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  <title>Nuno Artur Silva</title>
  <subtitle>Nuno Artur Silva</subtitle>
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    <name>Nuno Artur Silva</name>
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  <updated>2010-03-09T10:28:51Z</updated>
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    <issued>2010-03-09T10:28:51</issued>
    <title>A perder tempo para o remate</title>
    <published>2010-03-05T18:34:28Z</published>
    <updated>2010-03-05T18:34:28Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Este tem sido o Inverno do nosso descontentamento. Desde logo, meteorologicamente. Nunca como este ano tenho estado tão farto da chuva, do vento e do frio, e das previsões meteorológicas que, invariavelmente, prevêem chuva para os próximos dias. E não se enganam. &lt;br /&gt;
Mas, pior ainda que o tempo meteorológico, no país real da política não pára a chuva de casos, intrigas e revelações inundando os média e deixando tudo literalmente na lama, o país transformado num pântano e numa grande metáfora climática.&lt;br /&gt;
A verdade é que estou, estamos, fartos, de Sócrates e da sua obsessão doentia pela comunicação social. Tão fartos dele como da comunicação social e da sua obsessão doentia pela obsessão doentia de Sócrates. Isto não é saudável. &lt;br /&gt;
E o pior de tudo é a impunidade com que este sistema de justiça e, muito em particular, a magistratura judicial, do Ministério Público, não faz nada para impedir que certos elementos seus condicionem as investigações, manipulando informação, fazendo fugas de imprensa sistemáticas, corrompendo completamente todo o sistema. &lt;br /&gt;
Estamos fartos que toda a gente diga que o principal problema é a justiça e ninguém faça nada. Estamos fartos deste bloqueio político em que já não acreditamos no governo e não acreditamos na oposição e nas suas rupturas e mudanças e políticas de verdade. &lt;br /&gt;
É um território perigoso este pântano. Pode abrir caminho a demagogias e populismos que se apresentam como clarificadores e acabam em autoritarismos déspotas. Quando começamos a ver maus jornalistas a transformarem-se em mártires da luta pela liberdade de imprensa está aberto o caminho para vermos maus políticos a transformarem-se em justiceiros da insatisfação popular. &lt;br /&gt;
Os média parecem um disco riscado e o coro de comentadores, a que me junto nesta crónica, repete incessantemente os refrões da praxe: contra, a favor, os do &amp;ldquo;isto já não tem saída&amp;rdquo;, e os do &amp;ldquo;é preciso acreditar&amp;rdquo;. Já para não falar dos cómicos e dos piadistas, que pululam por todo o lado, tanto quanto as novas fadistas. E estamos todos fartos uns dos outros. Deve ser do tempo. &lt;br /&gt;
E, no entanto, mais do que nunca, é preciso saber ler os sinais, é preciso ter critério, é preciso ter lucidez, inteligência, sensibilidade, é preciso separar, escolher. Não recusar a política, mas separar os maus políticos dos bons políticos, seguir os bons jornalistas e ignorar o mau jornalismo, não perder tempo com os engraçadinhos para poder rir com os cómicos, é preciso fazer escolhas, escolher o essencial, esquecer o acessório.&lt;br /&gt;
É preciso ter um critério de exigência, procurar em todas essas áreas as boas ideias e as boas pessoas e no meio do ruído encontrar as vozes certas fazendo dissipar as nuvens que as estão a tapar. &lt;br /&gt;
Para concluir, recorro ao mais citado e singular dos comentadores portugueses. Falo, claro, de Gabriel Alves. O homem que disse frases tão inesquecíveis como &amp;ldquo;um passe para a zona de ninguém, onde realmente não estava ninguém&amp;rdquo; ou &amp;ldquo;Juskoviac, a vantagem de ter duas pernas&amp;rdquo; ou ainda, enquanto o público gritava &amp;ldquo;Ó Pinto da Costa vai para o c.....&amp;rdquo; : &amp;ldquo;o público entusiasmado apoia as duas equipas&amp;rdquo;. Verdadeiros haikus com uma amplitude de significado que não se esgota no jogo de futebol. &lt;br /&gt;
O meu haiku favorito de sempre de Gabriel Alves é, na sua contenção, um tratado definitivo sobre o falhanço. O falhanço do próprio comentador mediante a incerta realidade. Penso muito nele a propósito de Portugal: &amp;ldquo;Já perdeu tempo para o remate... Golo.&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
Portugal já perdeu tempo para o remate, falta dizer golo. &lt;br /&gt;
 &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Crónica publicada no Económico no dia 6 de Março de 2010.&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-03-02T10:20:20</issued>
    <title>Passar de muito público para muitos públicos</title>
    <published>2010-02-25T19:22:09Z</published>
    <updated>2010-02-25T19:22:09Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Há 20 anos que trabalho em televisão e ainda não me habituei ao sacrossanto culto das audiências. Eu sei que não sou exemplo para ninguém e que no &amp;ldquo;mundo da televisão&amp;rdquo; serei sempre um estrangeiro, um tipo que veio do lado da cultura, pior que tudo: um intelectual. Ou seja, um tipo que não percebe nada de televisão. (Claro que para o &amp;ldquo;mundo da cultura&amp;rdquo; eu serei sempre o tipo da televisão, um entertainer. Ou seja, um tipo que não tem nada a ver com a cultura.) Mas a questão das audiências e da obsessão de (quase) todas as pessoas que trabalham em televisão pelas audiências sempre me passou ao lado. Eu sei que os canais que vivem de publicidade dependem das audiências e que não há serviço público sem público, mas &amp;ndash; e este é um grande mas &amp;ndash; primeiro, penso sempre que a prioridade deverá ser fazer não o que nos parece que o público acha o melhor possível, mas aquilo que nós achamos que é o melhor possível; segundo, as audiências já não são o que eram, ou seja, têm cada vez mais que se lhe diga.&lt;br /&gt;
É raro encontrar um director de programas que diga que gosta ou não gosta de um programa antes de consultar as audiências. Pode parecer estranho mas o normal em televisão, quando se pergunta a um director se gostou do programa, é receber a resposta: &amp;ldquo;vamos a ver amanhã&amp;rdquo;, isto é, &amp;ldquo;vamos a ver se teve boas audiências, porque se teve é sinal de que gostei muito&amp;rdquo;. Traduzindo para a vida real, é como se a excelente noite que passámos só foi realmente excelente se o público tiver gostado, ou na versão do Woody Allen: &amp;ldquo;Finalmente tive um orgasmo mas o meu médico disse-me que era do tipo errado&amp;rdquo;.&lt;br /&gt;
Esta febre das audiências é contagiosa. A quantidade de pessoas que nas produtoras de televisão correm com ansiedade para ver &amp;ldquo;como é que foi ontem&amp;rdquo; é incomparavelmente superior ao número de pessoas que se preocupa com a qualidade do programa. E, no entanto, chamem-me idealista, mas continuo a achar que o verdadeiro barómetro deve ser a consciência que cada um tem do trabalho que está a fazer, a partir das reacções que tem. É claro que as audiências são um dado importante mas &amp;ndash; cada vez mais &amp;ndash; a análise dos públicos não se resume a um simples número. &lt;br /&gt;
Já em 1997, quando fizemos um programa chamado Herman Enciclopédia, tivemos esta percepção. O programa foi um relativo flop de audiências. Era sempre derrotado de forma clara pela programação dos outros canais. Mas começámos a reparar que &amp;ndash; nos cafés, nos locais de trabalho, e depois nos jornais &amp;ndash; foram aparecendo frases do programa: &amp;ldquo;não havia necessidade&amp;rdquo;, &amp;ldquo;este homem não é do norte&amp;rdquo;, &amp;ldquo;não te desgraces&amp;rdquo;, &amp;ldquo;fantástico Melga&amp;rdquo; ou mesmo &amp;ldquo;lets look at the traila&amp;rdquo;. O programa não tinha grandes audiências mas ganhou notoriedade e deixou marcas. Ao contrário dos programas que na altura o derrotavam no campeonato das audiências. &lt;br /&gt;
Hoje em dia há muitíssimas mais razões para pôr em causa esta ditadura das audiências. Com a multiplicação dos canais e dos hábitos de consumo, os mecanismos de medição estão manifestamente obsoletos e não acompanham minimamente o que se está a passar em termos de visionamento. As agências de meios têm interesses instalados, ou seja, modelos de negócio e de influência sobre os anunciantes que estão promiscuamente relacionados com o status quo dos canais generalistas. Por fim, hoje mais do que nunca, os públicos estão pulverizados e dizer que se teve x ou y de audiência ou de share pode não querer dizer nada, se não tivermos mais dados. Por exemplo, o perfil de quem estava a ver ou a quantidade de pessoas que não viu nessa altura mas vai ver mais tarde, em gravação, on demand, na net... &lt;br /&gt;
Dizendo de outra maneira, temos que comparar tudo porque cada vez mais as coisas não são comparáveis. Não podemos comparar o milhão de pessoas que viu a telenovela com as cem mil que viram a entrevista com o escritor. Tal como não podemos comparar a tiragem do livro de poemas do Herberto Hélder com as vendas do José Rodrigues dos Santos. &lt;br /&gt;
A decadência das televisões generalistas e a multiplicação dos canais de nicho vem trazer uma nova realidade. Agora não temos público, temos públicos. Muitos públicos. &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 27 de Fevereiro de 2010.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-02-23T09:43:40</issued>
    <title>O Mundo, best of</title>
    <published>2010-02-19T12:45:40Z</published>
    <updated>2010-02-19T12:46:27Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Nasci nos anos 60, em 62, no exacto dia em que os Beatles lançaram o seu primeiro single, Love Me Do. Adoro os Beatles, as suas canções, e tudo o que eles foram e representaram. Quando os comecei a ouvir já eles tinham acabado. O meu primeiro LP dos Beatles foi o duplo de capa azul com o best of da 2ª parte da carreira deles. Eu, tal como Portugal, cheguei tarde aos anos 60, por causa da minha idade e por causa da ditadura. Em Portugal a explosão da cultura pop e jovem (passe a redundância) só aconteceu plenamente depois da revolução e do PREC, já nos anos 80.&lt;br /&gt;
Este delay acompanhou sempre a minha adolescência e fez de mim e de muitos da minha geração um adolescente tardio com tendência para começar a gostar de coisas que já tinham acabado. Daí a passar a gostar de coisas porque já tinham acabado foi um pequeno passo para a melancolia. &lt;br /&gt;
Musicalmente, os anos 70, os anos da minha adolescência, foram anos de rock sinfónico, de bandas pop rock que incharam em delírio megalómano até rebentarem ou serem rebentadas pelo movimento punk. &lt;br /&gt;
A verdade é que nunca gostei muito de rock, com excepções de que gosto muito, como Jagger e os Stones ou Morrison e os Doors (Muito menos de hard rock ou heavy metal. O punk sempre detestei). Mas adorava poder ter estado com 16 anos em Londres no início dos anos 60, e em São Francisco no final dessa década.&lt;br /&gt;
Extraordinário foi estar em Lisboa no 25 de Abril de 74, ter saído à rua nos dias seguintes e ver a revolução. Tinha 11 anos. Se tivesse 18 talvez fosse perfeito.&lt;br /&gt;
Vivo na cidade do Pessoa mas nasci quase 30 anos depois dele ter morrido. Estive de certeza em cafés e esquinas onde ele esteve. É possível que o meu pai, mais possível ainda o meu avô, se tenha cruzado com ele numa qualquer rua da Baixa. Se calhar falaram e beberam um copo juntos. É possível que um dos miúdos que vejo a jogar à bola no meu bairro lisboeta seja o super Pessoa do século XXI.&lt;br /&gt;
A seguir ao 25 de Abril comecei a ouvir música brasileira. Lembro-me que um dos primeiros discos era um best of do Chico Buarque, que vi ao vivo numa das primeiras festas do Avante. E depois foi o Caetano, e depois a bossa nova. &lt;br /&gt;
