perdeu tempo para o remate... Golo.&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
Portugal já perdeu tempo para o remate, falta dizer golo. &lt;br /&gt;
 &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Crónica publicada no Económico no dia 6 de Março de 2010.&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-03-02T10:20:20</issued>
    <title>Passar de muito público para muitos públicos</title>
    <published>2010-02-25T19:22:09Z</published>
    <updated>2010-02-25T19:22:09Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Há 20 anos que trabalho em televisão e ainda não me habituei ao sacrossanto culto das audiências. Eu sei que não sou exemplo para ninguém e que no &amp;ldquo;mundo da televisão&amp;rdquo; serei sempre um estrangeiro, um tipo que veio do lado da cultura, pior que tudo: um intelectual. Ou seja, um tipo que não percebe nada de televisão. (Claro que para o &amp;ldquo;mundo da cultura&amp;rdquo; eu serei sempre o tipo da televisão, um entertainer. Ou seja, um tipo que não tem nada a ver com a cultura.) Mas a questão das audiências e da obsessão de (quase) todas as pessoas que trabalham em televisão pelas audiências sempre me passou ao lado. Eu sei que os canais que vivem de publicidade dependem das audiências e que não há serviço público sem público, mas &amp;ndash; e este é um grande mas &amp;ndash; primeiro, penso sempre que a prioridade deverá ser fazer não o que nos parece que o público acha o melhor possível, mas aquilo que nós achamos que é o melhor possível; segundo, as audiências já não são o que eram, ou seja, têm cada vez mais que se lhe diga.&lt;br /&gt;
É raro encontrar um director de programas que diga que gosta ou não gosta de um programa antes de consultar as audiências. Pode parecer estranho mas o normal em televisão, quando se pergunta a um director se gostou do programa, é receber a resposta: &amp;ldquo;vamos a ver amanhã&amp;rdquo;, isto é, &amp;ldquo;vamos a ver se teve boas audiências, porque se teve é sinal de que gostei muito&amp;rdquo;. Traduzindo para a vida real, é como se a excelente noite que passámos só foi realmente excelente se o público tiver gostado, ou na versão do Woody Allen: &amp;ldquo;Finalmente tive um orgasmo mas o meu médico disse-me que era do tipo errado&amp;rdquo;.&lt;br /&gt;
Esta febre das audiências é contagiosa. A quantidade de pessoas que nas produtoras de televisão correm com ansiedade para ver &amp;ldquo;como é que foi ontem&amp;rdquo; é incomparavelmente superior ao número de pessoas que se preocupa com a qualidade do programa. E, no entanto, chamem-me idealista, mas continuo a achar que o verdadeiro barómetro deve ser a consciência que cada um tem do trabalho que está a fazer, a partir das reacções que tem. É claro que as audiências são um dado importante mas &amp;ndash; cada vez mais &amp;ndash; a análise dos públicos não se resume a um simples número. &lt;br /&gt;
Já em 1997, quando fizemos um programa chamado Herman Enciclopédia, tivemos esta percepção. O programa foi um relativo flop de audiências. Era sempre derrotado de forma clara pela programação dos outros canais. Mas começámos a reparar que &amp;ndash; nos cafés, nos locais de trabalho, e depois nos jornais &amp;ndash; foram aparecendo frases do programa: &amp;ldquo;não havia necessidade&amp;rdquo;, &amp;ldquo;este homem não é do norte&amp;rdquo;, &amp;ldquo;não te desgraces&amp;rdquo;, &amp;ldquo;fantástico Melga&amp;rdquo; ou mesmo &amp;ldquo;lets look at the traila&amp;rdquo;. O programa não tinha grandes audiências mas ganhou notoriedade e deixou marcas. Ao contrário dos programas que na altura o derrotavam no campeonato das audiências. &lt;br /&gt;
Hoje em dia há muitíssimas mais razões para pôr em causa esta ditadura das audiências. Com a multiplicação dos canais e dos hábitos de consumo, os mecanismos de medição estão manifestamente obsoletos e não acompanham minimamente o que se está a passar em termos de visionamento. As agências de meios têm interesses instalados, ou seja, modelos de negócio e de influência sobre os anunciantes que estão promiscuamente relacionados com o status quo dos canais generalistas. Por fim, hoje mais do que nunca, os públicos estão pulverizados e dizer que se teve x ou y de audiência ou de share pode não querer dizer nada, se não tivermos mais dados. Por exemplo, o perfil de quem estava a ver ou a quantidade de pessoas que não viu nessa altura mas vai ver mais tarde, em gravação, on demand, na net... &lt;br /&gt;
Dizendo de outra maneira, temos que comparar tudo porque cada vez mais as coisas não são comparáveis. Não podemos comparar o milhão de pessoas que viu a telenovela com as cem mil que viram a entrevista com o escritor. Tal como não podemos comparar a tiragem do livro de poemas do Herberto Hélder com as vendas do José Rodrigues dos Santos. &lt;br /&gt;
A decadência das televisões generalistas e a multiplicação dos canais de nicho vem trazer uma nova realidade. Agora não temos público, temos públicos. Muitos públicos. &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 27 de Fevereiro de 2010.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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