Se tiver que escolher um género musical é este, essa bossa e seus cantores. João Gilberto, a começar tudo com o Chega de Saudade, e Jobim, o compositor maior. Penso como seria maravilhosa a cidade, o Rio de Janeiro, no final dos anos 50, naquele intervalo de meia dúzia de anos antes da ditadura e antes das favelas e do crime. No meu best of do Mundo esta era a faixa 1: ter 20 anos e partilhar as canções e a praia com as garotas de Ipanema e os seus cantores. &lt;br /&gt;
A felicidade no Mundo, como na vida de cada um de nós, é efémera, mas pode acontecer várias vezes e sempre onde menos se espera. Ao olhar para trás, para toda a História do Mundo, para toda a alegria e glória, para toda a tragédia e pó, penso como seria a utopia da viagem no tempo, por todos os tempos e lugares do Mundo. Se fosse possível, como num best of das melhores músicas, viver, estar no sítio e no tempo dos melhores momentos do Mundo. &lt;br /&gt;
Uma ideia que tenho para um livro que ainda hei-de fazer, O Mundo, best of: Rio de Janeiro, 1958; Lisboa, 25 de Abril a 1 de Maio de 1974; Londres, início dos anos 60; Califórnia, fim dos anos 60. Mas também: Paris, início do século XX ou Filadélfia na Revolução Americana. Ou Roma, na República Romana. Ou a Atenas dos Filósofos. E a Lisboa de D. Manuel, no Terreiro do Paço, com o regresso das Caravelas e os seus mistérios e maravilhas. Córdova e o Al Andaluz. O Egipto de Nefertiti. O momento da descoberta do Brasil, ao lado de Pêro Vaz de Caminha. A Florença do século XV. A Pérsia de Alexandre. A Badgad das mil e uma noites. Uma ilha esquecida da Polinésia... &lt;br /&gt;
Discografia alternativa, os lados B dos singles, as faixas esquecidas, as raridades: Aquele entardecer perdido no Portinho da Arrábida da adolescência. O pai a dizer : uma noite descansada, antes de eu voltar a acender a luz para ler. Eu a dizer ao meu filho uma noite descansada. Como diz a canção, o melhor lugar do mundo é aqui e agora.&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-02-16T10:00:00</issued>
    <title>Aos autores desconhecidos</title>
    <published>2010-02-11T18:34:31Z</published>
    <updated>2010-02-11T18:34:31Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Promoveu a Sociedade Portuguesa de Autores, em colaboração com a RTP, a Gala dos Prémios Autores, que teve lugar esta semana no CCB e transmissão directa via RTP 1. A iniciativa é louvável. Um dos sinais da vitalidade de uma indústria é a existência de festivais ou iniciativas de escolha e premiação dos artistas dessa indústria. Em Portugal, tirando o território da publicidade e do marketing onde, pelo contrário, se dão prémios até à exaustão e ao ridículo, não é habitual celebrar os artistas vivos, nem a memória dos que nos deixaram. As galas de atribuição de prémios, quando acontecem no universo televisivo, confundem-se normalmente com festas do social e o critério de escolha dos premiados resume-se quase sempre a votações populares via chamadas de valor acrescentado ou cupões de revistas cor-de-rosa.&lt;br /&gt;
É por isso de saudar que surja uma iniciativa vinda de uma casa de autores, que se destine a premiar a criação em vários domínios e, particularmente, no caso do audiovisual, cinema e televisão, que há muitos anos não tinham uma escolha dos melhores do ano feita por críticos ou profissionais do sector. &lt;br /&gt;
Por muito arbitrária e discutível que seja essa escolha, e por muito relativo que seja, para um artista, a eleição como &amp;ldquo;melhor do ano&amp;rdquo;, estes momentos são sempre um pretexto para se celebrar e pensar comparativamente a produção nessa área artística.&lt;br /&gt;
Dito isto e não hesitando em elogiar a iniciativa, não quero igualmente deixar de manifestar a minha surpresa e o meu desconcerto quando ao assistir ao desfile dos prémios e dos premiados reparo que, nomeadamente nas áreas do teatro, do cinema e da televisão, não só não se considera a categoria de escritor, dramaturgo ou argumentista, isto é, o primeiro autor de uma obra de ficção teatral ou audiovisual, como quando o prémio é atribuído ao filme ou à série quem é chamado ao palco são os actores e produtores. A situação tem o seu climax de ironia quando, depois de receber o prémio para melhor programa de ficção pela série Conta-me Como Foi, o produtor actual da série chama ao palco toda a gente menos os argumentistas, que mal são referidos no discurso de agradecimento. É certo que é um formato espanhol, mas cada episódio é um original português, escrito de raiz. &lt;br /&gt;
Um dos chavões da cultura portuguesa é que &amp;ldquo;não há argumentistas em Portugal&amp;rdquo;. Como poderão eles ser reconhecidos se quando se dão prémios para o teatro, para o cinema e para a televisão, não se premeia aqueles que nestas áreas são os primeiros autores: dramaturgos, argumentistas, guionistas? Para ser exacto, é como dar o prémio de melhor romance ao editor do romance, sem referir o escritor ou dar o prémio de melhor disco à editora discográfica, sem referir o músico.&lt;br /&gt;
Sabendo que a infeliz tradição da nossa pequena indústria de entretenimento e audiovisual é a do louvor e glória dos apresentadores sobre o esquecimento continuado dos autores, nunca imaginei ver a própria Sociedade Portuguesa de Autores a contribuir para perpetuar o poder mediático da sociedade portuguesa de apresentadores sobre os criadores. Eu sei que era um espectáculo televisivo e que naturalmente houve a preocupação antes de mais, de certeza por parte da RTP, de pôr em palco caras conhecidas, mas é fundamental que em futuras edições haja lugar para as categorias, de facto, autorais. Estou certo que quer a SPA quer a RTP corrigirão esta falha numa iniciativa que é muito importante continuar. &lt;br /&gt;
À margem de tudo isto, no entanto, os autores movem-se. Também esta semana tive ocasião de participar na iniciativa Shortcutz, um festival de curtas-metragens que tem vindo a ter lugar no bar Bicaense, em Lisboa, todas as terças-feiras. Uma iniciativa de um pequeno grupo liderado por Rui de Brito, que tem vindo a exibir curtas-metragens e a promover conversas com os seus autores &amp;ndash; realizadores e argumentistas. Havia um Benfica-Sporting mas a sala estava cheia de um público interessado nas novas gerações de autores do audiovisual. Falou-se de muita coisa, inclusivamente de filmes de zombies, a propósito da passagem do excelente I&amp;rsquo;ll See You in My Dreams, do Filipe Melo. (Filmes de zombies que são, aliás, de um certo ponto de vista, uma tradição do cinema português, onde muitas vezes temos a sensação que está tudo a morrer). A verdade é que festivais como o Shortcutz são sinais de uma nova vitalidade, por sinal nada zombie. &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 13 de Fevereiro de 2010.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-02-09T10:03:51</issued>
    <title>“Aqui é que devia ser o Estoril”</title>
    <published>2010-02-04T17:05:22Z</published>
    <updated>2010-02-04T17:05:22Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Uma das minhas frases favoritas de sempre da comédia portuguesa, da comédia em geral, é a frase de António Silva no filme O Costa do Castelo, quando abre a janela da casa da sua personagem, precisamente na Costa do Castelo, e diz: &amp;ldquo;Olhem para esta maravilha, aqui é que devia ser o Estoril!&amp;rdquo;. &lt;br /&gt;
Eu moro na Costa do Castelo e quando abro a janela lembro-me da frase do António Silva. E vejo que a luz e a vista sobre o rio são uma maravilha, e nunca mais vi comédias como aquelas, em Lisboa e no cinema português.&lt;br /&gt;
Na Costa do Castelo é que deve ser a Costa do Castelo, mas a vida das cidades e dos bairros das cidades, muda, está sempre a mudar. E o que era está sempre a deixar de ser.&lt;br /&gt;
Torço sempre o nariz quando leio comentários, aliás frequentes, de respeitadas figuras, quase sempre mais velhos que novos, que dizem que Lisboa está cada vez mais sem interesse e sem sítios para ir, que está abandonada e a morrer. Pergunto-me sempre se essas pessoas saem de casa, ou se já experimentaram saír dos seus circuitos habituais e deixar-se ir pelos novos caminhos, para os novos sítios de Lisboa? É claro que Lisboa já não é o que era, é outra coisa. Mas percorrendo a cidade e observando o que se perdeu e o que se ganhou, parece-me evidente que nunca Lisboa foi tão diversa, dinâmica e estimulante nas últimas décadas como é agora.&lt;br /&gt;
Há muitas Lisboas em Lisboa, para além do bilhete postal do castelo, das sete colinas e do rio. E dentro do bilhete postal, por entre a luz de Lisboa, há as pessoas e a vida de todos os dias. A vida dos bairros. Como o da Costa do Castelo. Aliás, uma pulverização de múltiplas freguesias separadas numa organização administrativa que não faz sentido e não dá efectivos poderes às direcções das Juntas de Freguesia, para poderem resolver os pequenos problemas dos seus habitantes.&lt;br /&gt;
A vida de um bairro como este está sempre num equilíbrio precário, frágil e vulnerável a qualquer pequena mudança. A minha casa fica entre dois restaurantes. Nas traseiras o ambiente é sempre festivo, há música de fundo e animação e isso traz vida ao bairro, sem no entanto o perturbar de forma drástica, antes lhe dá um colorido harmonioso. Frente à minha casa, na rua de baixo, um outro restaurante veio mudar radicalmente o ambiente do bairro. Desde logo pelo cheiro insuportável a fritos de má qualidade, mas sobretudo pelas hordas de adolescentes que se acumulam à porta e que depois dos jantares ficam a beber cerveja e depois a uriná-la e vomitá-la por todos os cantos, sempre com manifestações de grande alarvidade gutural. &lt;br /&gt;
A pequena praceta dos jacarandás vai ficando conspurcada com os imundos graffitis e tags, odiosas formas de expressão sem imaginação e ditatoriais na maneira como se impõem na paisagem perante aqueles que lá moram ou passam.&lt;br /&gt;
À noite, com os outros bares à volta, as ruas enchem-se de carros por cima de todos os passeios e, por mais que se peça à Câmara Municipal para vedar o trânsito, para o limitar aos moradores, isso não acontece, e a única actividade policial é a caça à multa indiscriminada, que frequentemente recai sobre os próprios moradores, que se vão cansando cada vez mais da dificuldade permanente que é viver no centro de Lisboa. &lt;br /&gt;
Agora é Inverno, chove e faz frio. Lisboa parece feia e triste. Na praça dos jacarandás, do outro lado do restaurante dos jovens alarves, em frente ao Ministério das Obras Públicas, aumenta de semana para semana o número de sem-abrigo que ali dorme, no meio de cartões e plásticos. Não se vêem das janelas das casas da Costa do Castelo, agora fechadas, abrigadas do vento e da chuva. &lt;br /&gt;
Com a Primavera e os jacarandás em flor vão-se voltar a abrir as janelas e talvez alguém volte a dizer &amp;ldquo;Olhem para esta maravilha!&amp;rdquo;. Talvez se venha a filmar uma comédia aqui, talvez tenha graça. Mas o Estoril também já não é o que era.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 6 de Fevereiro de 2010.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-02-02T10:02:06</issued>
    <title>O papel? Qual papel?</title>
    <published>2010-01-28T17:04:22Z</published>
    <updated>2010-01-28T17:04:22Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;E ao vigésimo sétimo dia Steve Jobs lançou o iPad. E viu que era bom. &amp;ldquo;É a nossa tecnologia mais avançada, num aparelho mágico e revolucionário, a um preço inacreditável&amp;rdquo;, diz Jobs to the boys (and girls), que estavam mesmo a pedir, o iPad. &lt;br /&gt;
O iPad é, e cito a notícia do i, &amp;ldquo;um leitor de livros electrónicos, um aparelho de acesso à internet, um centro multimédia para gerir fotos, vídeos, música e contactos, uma consola de jogos...&amp;rdquo; &lt;br /&gt;
A característica decisiva é, sem dúvida, a primeira: um leitor de livros electrónicos. O próprio Jobs elogiou o papel pioneiro da Amazon nos leitores de livros electrónicos, mas disse que com o iPad a Apple vai &amp;ldquo;subir para os ombros&amp;rdquo; da Amazon. Ou seja, vai replicar o modelo da iTunes Store. Isto é, o mercado dos livros electrónicos (e dos jornais electrónicos, o New York Times é, desde já, o primeiro parceiro) vai ter finalmente o seu boom. &lt;br /&gt;
Uma revolução em marcha, claro. E o papel, o papel dos livros e dos jornais? Não vai desaparecer, mas os livros e os jornais vão ser cada vez mais objectos, peças de design, para guardarmos o que queremos preservar. Relembremos o verso de Caetano Veloso: &amp;ldquo;os livros são objetos transcendentes / mas podemos amá-los do amor táctil&amp;rdquo;.&lt;br /&gt;
A transcendência dos livros materializa-se cada vez mais no imaterial electrónico dos e-readers. Estamos a ler de uma nova maneira, tal como quando deixámos de ler em voz alta e passámos a ler em silêncio, agora estamos a aprender a ler em hiperligação. Não é só ler vários livros ao mesmo tempo, e jornais e afins, é ler e abrir uma porta numa palavra para passar para outro texto, e doutro texto para outro texto, sem fechar a porta do primeiro. &lt;br /&gt;
Passamos do texto para o hipertexto, e no paradoxo da hiperleitura lemos cada vez mais e cada vez menos lemos, com o tempo que temos, que não temos, para o tempo que a literatura exige. &lt;br /&gt;
Eu adoro ler livros, romances, contos, ensaios... Todos os dias leio referências a livros que quero ler e que se publicam diariamente. Mas só leio as referências, não leio os livros. Não tenho tempo. E olho à minha volta e vejo que é igual com os outros que, como eu, gostam de livros e gostam de ler. Mesmo os que vivem de escrever sobre livros (ou sobretudo esses) lêem a correr, transversalmente. E depois passam para outro, e para outro. Transformámo-nos todos em Marcelos Rebelo de Sousa, a despachar recomendações e títulos. Todos? Nem todos. Há, felizmente, aldeias de gauleses irredutíveis, fora do tempo. Mas o tempo é de hiperligações, caminhamos por cima de livros abertos e deixados a meio. &lt;br /&gt;
E o papel, o papel dos escritores, dos intelectuais? Pessoa antecipou tudo. O escritor é persona e personas, o escritor é múltiplo e palco de dramas em gente. O drama hoje em dia está desdramatizado mas os escritores heteronimizam por aí, pelo espaço público- que é o espaço mediático. Os escritores estão a tornar-se actores, performers e, tal como os músicos que, depois da net ter estoirado com as editoras todas poderosas, vivem dos concertos ao vivo e seus derivados, os escritores e intelectuais contemporâneos vivem dos seus espectáculos ao vivo: lançamentos, conferências, debates, defesa de causas, participações em fóruns, programas de TV, net, redes sociais, etc. &lt;br /&gt;
Os escritores do século XXI são performers da palavra no espaço público. Haverá sempre os eremitas, claro ( por sinal os que poderão ter mais valor mediático pela escassez das suas aparições), mas como já acontece noutros territórios - como a política, tudo se joga na representação pública no palco dos media e na replicação dessas representações nas hiperligações. &lt;br /&gt;
A literatura, ou a poesia, no futuro, como no passado, é o que resiste, o que fica dos tempos, com o tempo.&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-01-26T10:20:28</issued>
    <title>Televisão, televisões – multiplicar, dividir</title>
    <published>2010-01-21T17:55:30Z</published>
    <updated>2010-01-21T17:55:30Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;De que falamos quando falamos de televisão? De dia para dia a pergunta aumenta a sua interrogação. Na segunda metade do século XX a televisão ocupou o centro do palco mediático contemporâneo e o televisor foi o altar das nossas salas de estar. Foi o tempo das grandes estações generalistas, das grandes produções, do grande fluxo televisivo.&lt;br /&gt;
E agora? O televisor continua nas nossas salas de estar, mas está também frequentemente noutras divisões da casa. E há os portáteis e mutantes computadores, telemóveis, consolas, etc. Écrãs por todo o lado e cada vez mais conectividade, convergência, integração. Ou seja, acesso a conteúdos e plataformas de todas as maneiras e feitios. A diferença passa a ser mais de condição de recepção: mais perto, mais longe, com maior ou menor qualidade de definição e imagem, ver sozinho ou ver acompanhado; e muito menos do tipo de conteúdo, no sentido em que tudo tende a estar permanentemente disponível, seja por que meio for. Vai ser curioso ver quais as expressões que vão prevalecer. Continuaremos a dizer &amp;ldquo;ir à net&amp;rdquo;? E o que é que isso vai querer dizer? E ver televisão vai ser o quê? &lt;br /&gt;
O que vai acontecer com os conteúdos audiovisuais é o que já aconteceu com os conteúdos musicais. Eles vão surgir por todos os poros da net. E isso vai mudar radicalmente a indústria. Já está a acontecer em todo o mundo e vai acontecer em Portugal. &lt;br /&gt;
Veja-se o caso da música. Nunca a música popular portuguesa foi tão rica e variada. Porquê? Porque deixou de estar tudo afunilado nas editoras que decidiam o que se devia editar e não editar. Porque deixou de haver meia dúzia de papas que decidiam o que era ou não era bom. Desde que qualquer músico passou a poder chegar directamente aos ouvintes sem ter a autorização de qualquer detentor de meios de distribuição, que as propostas musicais se multiplicaram e a diversidade abriu novos caminhos, não só artísticos, mas igualmente novos modelos de negócio, dando origem a um novo panorama musical, inquestionavelmente mais vibrante e estimulante. &lt;br /&gt;
É preciso que aconteça o mesmo no audiovisual. Durante anos a produção audiovisual portuguesa foi decidida por meia dúzia de pessoas, em lugares chave: os directores, primeiro só da RTP, e depois da SIC e da TVI. É muito pouca gente para decidir o que tanta gente deve ou não deve ver. Se analisarmos mais em pormenor a história da televisão em Portugal, veremos que não só os centros de decisão eram muito poucos e sempre os mesmos, como as pessoas que ocuparam esse lugar foram e continuam a ser sempre as mesmas ou com o mesmo perfil. Quase sempre jornalistas, generalistas ou da área da política, a decidirem que filmes, séries, documentários, programas, é que devem ser produzidos. &lt;br /&gt;
O património audiovisual criado pelas televisões portuguesas reflecte o perfil dos decisores. Há um domínio de programas de informação de actualidade e entretenimento e uma escassez absoluta de programas de documentário e ficção. Há uma abundância de apresentadores e uma falta gritante de autores. &lt;br /&gt;
Tal como na música, este mundo está a acabar. Os canais vão-se multiplicar e os conteúdos audiovisuais vão surgir por todo o lado. E, à partida, essa diversidade é muito boa. Mas fazer produção audiovisual é mais caro do que fazer música. E a perda de importância dos canais generalistas traz grandes desafios. Quem vai investir em conteúdos de produção mais cara? Desde logo reportagens de investigação e, na área da ficção, grandes séries e filmes? Como é que se vai conseguir massa crítica, investimento publicitário, receita, se tudo está pulverizado e as audiências dispersas por mil e uma plataformas? E a questão não se põe unicamente do ponto de vista da sustentabilidade do negócio. Antes de mais, o que se pergunta é: que meios de comunicação, que canais, vão ser agregadores capazes de atrair e mobilizar comunidades? Ou seja, de ter relevância política.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;br /&gt;
 &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 23 de Janeiro de 2010.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-01-19T10:00:54</issued>
    <title>Casados de fresco</title>
    <published>2010-01-14T20:34:52Z</published>
    <updated>2010-01-15T15:04:55Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;&amp;ldquo;Famílias e como sobreviver-lhes&amp;rdquo; era o título do livro que John Cleese fez a meias com o (seu) psiquiatra Robin Skynner e podia ser uma definição para a vida de cada um de nós. Ou nas palavras de Philip Larkin &amp;ldquo;They fuck you up, your mum and dad. / They may not mean to, but they do. / They fill you with the faults they had / And add some extra, just for you. / But they were fucked up in their turn / By fools in old-style hats and coats, / Who half the time were soppy-stern / And half at one another's throats.&amp;rdquo;, Não preciso de traduzir, julgo que o primeiro verso, que dá o tom, é Esperanto Universal. &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;As famílias são a base da sociedade e podem ser, claro, lugares maravilhosos ou inescapáveis pesadelos. Ou as duas coisas, ou nenhuma delas. A verdade é que nascemos, quase todos, no seio delas, e delas temos que nos emancipar e libertar, partir para outra, quase sempre para outra família, sabendo sempre que a nossa família inicial permanece connosco até ao fim, bem ou mal.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Isto tudo a propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da discussão à volta da sua legalização. É sempre fascinante observar a obsessão da direita conservadora, com o seu lastro de opressão católica sobre a liberdade, a individualidade, o corpo e o desejo, em querer que o Estado interfira e controle aquilo que é mais irremediavelmente pessoal, enquanto simultaneamente defende a mínima intervenção possível desse mesmo Estado em tudo o que tenha a ver com os bens materiais e as suas transacções e negócios , negando uma intervenção estatal reguladora para a salvaguarda de um mínimo de dignidade social e de condições e oportunidades económicas justas para todos. É como se o dinheiro fosse o corpo para o sexo livre e sem barreiras, a orgia pública e consentida da direita dos bons costumes.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Mas o que estava em questão era pura e simplesmente uma questão de igualdade de direitos. O amor, o sexo ou a amizade são outra coisa. E não são para aqui chamados. Aqui trata-se de um direito a um contrato. Um contrato de casamento. Uma relação institucional de direitos e deveres com o Estado, que já tardava em ser aprovada. A sua proibição a pessoas do mesmo sexo era uma imposição abusiva do Estado ( como, aliás, é abusiva a lei das uniões de facto, que impõe o estatuto de casados a pessoas que não manifestam a vontade de casar).&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Os argumentos de que tudo isto acabará afinal por servir unicamente a meia dúzia de casais são falaciosos no contexto do respeito pelas minorias e pelos seus direitos, que não são, aliás, referendáveis Nem que tudo isto fosse para que um único casamento acontecesse, teria valido a pena.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;O que eu lamento é que tenha sido aprovado à portuguesa, com condicionante, amputada do direito de adopção. Que, no entanto, não tenho dúvidas, mais tarde ou mais cedo virá. Afinal o que é melhor: dezenas de milhar de crianças à espera de adopção, amontoadas em instituições, ou a possibilidade dessas crianças serem adoptadas por famílias, diferentes tipos de família, desde que aprovadas para adopção com critérios que tenham a ver com as possibilidades de felicidade que aquelas famílias em concreto possam proporcionar e não com preconceitos de género ou outros?&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&amp;ldquo;Um dia mereceremos que não haja governos&amp;rdquo; dizia Borges. Hoje não é a véspera desse dia, dizia Asterix, a propósito de outra coisa.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Neste caso, o Parlamento, ainda que por linhas tortas escreveu direito ao aprovar esta lei. Abre caminho para famílias mais abertas, com mais hipóteses para haver nelas pessoas mais felizes.&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-01-12T18:26:50</issued>
    <title>2010</title>
    <published>2010-01-12T18:27:48Z</published>
    <updated>2010-01-12T18:27:48Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;2009 ficará como o ano da grande crise mundial. Em Portugal poderá não ser assim. Pode ser que o ano da crise venha a ser 2010. &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Os sinais são péssimos: o impasse e a degradação da cena política, a corrupção e a falência do modelo de justiça, o problema financeiro e económico e o desemprego.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Como podemos contrariar este cenário pessimista? Para além de todas as reformas necessárias e urgentes nas áreas referidas que, bem ou mal, vão inevitavelmente ter de ser feitas, a resposta é simples: o foco tem que estar na economia. É pelo desenvolvimento da economia que podemos começar a resolver o problema do país. Temos de ultrapassar as análises pessimistas do défice, da dívida e da estagnação, e passar para a aposta nos investimentos económicos de futuro.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Há inúmeros estudos sobre as potencialidades do país e as áreas onde se deve investir. Falta investir. Não há, em Portugal, uma cultura do risco. Houve, no tempo das Descobertas, depois disso ficámos soterrados debaixo de séculos de inquisição e de um século XX de salazarismo.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;O problema principal da economia portuguesa é o perfil do empresário típico português. Mais chico-esperto do que informado, provinciano, sem mundo, agarrado ao dinheiro, sem dedicação à causa pública, com uma cultura empresarial onde há uma grande desproporção financeira entre os quadros superiores e os trabalhadores, e onde a motivação é muitas vezes substituída pelo simples medo de perder o trabalho. Acima de tudo, há uma visão predominantemente conservadora ou mesmo retrógrada, em vez de uma cultura da inovação e do risco.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;São raras as excepções, felizmente cada vez mais, mas ainda não as suficientes para que se perceba que há uma nova classe empresarial capaz de mudar o país.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Estão identificadas áreas de grande potencial económico em Portugal, onde está quase tudo por fazer. Desde logo o turismo, mas claro um turismo que aposte na qualidade e na diferenciação. Relacionado com o turismo, mas não só, a cultura. O potencial económico da cultura nunca foi realmente valorizado por nenhum governo. O entendimento que se tem da cultura tem sido sempre o da subsidiação a actividades consideradas decorativas ou ornamentais. Falta uma política integrada e transversal de incentivo às artes e indústrias criativas para que estas possam estabelecer as suas redes e gerar valor.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;E é preciso investir nas cidades, nas cidades como grandes centros agregadores de mistura e ligação, no potencial económico do cruzamento de culturas das cidades. É preciso investir no mar, na nossa costa. Nas energias renováveis. Nas redes de nova geração. Na Língua. No espaço da Língua Portuguesa. É preciso não perder a oportunidade do Brasil.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Dizia António Câmara, CEO da Ydreams, numa entrevista aqui no Económico, no final de 2009, que nos falta uma cultura de querer fazer e que o problema começa nas universidades, que não estão ligadas às empresas, não promovem essa abertura à sociedade e não estimulam o empreendedorismo. Mas dizia igualmente que apesar de não termos quadros de gestão em economia do conhecimento &amp;ndash; &amp;ldquo;um dos dramas de Portugal&amp;rdquo; &amp;ndash; a mudança empresarial é possível, &amp;ldquo;porque há uma massa crítica da juventude muito mais bem preparada do que alguma vez houve (...) há muito mais pessoas expostas ao mundo e portanto Portugal tem uma massa crítica de talento que nunca teve&amp;rdquo;. Portugal não pode deixar desperdiçar esta geração.&lt;br /&gt;
 &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 9 de Janeiro de 2010.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-01-07T11:12:03</issued>
    <title>Edição Especial - Caixa Trilogia Filipe Seems + DVD</title>
    <published>2010-01-07T11:19:55Z</published>
    <updated>2010-01-07T11:19:55Z</updated>
    <category term="livros"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: center"&gt;&lt;a target="_blank" href="http://nunoartursilva.no.sapo.pt/work/fstrailer.pdf"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black" height="331" alt="" width="240" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/lDKQpoZCGzpQTiJoTiQk/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt;&lt;span style="font-size: x-small"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;span&gt;&lt;i&gt;(Clique na imagem para fazer o download do texto &amp;quot;trailer para uma trilogia&amp;quot;).&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2010-01-05T09:56:56</issued>
    <title>“Poderemos ainda ser salvos pela ficção?”</title>
    <published>2009-12-31T03:58:34Z</published>
    <updated>2009-12-31T04:07:33Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Do monte de jornais e revistas desta época de Natal e de fim de ano, no meio de balanços e antevisões do ano e da década, recorto e guardo um artigo de António-Pedro Vasconcelos no jornal Sol onde, a propósito da estreia de Avatar ele diz: &amp;ldquo;... estes filmes (...) apesar do virtuosismo e das boas intenções, não respondem ao problema essencial do nosso tempo: poderemos ainda ser salvos pela ficção?&amp;rdquo;.&lt;br /&gt;
Jorge Luís Borges dizia que os jornais eram feitos para o esquecimento, ao contrário da literatura, que era o que ficava. Não sei se esta citação será esquecida, como boutade jornalística, ou se será lembrada como frase literária. O certo é que é uma citação datada. &lt;br /&gt;
Hoje publicam-se mais livros do que nunca, mas decresce o número de jornais em papel. No futuro próximo tudo estará disponível online e multiplicar-se-ão os dispositivos de leitura tipo Kindle. As publicações em papel, livros ou jornais, serão objectos de design destinados a coleccionar, tal como os DVDs ou os CDs. Como já acontece hoje com os livros para crianças, que se transformaram em livros-objectos, tridimensionais, arquitecturas de papel, por vezes com sons e gadgets diversos.&lt;br /&gt;
No futuro, como já acontece hoje, não é o suporte que determina a literatura. A literatura, ou a poesia, pode estar em todo o lado e onde menos esperamos, no hipertexto, em rede, nas paredes do metro ou no jornal de fim-de-semana, no meio dos artigos de economia e intriga política.&lt;br /&gt;
Num tempo em que a realidade dominante da comunicação social é a crise económica e financeira, e que os problemas do país e do mundo se resumem ao impacto dessa crise no quotidiano do país e de cada um de nós, a ideia de que a salvação pela ficção é o problema essencial do nosso tempo é tão absolutamente poética como verdadeira. &lt;br /&gt;
É sempre pela ficção, pelas histórias, pelo seu enredo e pelos seus heróis, pela sua poesia, que redimimos a realidade das nossas vidas. Desde sempre aquilo que nós somos, o que vivemos e o que sonhamos, na religião, na política, no amor, é por aquilo em que acreditamos. E aquilo em que acreditamos é a mitologia criada pelas ficções do nosso tempo.&lt;br /&gt;
As ficções do século XX foram sobretudo as do cinema e depois da televisão. E agora, no século XXI, que ficções temos, no momento em que a internet ocupa o centro, e a rede é não só uma realidade como um conceito e um processo de relação com o real e com as suas histórias? &lt;br /&gt;
Na sua recente passagem pelo festival de cinema do Estoril, Francis Ford Coppola dizia o mesmo que A.P. Vasconcelos, ou seja, que independentemente do 3D e dos efeitos especiais, o futuro estava, como sempre, nas histórias, na capacidade de contar histórias, de enredar os ouvintes e espectadores na teia (na rede) dessas histórias. &lt;br /&gt;
A visão de futuro de Coppola passava não tanto pela inovação tecnológica mas antes por novos conceitos como o surgimento de sessões de cinema onde realizadores/performers misturem fragmentos de filmes como hoje em dia os DJs e os VJs já fazem. É um novo futuro para as sessões em sala, dando-lhe um carácter único de eventos. Ou, numa versão mais pessoal, a possibilidade de cada um de nós ter um iPod de imagens ou de cenas favoritas de filmes.&lt;br /&gt;
Conceitos como o de mistura e ligação estão no centro da cultura popular contemporânea e não há-de faltar muito para estas antevisões começarem por se tornar culto e depois globalizarem-se. As formas reinventam-se, os meios mudam. Estamos sempre perdidos na tradução do mundo em que vivíamos para o mundo onde estamos sempre a começar a viver. O que nos pode salvar é - agora como sempre - a ficção.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 2 de Janeiro de 2010.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-12-30T19:30:38</issued>
    <title>A Lisboa de Seems</title>
    <published>2009-12-29T12:20:41Z</published>
    <updated>2009-12-30T19:34:34Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="notas"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;A fechar o ano, e ainda a propósito da edição especial da caixa com a trilogia Filipe Seems + DVD, aqui deixo duas notas.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Primeiro, o texto que escrevi para a edição de 11 de Novembro da revista Time Out, sobre a Lisboa de Seems, acompanhado pelos desenhos da série do António Jorge Gonçalves.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Depois junto a sequência de imagens que fizemos para as apresentações nas FNACs, que usámos como suporte para contar a história da nossa dupla criativa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A Lisboa de Seems&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No início dos anos 90 o António Jorge Gonçalves fazia banda desenhada e começou a fazer desenhos de Lisboa. O jornal SE7E convidou-o para publicar, primeiro, uma pequena história, e depois uma página todas as semanas. O Jorge desafiou-me a escrever o argumento. Foi quando decidimos criar um &amp;ldquo;herói&amp;rdquo;. O ponto de partida era uma versão irónica das bandas desenhadas clássicas e do imaginário dos detectives. A diferença era que tudo se passaria em Lisboa, num futuro mítico de Lisboa onde se misturam as Lisboas de todos os tempos, reais e imaginados.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;Para encontrar os locais das cenas das Aventuras de Seems, o António Jorge e eu começámos a percorrer Lisboa de lés a lés, tomando notas e tirando fotografias, fazendo como no cinema, múltiplas reperages. A diferença é que não tínhamos um guião fechado. Tínhamos o argumento esboçado mas a cena só era escrita depois de decidir o local.&lt;br /&gt;
O que é maravilhoso na banda desenhada é que podemos passar da imaginação para a concretização no desenho sem nos preocuparmos com autorizações, efeitos especiais, orçamentos ou, pura e simplesmente, com as leis da física e da lógica do universo.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;1 &amp;ndash; Filipe tem um amigo cientista, Eugénio, um afro-português, negro, casado com Jane, uma astronauta loira, e com um rasto de filhos, todos com nomes de cientistas famosos. Eugénio é um génio bonacheirão. Na primeira história, &amp;ldquo;Ana&amp;rdquo;, Filipe contacta-o e Eugénio, sempre repetindo a sua expressão favorita - &amp;ldquo;é curiosíssimo&amp;rdquo; &amp;ndash; sugere a hipótese da clonagem. A cena passa-se no laboratório de Eugénio, que decidimos situar numa versão do Instituto Superior Técnico com observatório astronómico, numa Alameda povoada de esculturas pop, com a Almirante Reis transformada num corredor para bicicletas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt;&lt;a target="_blank" href="http://fotos.sapo.pt/1o181LHKwkqca377Dlnz"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; width: 266px; border-top-color: black; height: 223px; border-right-color: black" height="500" alt="" width="475" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/1o181LHKwkqca377Dlnz/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;2 &amp;ndash; O mistério adensa-se quando surge uma terceira gémea. A cena passa-se num &amp;ldquo;espectáculo de moda&amp;rdquo;, misto de desfile e número de trapezistas, que tem lugar num gigantesco bar que não é senão a Basílica da Estrela. O espectáculo chama-se &amp;ldquo;Estrela da noite de todas as cores&amp;rdquo;, que era um verso do poeta surrealista português precocemente desaparecido António Maria Lisboa. Sempre nos agradou a ideia de ocupar os espaços das religiões institucionais para actividades hedonistas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt;&lt;a target="_blank" href="http://fotos.sapo.pt/PGpGyMpkofwyRud6Rtd5"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; width: 341px; border-top-color: black; height: 159px; border-right-color: black" height="267" alt="" width="500" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/PGpGyMpkofwyRud6Rtd5/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;3 &amp;ndash; Na minha infância e juventude morei em Campolide e, ao virar da esquina da minha rua, tinha uma vista sobre o vale de Alcântara, dominado pelo aqueduto das Águas Livres. Por baixo do aqueduto passavam, e passam, auto-estradas e o caminho de ferro. Mas antes disso, há mais de cem anos, o vale era um lugar bucólico e campestre, com um ribeiro a passar debaixo do aqueduto, como ilustram as gravuras da época. Na segunda aventura de Filipe Seems recuperámos esse vale e pusémos Filipe a pedalar uma bicicleta aquática para chegar ao aqueduto, subir umas escadas no arco principal, encontrar-se com Ana para um café lá em cima e depois abandonarem o local de balão, em direcção ao mar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt;&lt;a target="_blank" href="http://fotos.sapo.pt/Cgp5llWuJdYl3B42qVTB"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; width: 132px; border-top-color: black; height: 235px; border-right-color: black" height="500" alt="" width="242" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/Cgp5llWuJdYl3B42qVTB/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;   &lt;a target="_blank" href="http://fotos.sapo.pt/BUeVpzzEwszLtQkiFmO0"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; width: 292px; border-top-color: black; height: 232px; border-right-color: black" height="259" alt="" width="500" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/BUeVpzzEwszLtQkiFmO0/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;4 &amp;ndash; Os eléctricos são as personagens mais características de Lisboa, fazem parte da sua fauna. N&amp;rsquo;&amp;ldquo;A História do Tesouro Perdido&amp;rdquo; Filipe procura um deles, num sítio que sempre nos pareceu cinematográfico: a estação de eléctricos do Calvário. Se na Lisboa real existe o 28 que liga os Prazeres à Graça, e mais do que uma linha é uma metáfora e uma filosofia de vida, na Lisboa de Seems os eléctricos deslizam sobre a cidade, suspensos, e um deles irregular e erradio, tem como destino o &amp;ldquo;desejo&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;5 &amp;ndash; À procura do tesouro perdido, Filipe encontra-se novamente com Eugénio, numa visita ao Oceanário, com a família, onde acabaram de falar com os golfinhos. O Oceanário é, no universo Seems, um projecto utópico de um amigo nosso arquitecto, Rui Horta Santos, e consiste numa gigantesca onda em espiral no meio do Tejo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt;&lt;a target="_blank" href="http://fotos.sapo.pt/sZPqpvhE1MRvQlqkGzGA"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; width: 206px; border-top-color: black; height: 180px; border-right-color: black" height="500" alt="" width="474" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/sZPqpvhE1MRvQlqkGzGA/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;6 &amp;ndash; A mais emblemática imagem da série do Filipe Seems é a sequência da baixa veneziana. Sabendo dos afluentes do Tejo, que passam por baixo da Baixa, imaginámos uma Lisboa inundada, como Veneza, onde o barulho e a poluição dos automóveis fossem substituídos pelo deslizar misterioso das gôndolas e dos seus gondoleiros errantes e, na nossa versão, cegos. O grande lago do Terreiro do Paço é directamente inspirado num dos nossos autores de BD favoritos, Fred, e na sua série Philémon, e é o palco para um concerto que os espectadores ouvem por auscultadores nas suas cadeiras flutuantes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt;&lt;a target="_blank" href="http://fotos.sapo.pt/CArAPdHWds4S8yZKYTtj"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; width: 159px; border-top-color: black; height: 249px; border-right-color: black" height="500" alt="" width="279" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/CArAPdHWds4S8yZKYTtj/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a target="_blank" href="http://fotos.sapo.pt/BIeIVzCTI4ZsvUnywO9G"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; width: 171px; border-top-color: black; height: 247px; border-right-color: black" height="500" alt="" width="245" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/BIeIVzCTI4ZsvUnywO9G/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;7 - Logo no início da primeira história Filipe Seems está sentado num escritório de detective particular. Mais à frente percebemos que o escritório é uma divisão da sua casa e a fachada de detective é uma auto-ironia literária. Filipe é de facto um escritor ou &amp;ldquo;programador de histórias de vídeo-bd&amp;rdquo;. Um detective muito particular, mais seduzido pelas pistas do que pelas provas. E imaginámos como único companheiro de Filipe o gato Schro, abreviatura de Schrodinger (um físico que ficou famoso por causa da experiência que fez com um gato). Um dos hábitos de Seems era vaguear com Schro pelos telhados da sua casa na costa do Castelo. No final do &amp;ldquo;Ana&amp;rdquo; decidimos que ela ficava com ele, o que só é revelado no último quadradinho, e pensámos que a melhor maneira de visualizar essa utopia de final feliz era com a visão de uma Lisboa coberta por um manto branco de neve.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt;&lt;a target="_blank" href="http://fotos.sapo.pt/DjQJFEja3ET8UIMCUgae"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; width: 403px; border-top-color: black; height: 135px; border-right-color: black" height="194" alt="" width="500" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/DjQJFEja3ET8UIMCUgae/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;8 - Se &amp;ldquo;A História do Tesouro Perdido&amp;rdquo; era uma história solar, luminosa, com cenas marítimas, um percurso de aventura, de um sítio para outro à procura de um tesouro sempre nunca perdido, &amp;ldquo;A Tribo dos Sonhos Cruzados&amp;rdquo;, quase dez anos depois, era uma&lt;br /&gt;
história nocturna, subterrânea, densa, passada nas catacumbas de Lisboa e com Filipe Seems perdido e perturbado nos seus sonhos e fantasmas interiores. A única imagem luminosa desta terceira história é esta quando, depois de percorrer os túneis do metro e o acampamento cigano subterrâneo, seguindo a borboleta, Filipe desemboca numa fenda da fachada dos Jerónimos e sai para uma Belém inesperadamente transformada em praia tropical.&lt;br /&gt;
 &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt;&lt;a target="_blank" href="http://fotos.sapo.pt/S2cYGJQ0jaFFlRe766hm"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; width: 311px; border-top-color: black; height: 198px; border-right-color: black" height="345" alt="" width="500" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/S2cYGJQ0jaFFlRe766hm/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;9 &amp;ndash; Esta é uma versão negra do primeiro projecto de fachada do Cinema Éden original, tal como foi imaginado por Cassiano Branco. Não seria aprovado, acabando por ficar o outro, entretanto destruído. É neste Éden que se reúne a seita da conspiração, um grupo de cegos perante um écrã branco. Já na primeira história tínhamos utilizado um projecto nunca concretizado de Cassiano Branco, nesse caso um plano de urbanização da Costa da Caparica nos anos 30. Na primeira história é o sítio que Filipe sobrevoa de asa delta e onde acaba por pousar, antes de perder a moto voadora que perseguia.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt;&lt;a target="_blank" href="http://fotos.sapo.pt/WKGgTI2TBsES3RZIyC8J"&gt;&lt;img style="border-left-color: black; border-bottom-color: black; width: 164px; border-top-color: black; height: 216px; border-right-color: black" height="500" alt="" width="354" border="0" src="http://fotos.sapo.pt/WKGgTI2TBsES3RZIyC8J/500x500" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left"&gt;Filipe Seems e outras histórias - percurso de uma parceria&lt;/p&gt;

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    &lt;param name="movie" value="http://rd3.videos.sapo.pt/play?file=http://rd3.videos.sapo.pt/tqbkzEj5VfRGcRi28vkr/mov/1"&gt;&lt;/param&gt;
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&lt;/object&gt;
    
&lt;p style="text-align: left"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: center"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: left"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-12-29T11:25:49</issued>
    <title>E na televisão :  dois mil e noves fora nada</title>
    <published>2009-12-29T11:26:40Z</published>
    <updated>2009-12-29T11:27:29Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;2009 foi um mau ano para a televisão portuguesa. A decadência dos canais generalistas é uma evidência nos números das audiências e, sobretudo, na programação. O aumento da notoriedade e da audiência do cabo, seguramente maior do que indicam os insuficientes sistemas de medição, não é, aparentemente, acompanhado pela capacidade financeira dos seus canais portugueses para criarem conteúdos próprios. &lt;br /&gt;
Este foi o ano em que se discutiu a viabilidade de um quinto canal generalista, num contexto em que essa discussão se tornava de dia para dia mais obsoleta. Os projectos do quinto canal foram chumbados pela entidade reguladora, que decidiu aquilo que devia ser o mercado a decidir. &lt;br /&gt;
O proteccionismo aos grupos existentes impediu a tentativa de criar diversidade e não gerou qualidade na oferta televisiva. Um novo projecto poderia ter aberto novas possibilidades. Se se viesse a verificar dificuldades nos grupos de comunicação caberia a estes encontrar soluções que poderiam passar por parcerias, como aliás aconteceu recentemente em Espanha. &lt;br /&gt;
Por outro lado, assistimos ao lançamento de mais um canal de informação no cabo, ficando Portugal com três canais informativos ( para não falar do futuro canal do grupo Económico).&lt;br /&gt;
Falando dos três grandes grupos de televisão: a TVI continua líder nos ditos generalistas mas o seu modelo de programação não se renova, está estagnado. Por outro lado, a TVI 24 não trouxe nem inovação nem audiências.&lt;br /&gt;
A SIC continua à procura de uma nova identidade. Mais bem posicionada no cabo do que no generalista, sobretudo por causa da SIC Notícias, a estação tarda em encontrar um novo caminho. A SIC Mulher, embora com um perfil definido, continua aquém do seu potencial; a SIC Radical perdeu claramente élan; e no fim do ano foi lançada a SIC K, praticamente sem conteúdos nacionais, o que é , no mínimo, precipitado.&lt;br /&gt;
A RTP não parece alterar uma vírgula à sua estratégia de sempre: aposta quase exclusiva na RTP 1 como canal generalista popular em que a marca de serviço público nem sempre é evidente, a não ser na relativa diversidade de formatos em antena e no investimento, ainda que tímido, noutros tipos de ficção portuguesa que não a telenovela. &lt;br /&gt;
A RTP 2 é uma manta de retalhos incoerente. A RTP Internacional continua a ser um vazadouro sem orçamento e sem projecto próprio. A RTPN melhorou, ainda que seja discutível o seu conceito.&lt;br /&gt;
Se havia um projecto que fazia sentido no contexto da RTP era a criação de um canal/portal para crianças. Mais uma vez a RTP deixou-se antecipar.&lt;br /&gt;
No meio da crise, uma evidência: mais do que nunca, o Estado tem de apoiar a produção audiovisual em Língua Portuguesa. E este apoio não se pode esgotar no subsídio aos filmes portugueses escolhidos por um júri arbitrário, tem de ser pensado estrategicamente num quadro mais amplo. E, desde logo, no contexto dos canais de televisão, existentes e a existir. &lt;br /&gt;
Aliás, mais do que um ou outro canal, e independentemente da tão discutida, embora de forma quase sempre redutora, questão do controlo da informação, o grande impasse de 2009 e a grande incógnita para 2010 é a reorganização dos grupos de comunicação portugueses no novo contexto de multiplicação digital.&lt;br /&gt;
A grande questão das televisões - das marcas de média em geral- é: qual o modelo de negócio? Temos o futuro próximo para o descobrir. &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico, no dia 26 de Dezembro de 2009.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-12-22T09:40:12</issued>
    <title>E pode-se assobiar</title>
    <published>2009-12-18T09:33:36Z</published>
    <updated>2009-12-18T09:33:36Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;&amp;ldquo;O optimista pensa que vivemos no melhor de todos os mundos possíveis. O pessimista receia que isso seja verdade&amp;rdquo;. A frase é de Robert Oppenheimer, considerado &amp;ldquo;o pai da bomba atómica&amp;rdquo;. Seria ele um optimista ou um pessimista? A verdade é que inventou uma bomba que pode acabar com qualquer mundo, o melhor e o pior. A realidade muda. Às vezes estrondosamente.&lt;/p&gt;
&lt;div style="text-align: justify"&gt;Nesta época natalícia ocorre-me falar dessa antítese de Pai Natal que é o Profeta da Desgraça. Tal como os Pais Natal nos centros comerciais, com a crise, têm-se multiplicado os Profetas da Desgraça nos canais informativos. Há-os em versão light , mas os que se destacam são os do género apocalíptico. De entre estes, Vasco Pulido Valente e, sobretudo, Medina Carreira.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify"&gt;Para Pulido Valente a explicação de tudo em Portugal está no século XIX e no início do século XX. Tudo o que acontece hoje, cem anos depois, explica-se à luz dessa época e de acordo com a evidência de que os portugueses são muito estúpidos. É verdade que o Eça e o Camilo são mais actuais do que gostaríamos, mas é divertido verificar a quantidade de vezes que Pulido Valente se enganou nas suas previsões. Medina Carreira reduz tudo à questão financeira e ao facto de estarmos a perder não sei quantos milhões por dia e caminharmos irreversivelmente para a banca muito rota por causa da total incompetência do pessoal político. E, tal como Pulido Valente, não só não deixa de ter uma certa razão como, pela certa, lhe está a faltar uma outra razão essencial.  &lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify"&gt;No âmbito da Física, a experiência do gato de Schrodinger mostrava, não só como a realidade é complexa como, simplificando, que é impossível observá-la sem nela interferir.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify"&gt;O que se vê depende sempre de quem vê e donde se vê. E da fé. É a velha questão do copo meio cheio ou meio vazio. E de quem o feio ama bonito lhe parece. Ou na versão pessimista: quem o bonito detesta, feio lhe parece.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify"&gt;Nas comédias televisivas utilizavam-se risos gravados para condicionar a recepção do espectador. Experimentem ver um programa de humor com uma plateia predisposta a gostar do comediante e depois ver o mesmo programa num grupo que à partida não acha graça nenhuma ao mesmo comediante. É como ver dois programas diferentes. A expressão &amp;ldquo;estado de graça&amp;rdquo; aplica-se aqui na perfeição.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify"&gt;No palco do nosso Portugal bipolar têm contracenado Cândidos e Velhos do Restelo para todos os gostos, com melhores ou piores audiências. O que têm faltado são fazedores. Daqueles que fazem realmente a diferença.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify"&gt; Um dos que fizeram realmente a diferença, talvez o que fez mais a diferença em Portugal, nos últimos cem anos, Mário Soares, editou agora um ensaio dedicado aos jovens intitulado &amp;ldquo;Elogio da Política&amp;rdquo; onde lembra que a política é uma actividade nobre. É o momento certo para o lembrar e Soares tem a autoridade para o fazer. É um optimista com 85 anos. Sempre foi. E o seu optimismo fez mudar o país.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify"&gt;O meu filme favorito sobre a vida de Cristo chama-se &amp;ldquo;A Vida de Brian&amp;rdquo;, dos Monty Python. O filme termina com os crucificados a cantarem &amp;ldquo;Always look on the bright side of life&amp;rdquo;. Parecendo que não, é um belo e sábio mandamento. E pode-se assobiar.&lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify"&gt; &lt;/div&gt;
&lt;div style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 19 de Dezembro de 2009.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;</content>
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    <issued>2009-12-15T16:03:44</issued>
    <title>Exposição do Mundo Português</title>
    <published>2009-12-15T16:06:41Z</published>
    <updated>2009-12-18T09:33:59Z</updated>
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    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Fiquei a saber, na entrevista dada pela nova Ministra da Cultura à revista Visão, que o Museu de Arte Popular vai avançar já este ano e que a Ministra espera inaugurá-lo em 2010, &amp;ldquo;tal como foi concebido e no espaço onde estava&amp;rdquo;. Fiquei a saber também que, em relação ao Museu da Língua: &amp;ldquo;Haverá um museu, de preferência situado num local emblemático para a portugalidade&amp;rdquo; e que: &amp;ldquo;A expansão portuguesa e a língua portuguesa serão um projecto comum&amp;rdquo;. &lt;br /&gt;
Primeira declaração de interesses: estive envolvido no projecto do anterior Museu da Língua. Segunda declaração de interesses: sou amigo do anterior Ministro da Cultura. &lt;br /&gt;
Como se imagina, tive com ele uma série de conversas pessoais sobre muitos temas, incluindo a cultura (conversas que poderão ter sido até, quem sabe, escutadas). Mas, em ano e meio, só por duas vezes participei, a título profissional e nunca remunerado, em iniciativas do Ministério da Cultura, e por convite deste. (Com grande probabilidade menos do que se não conhecesse o Ministro). Uma foi uma participação num debate e outra foi o convite para participar, a título individual, num grupo de trabalho sobre um projecto para o Museu da Língua. Aceitei, com muito prazer, porque o projecto e a equipa eram estimulantes. Tratava-se de fazer um museu que não se esgotasse na lógica expositiva de uma história da Língua, ligada à expansão portuguesa, que era o projecto da anterior Ministra, Isabel Pires de Lima, mas que celebrasse também a Língua nas suas múltiplas realizações presentes. O grupo era dirigido pelo António Câmara, da Ydreams, e incluía arquitectos e artistas visuais. O projecto foi pensado para o edifício do antigo Museu de Arte Popular, por sua vez antigo pavilhão da Exposição do Mundo Português. Podia ter sido pensado para outro sítio? Claro, por exemplo para o inacreditavelmente abandonado Pavilhão de Portugal. Ou para outro sítio, embora não qualquer. Foi pensado para ali porque o dito Museu de Arte Popular passaria a integrar o Museu de Etnologia. E porque havia a oportunidade de fazer agora um Museu da Língua naquele sítio privilegiado, frente ao rio, em Belém, com espaço para autocarros das escolas e dos turistas e com condições para um anfiteatro para espectáculos, livraria e esplanada. Havia condições para o fazer e inaugurar em 2010. Não só condições financeiras mas de articulação de parcerias, nomeadamente com o Museu da Língua de S. Paulo, Brasil. &lt;br /&gt;
Percebo agora que fica adiado o Museu da Língua e avança o Museu de Arte Popular. Ou mais exactamente o Museu que celebra o fake popular inventado por António Ferro para a exposição dos anos 40. Pode ter a graça do kitsch e pode inclusivamente ser uma versão revista e actualizada que contextualize o lado feira do artesanato. Mas parece-me que um Museu da Língua seria sempre um museu mais prioritário e estratégico. E um museu que seja da Língua e não um híbrido da Língua e da expansão portuguesa. E acreditem que não falo em interesse próprio. E, já agora, ao contrário do que foi dito, e publicado no jornal Sol, as Produções Fictícias nunca estiveram envolvidas no projecto do museu. Nem nunca demos por que houvesse uma &amp;ldquo;contestação generalizada por parte dos meios culturais da capital&amp;rdquo; ao dito museu. O que houve foi, como sempre, falta de debate público, manipulação de informação e mau jornalismo. Talvez um dia se faça um museu sobre isso.&lt;br /&gt;
 &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 12 de Dezembro de 2009.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-12-08T09:11:02</issued>
    <title>Novas sobre o achamento do Brasil</title>
    <published>2009-12-04T17:45:32Z</published>
    <updated>2009-12-16T11:52:27Z</updated>
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    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&amp;ldquo;Primeiro encontramos, depois procuramos&amp;rdquo; dizia Picasso, pintor espanhol e do mundo. Nós, portugueses, primeiro encontrámos o Brasil. Falta agora, mais de quinhentos anos depois, procurá-lo. &lt;br /&gt;
O começo não podia ter sido mais auspicioso, segundo a narrativa que dele fez Pêro Vaz de Caminha na carta em que escreveu a El Rei D. Manuel &amp;ldquo;a nova do achamento desta vossa terra nova&amp;rdquo;. E a terra nova que achávamos era, para além da terra real primeiro intitulada de Vera Cruz, a nova Língua Portuguesa, pátria que Pessoa haveria de proclamar séculos depois. E Caetano de cantar, roçando a sua língua na língua de Luís de Camões. E perguntando: &amp;ldquo;o que quer, o que pode esta língua?&amp;rdquo;, e respondendo &amp;ldquo;Livros, discos, vídeos à mancheia / E deixa que digam, que pensem, que falem&amp;rdquo;.&lt;br /&gt;
Faz 75 anos que Pessoa escreveu a &amp;ldquo;Mensagem&amp;rdquo;, o seu único livro de poemas em português que foi publicado antes da sua morte e que agora a Guimarães edita em cópia do dactiloscrito original. Em vez dos poemas com nomes de reis e heróis, hiperbolizados e ultra-citados, escolho uma passagem do lado B do livro, do poema Horizonte, que fala da terra a abrir-se em sons e cores &amp;ldquo;E, no desembarcar, há aves, flores, / Onde era só, de longe a abstracta linha&amp;rdquo;. &lt;br /&gt;
Para além do épico d&amp;rsquo;&amp;rdquo;Os Lusíadas&amp;rdquo; e do pícaro da &amp;ldquo;Peregrinação&amp;rdquo; há na pátria marítima da Língua Portuguesa navegações e derivas que só a poesia alcança. &amp;ldquo;Outros dirão senhor as singraduras / Eu vos direi a praia onde luzia / A primitiva manhã da criação&amp;rdquo;, escrevia Sophia; e de novo e sempre Sophia: &amp;ldquo;Vi as águas os cabos vi as ilhas / E o longo baloiçar dos coqueirais (...) As ordens que levava não cumpri / E assim contando tudo quanto vi / Não sei se tudo errei ou descobri&amp;rdquo;. &lt;br /&gt;
Ou Al Berto no conjunto de poemas Salsugem escrevendo do marinheiro que &amp;ldquo;... ficava a bordo encostado às amuradas horas a fio (...) com &amp;ldquo;a vontade sempre urgente de partir&amp;rdquo; ou das mulheres que ficavam &amp;ldquo;à beira mar debruçadas para a luz caiada / remendando o pano das velas espiando o mar / e a longitude do amor embarcado...&amp;rdquo;, (...) acreditando que algum homem ao passar se espantasse com a minha solidão.../ (anos mais tarde, recordo-me agora, cresceu-me uma pérola no coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
Só na poesia nos encontramos, no esplendor da Língua que é a Literatura, nossa única pátria. &amp;ldquo;Falta cumprir-se Portugal&amp;rdquo; dizia Pessoa na &amp;ldquo;Mensagem&amp;rdquo;. Esse Quinto Império mítico é o do sonho e da música da Literatura em Língua Portuguesa, hoje disseminada por todo o mundo em &amp;ldquo;livros, discos, vídeos à mancheia&amp;rdquo;. O futuro de Portugal é a mistura, a mestiçagem e a vadiagem da língua portuguesa pelo mundo. O futuro de Portugal é o Brasil. &lt;br /&gt;
O acordo ortográfico é útil e inútil porque inevitável. Se não formos com o Brasil para o mundo ficaremos mirandeses e o nosso português ficará o mirandês do português. &lt;br /&gt;
Se há um desígnio para a CPLP é a criação de uma verdadeira comunidade cultural. A revolução da internet definindo um novo território imaterial traz consigo a oportunidade para a criação dessa comunidade. &lt;br /&gt;
É tempo de procurar o Brasil. É tempo do Brasil nos descobrir.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br type="_moz" /&gt;
&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 5 de Dezembro de 2009.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-12-03T10:00:21</issued>
    <title>Conspiração 6</title>
    <published>2009-11-05T16:11:12Z</published>
    <updated>2009-12-10T19:53:46Z</updated>
    <category term="peças guiões"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Vídeo da versão teatral d'&amp;quot;As Investigações de Filipe Seems&amp;quot;. Com Kalaf, Marco d'Almeida e Sandra Celas. Música de Armando Teixeira, desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves, realização de Pedro Macedo e Pedro Rodrigues, produção Bus / PF.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;

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&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt; &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-12-01T21:10:22</issued>
    <title>Poética da errância</title>
    <published>2009-12-01T21:15:30Z</published>
    <updated>2009-12-01T21:16:04Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;&amp;ldquo;Só nos apaixonamos pelas cidades onde nos apaixonamos.&amp;rdquo; Era a frase que escolhi para abrir a crónica de há três semanas. Citava de memória e dizia que era, &amp;ldquo;salvo erro&amp;rdquo;, de António Muñoz Molina no seu livro &amp;ldquo;O Inverno em Lisboa&amp;rdquo;. Não era. Mas podia muito bem ser. Era quase. O Rui Cardoso Martins contava-me a história de um seu amigo que, tendo visto um carro parecido com o dele, Rui, a passar, lhe disse: &amp;ldquo;hoje quase que te vi.&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
A frase não era do Molina, era do Durrell, citado pelo Molina. A verdade é que a frase não é de nenhum deles. O que se lê n&amp;rsquo;&amp;rdquo;O Inverno em Lisboa&amp;rdquo; é: &amp;ldquo;ama-se uma cidade &amp;ndash; di-lo Durrell no &amp;ldquo;Quarteto de Alexandria&amp;rdquo; - quando se está apaixonado por um dos seus habitantes.&amp;rdquo; Aliás esta citação vem logo na badana da edição do Círculo dos Leitores que cita um texto de Francisco Bélard, no Expresso de 10 de Outubro de 1987, onde ele, portanto, cita Molina que cita Durrell. &lt;br /&gt;
É o que dá citar de memória. Mas pelo menos avisei que citava de memória e &amp;ldquo;salvo erro&amp;rdquo;. A frase, tal como a escrevi, tanto quanto sei, não era de ninguém. Sendo uma falsa citação passaria a ser minha, tanto quanto uma frase pode ser nossa, até prova em contrário. Apesar de ser copiada de uma ideia do Durrell (através do Molina). &lt;br /&gt;
Isto tudo para falar de citações e de erros. &amp;ldquo;Adoro citações.&amp;rdquo; O rigor de um citação pode ser muito importante: Ela disse &amp;ldquo;Desaparece!&amp;rdquo; ou &amp;ldquo;Sai da minha frente!&amp;rdquo;?Muito importante. &lt;br /&gt;
Outro livro de outro autor de que não me lembro (americano) começava com três citações: &amp;ldquo;To be is to do&amp;rdquo; (Sócrates, o antigo); &amp;ldquo;To do is to be&amp;rdquo; (Sartre), e &amp;ldquo;Do be do be do&amp;rdquo; (Frank Sinatra). É todo um programa. &lt;br /&gt;
A minha história preferida com citações é a do mendigo que estava a pedir esmola e a quem o homem que estava a passar disse: &amp;ldquo;Se um pobre te pedir um peixe não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar: Confúcio&amp;rdquo;. Ao que o mendigo respondeu: &amp;ldquo;Fuck you: David Mamet&amp;rdquo;. &lt;br /&gt;
Aprendemos imenso com os nossos erros. Acertar muitas vezes não tem interesse nenhum e, com o tempo, acaba por trazer muita melancolia. Dizem. Quando erramos temos que tentar outra vez, temos que tentar não errar de novo, temos de perceber como é que isso se faz. No processo sofremos e aprendemos. &lt;br /&gt;
&amp;ldquo;Try again. Fail again. Fail better!&amp;rdquo; (Beckett). Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor! Se traduzirmos fail por erra, traduzimos mal, perdemos o Beckett na tradução mas podemos ganhar qualquer coisa se dissermos &amp;ldquo;Tenta outra vez. Erra outra vez. Erra melhor!&amp;rdquo;. A palavra errar pode ter o sentido de vaguear. Errante é o que erra ou vagueia. Vaguear pode ser divagar. E divagar é quase sempre devagar. Mas hoje em dia quase nada é devagar. E mesmo divagar pode ser o que se faz muito depressa. Ligando umas coisas às outras. Ligando ou linkando. Podem-se escrever crónicas assim. Por tentativa e erro. Tudo pode começar com uma citação. Sobretudo se for uma citação errada. Um erro pode ser muito produtivo. A melhor maneira de conhecer uma cidade é perdermo-nos nela. Enganarmo-nos no caminho. Um engano é uma citação errada. Podemos conhecer uma pessoa por engano. Um engano é um detalhe no destino. A vida é uma comédia de enganos. Os romances são feitos de detalhes. Um romance é estrutura e detalhes. &amp;ldquo;Deus está nos detalhes.&amp;rdquo; Quem disse? Um romance pode ser um erro. &amp;ldquo;Mesmo que os romances sejam falsos, não importa, não importa, são bonitas as canções.&amp;rdquo; (Chico Buarque, tenho a certeza. Falta a música.). &lt;br /&gt;
Já para não falar das gralhas. Uma gralha é um pássaro que era para ser outro. (Esta frase é minha, inventei-a agora). &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Ecónomico no dia 28 de Novembro de 2009.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-26T10:01:58</issued>
    <title>Conspiração 5</title>
    <published>2009-11-05T15:41:37Z</published>
    <updated>2009-11-10T15:39:55Z</updated>
    <category term="peças guiões"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Vídeo da versão teatral d'&amp;quot;As Investigações de Filipe Seems&amp;quot;. Com Kalaf, Marco d'Almeida e Sandra Celas. Música de Armando Teixeira, desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves, realização de Pedro Macedo e Pedro Rodrigues, produção Bus / PF.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;

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&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt; &lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Continua...&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-24T09:43:08</issued>
    <title>O futuro visto daqui</title>
    <published>2009-11-19T17:45:18Z</published>
    <updated>2009-11-19T17:45:18Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;&amp;ldquo;A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro&amp;rdquo;. A frase é do John Lennon, que teve uma vida cheia e a quem a morte aconteceu enquanto fazia planos para o futuro, passe a ironia negra. &lt;br /&gt;
Agora que estamos no fim da primeira década do século XXI e que imaginamos como é que será a próxima, faço o exercício de recuar várias décadas e de relembrar quais eram os meus planos para o futuro, sobretudo no tempo em que eu fazia planos para o futuro.&lt;br /&gt;
Como é que era o futuro no passado? &lt;br /&gt;
No final dos anos 70 eu estava no Liceu Pedro Nunes e partilhava com os meus amigos o gosto pela ficção dita científica. Um dos exercícios obrigatórios era fantasiar o futuro no mítico ano 2000 e cruzar leituras, filmes e fantasias. Carros voadores? Chegada a Marte? Provas de inteligência extraterrestre? Robots humanóides? É sempre muito divertido rever as visões do futuro das várias épocas passadas. Das conversas do Pedro Nunes saíam delirantes visões de naves espaciais mas nunca ninguém imaginou a internet. Os filmes futuristas dão sempre vontade de rir pelos pormenores de design e pelos anacronismos em que tropeçamos no meio dos rasgos visionários. Os Flight of the Conchords têm uma canção, já desta década de 2000, que sintetiza este espírito, &amp;ldquo;the distant future, the year 2000, the humans are dead&amp;rdquo;... &lt;br /&gt;
2009 visto do pátio do Pedro Nunes fazia de mim um ancião rodeado de robots que regularmente passava férias na lua. Hoje rio-me, claro, do visionarismo vesgo e tropeço nos meus próprios anacronismos. Mas acima de tudo, tenho saudades daquele pátio. Continuo a fazer antevisões para a próxima década, mas começo a ficar mais fascinado por tudo o que já aconteceu.&lt;br /&gt;
A Newsweek publicou no seu site um vídeo que resume a década: da derrota de Gore à vitória de Obama, é uma visão muito americana, claro, mas é o chauvinismo mais popular e decisivo do planeta. Em sete minutos revemos a década: o 11 de Setembro e os outros atentados, Madrid, Londres, Bali; o Afeganistão e o Iraque, Bin Laden e Sadam; mas também o iPod, o Youtube e as redes sociais, Harry Potter e a multiplicação dos reality shows e a morte de Michael Jackson; a crise económica e a gripe A... &lt;br /&gt;
Como é que seria se cada um de nós pudesse fazer a sua retrospectiva pessoal com imagens e sons do que foi a última década da sua vida? Aqui fica uma ideia para o futuro. Quando será que isso é possível? No filme The Final Cut, Robin Williams faz o papel de um editor que a partir de implantes do cérebro das pessoas falecidas faz uma edição do essencial da vida dessas pessoas. O filme perde-se em cenas de acção provavelmente impostas pelos modelos de produção standard, mas a personagem melancólica de Williams fica. &lt;br /&gt;
Como é que será o balanço da próxima década? A Wired do mês passado escolhia dez coisas que havemos de dizer aos nossos netos, por exemplo: &amp;ldquo;no meu tempo os concursos de televisão davam prémios em dinheiro a quem conseguisse armazenar mais informação na cabeça; os écrãs eram maiores mas só mostravam filmes a certas alturas do dia; guardávamos ficheiros nos nossos próprios computadores e tinhamos que recorrer a esses mesmos computadores para ter acesso a eles!&amp;rdquo;&lt;br /&gt;
Passamos imenso tempo a imaginar como vai ser o futuro. Escrevem-se páginas e páginas com antevisões tecnológicas, políticas, sociais, comportamentais, artísticas... Vivemos fascinados com o mundo de possibilidades à nossa frente, como jogadores viciados no tudo ou nada da roleta. Porque o que é fascinante nos exercícios de futurologia é saber que tudo muda a cada instante, que um cisne negro quem sabe esvoaçará no lago, que a próxima esquina que virarmos pode-nos fazer encontrar o que já não procurávamos, que o acaso continua a jogar aos dados e a escrever o destino, que &amp;ldquo;o destino é a inteligência secreta do acaso&amp;rdquo;, como dizia René Char, que &amp;ldquo;o destino passa (...) como uma pluma caprichosa / passa pelos olhos de um gato&amp;rdquo;, como dizia Alexandre O&amp;rsquo;Neill. &lt;br /&gt;
Passo o tempo a imaginar o futuro mas a única coisa que conta, a única coisa que vai contar, é como é que nesse tempo vai ser o meu passado. &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico no dia 21 de Novembro de 2009.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-19T10:00:09</issued>
    <title>Conspiração 4</title>
    <published>2009-11-05T12:01:27Z</published>
    <updated>2009-11-10T15:39:24Z</updated>
    <category term="peças guiões"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;Vídeo da versão teatral d'&amp;quot;As Investigações de Filipe Seems&amp;quot;. Com Kalaf, Marco d'Almeida e Sandra Celas. Música de Armando Teixeira, desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves, realização de Pedro Macedo e Pedro Rodrigues, produção Bus / PF.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;

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&lt;/object&gt;
    
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;Continua...&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-17T10:00:05</issued>
    <title>A televisão precisa de autores</title>
    <published>2009-11-13T18:50:37Z</published>
    <updated>2009-11-13T18:50:37Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Está de novo em Lisboa, para um seminário, Robert McKee, geralmente considerado o grande mestre da escrita de argumentos. Sobre o cinema português as suas considerações são, no mínimo, muito discutíveis ou mesmo ignorantes, sobretudo quando diz que os filmes portugueses fazem da pobreza um objecto decorativo ou que trabalhar com subsídios do estado &amp;ldquo;é sempre aceitar fazer implicitamente uma certa forma de propaganda&amp;rdquo;. Mas é impossível não concordar quando diz que o cinema português não tem uma dimensão universal e que é &amp;ldquo;imaturo&amp;rdquo;. Contudo, para mim, a afirmação mais interessante é a que faz na entrevista ao DN, quando diz que as pessoas precisam de novas imagens, novas linguagens e novas formas de beleza, e que &amp;ldquo;Hoje a televisão é o lugar onde tudo isso se concretiza (...) os melhores estão a deixar o cinema para irem para a televisão. A verdade é que lá têm mais liberdade para criar, mais espaço para desenvolverem as narrativas e as personagens, e também mais dinheiro. Os escritores de séries têm hoje um enorme poder&amp;rdquo;. McKee fala, é claro, da televisão americana. A realidade da televisão portuguesa não poderia ser mais oposta. A produção de ficção na televisão portuguesa, no conjunto dos seus canais generalistas e de cabo é, com honrosas excepções, um deserto de ideias e de formas, um lugar onde não há espaço para se desenvolverem narrativas para além das monocórdicas telenovelas. Um espaço povoado de formatos internacionais plastificados. Um território onde os autores não têm qualquer poder. Não há lugares de decisão artística. É tradição os directores de programas, normalmente jornalistas ou ex-jornalistas, interferirem de forma arbitrária nos conteúdos, sem delegarem essa interferência em equipas de profissionais reconhecidos em áreas artísticas. É normal serem tomadas decisões estratégicas de política de conteúdos por analistas de audiências, marketeiros ou administrativos genéricos. Há décadas que é assim e é por isso que quando pensamos na produção de ficção nacional há tão pouca coisa que mereça ser mencionada. &lt;br /&gt;
Quando falo com actores, autores, realizadores ou técnicos de maneira geral, sobre o seu trabalho em televisão, o mais comum é ninguém gostar do que está a fazer. Fazem-no com brio profissional, para ganhar dinheiro, mas ninguém fala do seu trabalho em televisão com entusiasmo. É um extraordinário desperdício de recursos e talento, geração após geração, num meio, a televisão, que devia ser o palco privilegiado para a existência de uma cultura narrativa forte e diversificada. Agora que a televisão se reinventa no contexto da internet e da multiplicação de écrãs, é tempo de mudar os modelos organizacionais dominantes, que têm contribuído para esta situação de estagnação, e investir a sério, com estratégia e de forma planificada, na criatividade. Só a criação de ficções originais pode originar um verdadeiro património audiovisual nacional. Sabendo que as realidades americana e portuguesa não são comparáveis, pela escala e pelo investimento financeiro, há todavia um ponto onde o exemplo americano pode e deve ser seguido: a aposta nos autores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Económico, no dia 14 de Novembro de 2009.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-12T10:01:37</issued>
    <title>Conspiração 3</title>
    <published>2009-11-05T11:05:28Z</published>
    <updated>2009-11-10T15:38:54Z</updated>
    <category term="peças guiões"/>
    <content type="html">&lt;p&gt;Vídeo da versão teatral d'&amp;quot;As Investigações de Filipe Seems&amp;quot;. Com Kalaf, Marco d'Almeida e Sandra Celas. Música de Armando Teixeira, desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves, realização de Pedro Macedo e Pedro Rodrigues, produção Bus / PF.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;

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&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;i&gt; Continua...&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-10T15:26:43</issued>
    <title>"O grande lance é fazer romance"</title>
    <published>2009-11-10T15:27:37Z</published>
    <updated>2009-11-10T15:37:55Z</updated>
    <category term="artigos ensaios"/>
    <category term="todas as semanas é isto"/>
    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Só nos apaixonamos pelas cidades onde nos apaixonamos. Cito de memória a frase, salvo erro, de António Muñoz Molina no seu livro &amp;ldquo;O Inverno em Lisboa&amp;rdquo;.&lt;br /&gt;
Dizer que estamos apaixonados e falarmos na paixão tornou-se, hoje em dia, uma banalidade. Por tudo e por nada, nas revistas e nas televisões, nos contextos mais diversos, toda a gente declara que está apaixonada por isto ou por aquilo e que não pode viver sem paixão. Lembro-me sempre de um provérbio índio que Sophia de Mello Breyner Andresen citava, julgo que a propósito da palavra revolução, usada por tudo e por nada a seguir ao 25 de Abril, e que dizia que &amp;ldquo;uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba&amp;rdquo;. &lt;br /&gt;
Mas, se limparmos a baba da vulgaridade e do kitsch, a ideia de estarmos apaixonados pelas cidades onde nos apaixonamos é, ao mesmo tempo, poética e verdadeira. &lt;br /&gt;
Molina falava da paixão por uma mulher e, como acontece nas histórias de paixão, quando se perde a pessoa por quem estamos apaixonados, ganha-se para sempre a mitologia dessa paixão, e ela nunca morre. E o sítio onde a paixão começou e o encontro teve lugar fica para sempre um monumento íntimo nessa cidade da nossa vida. &amp;ldquo;Teremos sempre Paris&amp;rdquo;, como dizia Bogart em Casablanca.&lt;br /&gt;
Hoje em dia, com o fim das grandes narrativas, o amor e a paixão românticos e relativamente uniformizados pela literatura sentimental e pelo cinema clássico de Hollywood e depois banalizados e estereotipados pelas revistas do coração, a televisão e as telenovelas, implodiram e explodiram em mil e um estilhaços. As pessoas, claro, continuam a &amp;ldquo;apaixonar-se&amp;rdquo;, ou seja, a ter desejo umas pelas outras e a encontrar inspiração e expressão para o seu desejo na caótica mitologia contemporânea.&lt;br /&gt;
Hoje, como antes, é nas histórias e nos seus heróis que procuramos a resposta para perceber quem somos, aquilo com que nos identificamos, aquilo que nos faz correr e nos anima, nos dá alma. O que mudou foram as histórias e a maneira de as contar.&lt;br /&gt;
Tal como está a acontecer na relação dos crentes com as grandes religiões uma cada vez maior personalização, especificidade e liberdade na relação de cada um com a mitologia tradicional, também nessa grande religião profana que é a literatura, e em particular a literatura de temática amorosa, os mitos tradicionais estão a dar lugar a uma nova mitologia complexa, instável e incerta. &lt;br /&gt;
Mas existirão sempre os sítios e as cidades para as nossas &amp;ldquo;paixões&amp;rdquo;. Num tempo em que, pela primeira vez na História da Humanidade, há mais gente a viver em cidades do que no campo, as cidades são cada vez mais os lugares caóticos dessas paixões. Quando falamos de cidades falamos de habitação, trânsito, ordenamento do território, etc, e pensamos em realidades físicas. Mas, mais que uma realidade física, uma cidade é uma realidade mental. Como o amor, &amp;ldquo;una cosa mentale&amp;rdquo;. Uma cidade é um livro onde todos os dias se escrevem novas histórias. Romances. &lt;br /&gt;
Passear ou vaguear numa cidade é vaguear pelas histórias que fazem a História dessa cidade. Quanto mais histórias mais mítica é a cidade. Quanto mais imagens, mais real é. &lt;br /&gt;
No filme Casablanca o avião partia para Lisboa. Rick e Ilsa ficaram para sempre com Paris, mas nunca tiveram Lisboa. Nós, lisboetas, podemos tê-la. Como canta Vinicius Cantuária, &amp;ldquo;o grande lance é fazer romance&amp;rdquo;.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt;Crónica publicada no Semanário Económico no dia 7 de Novembro de 2009.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;</content>
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    <issued>2009-11-05T10:37:00</issued>
    <title>Conspiração 2 </title>
    <published>2009-11-05T10:45:36Z</published>
    <updated>2009-11-07T19:39:42Z</updated>
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    <content type="html">&lt;p style="text-align: justify"&gt;Vídeo da versão teatral d'&amp;quot;As Investigações de Filipe Seems&amp;quot;. Com Kalaf, Marco d'Almeida e Sandra Celas. Música de Armando Teixeira, desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves, realização de Pedro Macedo e Pedro Rodrigues, produção Bus / PF.&lt;/p&gt;
&lt;p style="text-align: justify"&gt; &lt;/p&gt;

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&lt;p style="text-align: justify"&gt;&lt;i&gt; Continua...&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;
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